Crítica | 2001 – Uma Odisseia no Espaço (Marvel Treasury Edition)

Não sem razão, Stan Lee é o nome mais corriqueiramente ligado à Marvel Comics, considerando seu início de carreira em 1939 na Timely Comics (como assistente) que, como muitos sabem, evoluiria para Atlas Comics, predecessora direta da editora do Quarteto Fantástico. Todas as suas prolíficas criações ao longo dos anos 60 e 70 estabeleceram os alicerces criativos da empresa, mas o lado marketeiro de Lee sem dúvida também cumpriu um papel de certa forma egoísta de atrair todas as atenções para si, fazendo com que grandes nomes – tão ou mais responsáveis por diversas das criações atribuídas ao “The Man” – ficassem nas sombras.

Jack Kirby, apesar de ser muito conhecido por quem aprecia quadrinhos de super-heróis, é um desses nomes que famosamente sempre permaneceu à margem do amplo reconhecimento da editora e do público em geral, mas a grande verdade é que Kirby é mais Marvel do que o próprio Stan Lee, considerando que ele, juntamente com Joe Simon, foi responsável pela criação do Capitão América, em 1941, escrevendo e desenhando o personagem antes de Stan Lee escrever pela primeira vez nos quadrinhos, algo que se deu na edição #3 de Captain America Comics.

O Capitão América, porém, foi apenas a “ponta de lança” de Kirby que passou as décadas seguintes produzindo sem parar para a Timely, Atlas e, finalmente, Marvel Comics, até desentender-se profundamente com a editora, com Lee e com o editor Martin Goodman em razão de falta de liberdade criativa, do enorme destaque dado a Lee, falta de créditos como roteirista e uma renegociação de contrato que tentava forçar cláusulas ainda mais desfavoráveis a ele. Com isso, a grande locomotiva criativa da Marvel sairia de lá em 1970, migrando para a DC Comics no ano seguinte e ficando por lá até 1975, deixando para trás magníficas criações próprias debaixo do guarda-chuva intitulado Quarto Mundo.

Mas, em 1976, como parte de um grande anúncio pelo próprio Stan Lee, Kirby voltaria à editora que o albergou originalmente, novamente trazendo sua mente efervescente como motor de novas criações importantes, como Os Eternos (sem dúvida fortemente inspirados em suas criações do Quarto Mundo) e o razoavelmente desconhecido, mas inesquecível, Homem-Máquina (originalmente Mister Machine) como parte da publicação mensal baseada em 2001 – Uma Odisseia no Espaço. E isso nos traz, finalmente, justamente à situação da adaptação do grande sci-fi sessentista de Stanley Kubrick para os quadrinhos.

A base na lua.

Afinal de contas, esse grande marco da Sétima Arte havia sido lançado em 1968 e sua conversão em HQ em 1976 é algo para se coçar a cabeça em incredulidade. Temos que pensar que 2001 é um filme razoavelmente hermético, que não conversa e nunca conversou muito bem com a juventude que é usualmente o alvo de quadrinhos. Some-se a isso o fato de que oito anos já haviam se passado quando a Marvel adquiriu os direitos de adaptação, mas isso foi feito em razão da interferência direta de Jack Kirby. O autor, como parte de seu “pacote” para voltar à editora exigiu 2001 – Uma Odisseia no Espaço e a Marvel, então ainda investimento pesado em adaptações das mais variadas obras cinematográficas em quadrinhos, estratégia que logo no ano seguinte lhe traria o triunfo que foram a adaptação e a longeva publicação mensal baseada em Star Wars, acho que valia o esforço e assim foi feito, com 2001 de Kirby ganhando uma versão em quadrinhos de tamanho avantajado da série Marvel Treasury Edition iniciada em 1974 (e que foi recentemente ressuscitada, vale lembrar!) com lançamento precedido de toda a pompa e circunstância que algo assim merece.

Sei que já empreguei uma boa quantidade de palavras e parágrafos sem sequer chegar na obra em si, mas creio que seu desconhecimento pelo público em geral – mesmo os leitores de quadrinhos – merecia essa contextualização. O fato é que Jack Kirby, se pararmos para refletir, talvez fosse o último nome que passaria pela cabeça de alguém para fazer tamanha adaptação. E não digo isso de forma alguma para diminuir seu talento e capacidade, pois isso ele tem de sobra, mas sim pela incompatibilidade prima facie entre seu estilo e a criação de Kubrick.

Basta lembrarmos de suas criações sci-fiQuarteto Fantástico, Quarto Mundo e Eternos especialmente – para percebermos como elas são estilisticamente o oposto da introspeção do diretor britânico. Kirby sempre trabalhou de maneira espalhafatosa, criando personagens maiores que a vida, com uma qualidade quase teatral, máquinas e ambientação de ficção científica que estremecem a barreira entre esse gênero e a pura fantasia. Seu espaço sideral nunca é pontilhado de estrelas brancas longínquas, mas sim quase que uma espécie de matéria viva pululante multi-colorida e multi-facetada que é embasbacante na mesma medida que é surreal. É bem verdade que 2001 tem sua dose generosa de viagem lisérgica ao final que realmente combina com o estilo de Kirby, mas estamos falando de apenas alguns relativamente poucos minutos de uma literal odisseia de 2h40′. A quietude e o realismo são duas das marcas do filme, assim como dos diversos contos de Arthur  C. Clarke que serviram de inspiração.

