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Crítica | 2020 Nunca Mais

por Kevin Rick
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Nada mais poético do que Charlie Brooker, o criador da ótima, porém pessimista (na maioria das vezes), série Black Mirror, fazer uma retrospectiva de 2020 que, para dizer o mínimo, foi um ano atípico mundialmente. Ao invés de seguir a rota dramática conhecida da sua célebre obra, Brooker decide assumir uma posição cômica para o especial 2020 Nunca Mais, filmado em forma de mocumentário, intercalando uma série de entrevistas com “especialistas” em diferentes campos profissionais, contando ainda com uma narração autoritária de Laurence Fishburne. A ideia geral da fita é bem simples: recapitular os terríveis eventos de 2020 de forma satírica. Infelizmente, 2020 Nunca Mais é uma bagunça contraditória.

A incoerência temática já inicia-se no título americano, Death to 2020. Primeiro que esse é um daqueles casos no qual o título brasileiro é abundantemente melhor que o original, em questões de atrair a audiência, pois a “morte à 2020” simplifica muito bem o descaso de Charlie Brooker em criar uma obra que realmente satiriza as dificuldades do ano. Afinal, “morte” passa a mensagem de esquecer, enterrar, obliterar, ocultar, e se a História nos ensina algo, é que não devemos deslembrar eventos trágicos globais, pois, assim como o ser humano, o Mundo necessita de experiências passadas como aprendizado para prudência e prevenção futuras.

Se a contradição ficasse apenas no título da obra, não seria um grande problema, até porque, quem não sentiu raiva e ódio de 2020? Só que, a denominação incongruente do filme configura apenas o primeiro indício da completa falta de perspectiva para o humor observacional, no qual Brooker quer vender uma paródia documental do ano, mas entrega um filme focado quase que inteiramente na situação política americana, negligenciado toda e qualquer adversidade global que não tenha acontecido debaixo do umbigo dos EUA (e também do Reino Unido), na velha visão “fechada” de tantas obras cinematográficas – e também da sociedade e dos governos – de ambos países enxergarem apenas seus problemas como prioridade mundial.

E o absurdo é que nem a sátira política é divertida, manuseando entrevistas de personagens postos na obra como impressões de determinados campos profissionais, mas seus títulos específicos terminam por não agregarem em nada à comentários fracos e insossos através de recipientes vazios, mais servindo como um joguinho de surpresa ao ver grandes intérpretes como Samuel L. Jackson, Hugh Grant, Lisa Kudrow e Kumail Nanjiani em performances ingratamente resignadas à péssimas piadas e frases de efeito de um roteiro escrito por 19 pessoas, que realmente demonstra essa divergência rítmica e cômica de um punhado de autores com diferentes estilos humorísticos, com a culpa solene de Brooker por não saber como manter uma identidade cômica à obra com tantas ideias, muitas delas genuinamente boas, como críticas à veneração de personalidades de rede sociais, preconceito policial, desleixo das pessoas (inclusive presidentes) da prevenção contra o coronavírus, renunciadas para fazer um discurso anti-Trump, até mesmo esquecendo de cobrir o maior evento do ano, a própria pandemia. O filme de Charlie Brooker só não atinge a nota de lixo atômico pelo elenco, capitaneado por Samuel L. Jackson, um cara que exala carisma, junto à loucamente divertida Phoeb… Lisa Kudrow.

A comédia política não precisa persuadir ninguém. Pode mudar mentes ou permitir que vejamos o mundo de uma nova maneira, mas tudo o que realmente precisa fazer é deixar-nos rir do mundo. Isso pode ser conseguido por meio de tolice ou nitidez, especialmente se for estabelecido um senso comum de absurdo, abrindo espaço para rir de coisas assustadoras, como 2020 teve de sobra. Mas todas essas coisas exigem imaginação e vontade de fazer escolhas criativas sobre quais perspectivas priorizar. E nada disso é feito com sucesso em 2020 Nunca Mais, que mais serve como uma cartinha de ódio feita com pressa e que se acha engraçada, mas que no fim apenas se contradiz no próprio efeito que quer causar, a paródia anual, sendo apenas uma paródia de si mesma ao se vender como retrospectiva mundial, navegando apenas nos problemas americanos/ingleses, conectando-se com a mesma pessoa que critica mais acintosamente: Donald Trump, que só enxerga a si mesmo. Esta é uma obra com a cara de 2020, mas a abordagem cínica de um ano que custou muito de nós, mas se tornou importante e revelador em sua própria maneira absurda, demonstra que a retrospectiva de 2020 merecia algo melhor.

2020 Nunca Mais (Death to 2020) — EUA, 27 de Dezembro de 2020
Direção: Al Campbell, Alice Mathias
Roteiro: Charlie Brooker, Annabel Jones, Tom Baker, Kemah Bob, Ken Bordell, Munya Chawawa, Constance Cheng, Alan Connor, Erika Ehler, Charlie George, Eli Goldstone, Mollie Goodfellow, Jason Hazeley, Angelo Irving, Kae Kurd, Alison Marlow, Thanyia Moore, Joel Morris, Michael Odewale
Elenco: Samuel L. Jackson, Hugh Grant, Lisa Kudrow, Kumail Nanjiani, Tracey Ullman, Samson Kayo, Leslie Jones, Diane Morgan, Cristin Milioti, Joe Keery, Laurence Fishburne, Angelo Irving, Lily Sullivan
Duração: 70 min.

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