Crítica | 2 Coelhos

Duas tendências encontram mixagem no desenvolvimento de 2 Coelhos. A primeira é a inspiração na linguagem frenética da cultura pop contemporânea, uma junção de games, videoclipes, quadrinhos e outras narrativas oriundas do universo tecnológico atualizadíssimo. A segunda é a presença de um acidente de trânsito como mola propulsora do ciclo de desacertos na vida dos personagens que gravitam em torno desta narrativa aparentemente descerebrada, mas tecida por uma extensa malha crítica que perde o seu impacto em alguns breves trechos, haja vista a imaturidade do nosso cinema ao lidar com questões excessivamente tecnológicas. Acuado pelo descaso público de seus gestores governamentais e também desanimado por encontrar ressonâncias da corrupção em todos os ambientes que trafega, o protagonista da produção esboça, planeja e executa um projeto para implodir tais situações, com resultados catastróficos.

Sob a direção de Afonso Poyart, cineasta também responsável pelo texto dramático, 2 Coelhos aborda um universo pouco comum no cinema brasileiro, haja vista o excesso de explosões e efeitos visuais, em especial, as animações que nos remetem aos endinheirados filmes hollywoodianos e toda a sua pirotecnia. Lançado em 2012 e conduzido musicalmente pela dupla formada por Marcio Nigro e André Abujamra, a produção é narrada por Edgar (Fernando Alves Pinto), o centro de tudo, catalisador das mudanças na vida de todos os personagens que gravitam em torno de sua desajeitada existência. Ele quer fazer justiça, acredita que pode agir pelas próprias mãos, guiado por suas convicções na mudança do status quo. Edgar é o que podemos chamar de um “indignado”. Ele não aguenta tanta criminalidade, até mesmo as falcatruas de seu pai, um homem que fez negociações escusas para retirar o próprio Edgar da prisão, responsável por algo trágico que saberemos apenas adiante.

O seu plano é mexer no passado de Walter (Caco Ciocler), um homem que perdeu toda a família num terrível acidente automobilístico. O problema é que seus planos possuem algumas falhas, inerentes aos seres humanos, imprevisíveis. E, será por meio dessa inconstância que as naturezas humanas circundantes desta história ora favorecerão, ora atrapalharão o seu projeto de mudança. Quem parece ser algo adjuvante não é, há bastante dúvidas no ar, com transformações inesperadas que nos deixam sem saber se os planos de redenção vão se efetivar ou se vai diluir como as esperanças da população brasileira diante da miséria social e desigualdade de classes. Com suas ruas frenéticas, linguagem dos games na colaboração da velocidade dos acontecimentos e ambientação caótica, comum aos grandes centros urbanos, 2 Coelhos é ironia pura.

Seguem com o personagem vários personagens, mas destacamos Júlia (Alessandra Negrini), promotora pública, Maicon (Marat Descartes), um ardiloso chefe de quadrilhas, Jader (Roberto Marchese), Deputado Estadual, além de Hermes (Noviral Rizzo). Para nos contar essa história, Poyart contou com a correta direção de fotografia de Carlos Zalasik, certeiro na escolha dos enquadramentos e movimentação nas cenas mais badaladas, em especial, a cena do acidente que mudou os rumos da vida de um dos personagens principais. O design de produção de Alexandre Goulart é pop, com bastante referência aos filmes emulados no próprio texto, com objetos e cores vivos, intensos e espaços urbanos, conectados com o que chamamos de contemporâneo. Os figurinos assinados por Carolina Sudati também revestem os principais personagens e suas necessidades dramáticas, dispostos nesta narrativa editada pelo cineasta, em parceria com a dupla formada por Lucas Gonzaga e André Toledo.

Diante do exposto, ao longo de seus 108 minutos, 2 Coelhos trouxe uma tendência não muito comum ao cinema brasileiro, tendo uma fatalidade no trânsito como um dos principais fios condutores desta narrativa repleta de críticas sociais pertinentes ao nosso momento histórico. Sem a linearidade comum aos filmes com estrutura engessada entre começo, meio e fim, a produção é “refrescante” enquanto estilo, mas trava em diversas passagens, o que pede ao espectador mais tolerância para algumas passagens relativamente dispersivas. Ademais, uma comédia com boas dosagens de apontamentos para um cinema que mescle crítica e humor sem pender exageradamente para um dos lados.

2 Coelhos — (Brasil, 2012)
Direção: Afonso Poyart
Roteiro: Afonso Poyart
Elenco: Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Fernando Alves Pinto, Marat Descartes, Neco Villa Lobos, Thaíde, Thogun
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.