Portanto, ler a versão em quadrinhos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço exige que o leitor entenda esse “choque de estilos”, compreenda-o e absorva-o completamente, deixando que a película clássica seja visualmente reinventada por Jack Kirby. E o resultado é absolutamente espetacular no campo visual.

Em termos de roteiro, Kirby não arrisca e segue à risca o que Kubrick levou às telonas, não se deixando embriagar completamente pela pegada mais didática da adaptação literária de Clarke. No entanto, ele faz sim uma fusão entre roteiro e livro, extraindo da versão de Clarke muitos textos expositivos que recheiam grande parte do silêncio imposto por Kubrick. Apesar de o leitor não ter a narrativa repleta de grandes desvios, o enxerto dos diálogos de Clarke quebram substancialmente a “mística” do filme, algo que o livro também o faz e até mais severamente (considero a versão literária bem inferior à fita). De certa forma – mas apenas de certa forma – Kirby não tinha muita escolha, pois os diálogos em 2001 são econômicos e nada didáticos. Ao resgatar longos trechos de Clarke, Kirby acaba por um lado fazendo a escolha certa para a mídia que domina, mas, com isso, arriscou alienar leitores que porventura tivessem uma visão mais purista do filme. Pessoalmente, acredito que os visuais de Kirby falam por si só e o roteirista e artista poderia ter muito facilmente dispensado os textos emprestados do livro.

O começo da viagem lisérgica de David.

Mas, mesmo pecando no roteiro, é mesmo a arte que retira 2001 do lugar comum, inserindo a HQ em um universo multi-colorido e explosivo que poderia mesmo ser parte do Quarto Mundo ou das criações marvelianas equivalentes de Kirby. No entanto, novamente, os mais puristas potencialmente considerarão a pegada de Kirby completamente antitética ao estilo de Kubrick e ela de fato é. Não há como escapar dessa conclusão e é por isso que afirmei que é necessário que o leitor entenda todo o contexto e conheça uma boa parte da obra de Kirby, com seu estilo que, quando foi sedimentado, tornou-se praticamente imutável, para que consiga apreciar o resultado.

O 2001 de Kirby é, talvez, uma afronta ao 2001 de Kubrick. Mas antes uma afronta do que uma adaptação literal e escrava da obra cinematográfica, que pouco acrescentaria à ela. Para que apenas o mesmo se podemos ter o mesmo de maneira diferente. E é isso que Kirby entrega generosamente ao leitor no que eu classifico muito mais como uma “colisão de gênios”. Céus explodem, visuais primordiais da Aurora do Homem inundam a visão do leitor e o agarram de maneira tão eficiente quanto o silêncio assustador de Kubrick. E, quando somos arremessados para o futuro, mergulhamos no sci-fi neo-realista de Kirby sem dó nem piedade, com os icônicos visuais das naves e trajes espaciais acompanhando-nos fielmente a cada virada de página.

Kirby foi cuidadoso em ter certeza de que todos os grandes momentos visuais do filme ganhassem uma versão em suas páginas. Isso exigiu um trabalho hercúleo e algumas concessões. Se a mais fantástica elipse da História do Cinema – um osso tornando-se um satélite bélico – é aquilo tudo no cinema, nos quadrinhos sua versão é mais muda do que a explosão de cores da viagem espacial da Discovery One para Júpiter. Mas tudo que ansiamos ver nas páginas está lá. Da maneira Kirby de ser, mas está lá. Vemos os monólitos pulsantes de vida (o preto profundo de Kubrick simplesmente não existe), a centrífuga central da nave sendo maravilhosamente trabalhada em um longo quadro vertical, raro de se ver em quadrinhos na época, assim como toda a famosa sequência do desligamento de HAL 9000 por David, culminando com a já mencionada viagem lisérgica do astronauta sobrevivente e sua chegada ao próximo passo da evolução da humanidade (ou seja lá sua interpretação para o final).

As cores de Kirby e de Marie Severin explodem nas páginas e chegam até a cansar a vista, mesmo que sejam irresistíveis. É como ver a versão carnavalesca de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, definição que se dissessem antes de ler já me faria encarar a empreitada com todo o preconceito possível. Mas a grande verdade é que o Carnaval de Kirby é elegante, longe da breguice reinante nos desfiles que logo vêm à mente. Os sentidos serão afrontados, mas se o leitor souber deixar-se levar, a experiência é inesquecível (especialmente se a obra for lida no hoje raríssimo de se encontrar formatão original).

Contra todas as probabilidades, Jack Kirby triunfa em uma esquecida adaptação extemporânea de uma obra que jamais “pediu” para ganhar uma versão em quadrinhos. Mesmo considerando os exagerados enxertos narrativos que reduzem o poder da obra original, as criações visuais do mestre da Sétima da Arte são extravagantes demais para serem ignoradas. Muitos podem achar o resultado anti-Kubrick demais, mas assim como o cineasta fazia suas adaptações cinematográficas de obras literárias da forma que ele julgasse melhor, Kirby fez o mesmo com Kubrick nos quadrinhos. E ambos acertaram!

2001 – Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, EUA – 1976)
Roteiro: Jack Kirby (baseado no filme de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke)
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Frank Giacoia
Cores: Marie Severin, Jack Kirby
Letras: John Costanza
Fotos: Dave Kraft
Editoria consultiva: Archie Goodwin, Marv Wolfman
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro de 1976
Páginas: 72 (quadrinhos) + 12 (extras)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.