Crítica | 3 Faces

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Jafar Panahi é um líder de resistência política e artística em seu país. Diretor de obras como O Balão Branco, O Círculo, O EspelhoIsto Não É um Filme, o cineasta iraniano caiu em desgraça diante do governo de seu país ao apoiar, em 2009, o candidato reformista Mir Hussein Mussavi, que perdeu as eleições naquele ano, um pleito cheio de suspeitas de fraude e cuja análise do resultado diante do Conselho dos Guardiões foi negada, quando solicitada.

Após as eleições, a casa de Jafar Panahi foi invadida, sua coleção de filmes (considerada “obscena”) foi apreendida pela polícia e em março de 2010, ele foi preso. Sua prisão mobilizou um número gigantesco de apoiadores do mundo do cinema, entre diretores, atores, atrizes, técnicos e organizações, pressão que fez o governo ceder, sob fiança. Em dezembro de 2010, o diretor foi condenado a 6 anos de prisão e a 20 anos de banimento para fazer filmes, escrever roteiros e dar entrevistas à mídia internacional. Como sua sentença é domiciliar, Panahi vem desobedecendo a condenação desde que ela saiu, fazendo tudo o que lhe foi proibido fazer: dirigir filmes, escrever roteiros e dar entrevistas. Ele só não viaja para atender a convites de Festivais pelo mundo porque as autoridades jamais permitiram sua passagem para além das fronteiras. 3 Faces (2018) é mais um filme de resistência do diretor. E o tema reflete muito da política e da sociedade iranianas.

A obra tem o aspecto documental típico dessa fase do cineasta, mas trata-se de uma ficção, cujo início tem um forte apelo de suspense e desespero. Encontramos a atriz Behnaz Jafari assistindo a um vídeo de uma garota residente em uma vila das montanhas. Ela diz que ama cinema, ama a atriz Jafari e quer entrar para o mundo artístico, mas sua família a proibiu de seguir com os estudos no Conservatório Dramático de Teerã. A viagem de Panahi e Jafari para a região noroeste e rural do país, mais a busca por essa menina é o que constrói o filme, utilizando as faces e visões de três gerações de mulheres e atrizes para denunciar a misoginia daquela sociedade.

O roteiro de Panahi e Nader Saeivar faz um excelente jogo entre realidade e ficção, entre crítica social e condições de trabalho de um artista, vistos pela população como desnecessários para o funcionamento da sociedade. Quem precisa de um artista em uma vila onde um requisitado boi de reprodução é a grande estrela? Para que ser atriz se uma menina pode ser uma ótima esposa, uma ótima mãe? “Hoje ela quer estudar, para quê estudar? E depois, o que vem?“. Há uma grande violência das pessoas nessa sociedade ao olhar para a liberdade da mulher, tendo um valor tradicional e cultural de “honra da família” que, para os aldeões, vale mais do que qualquer outra coisa. O “mal exemplo” da atriz esquecida e solitária que foi famosa antes da Revolução de 1979 é citado aqui como prova de que a arte não serve para nada.

O estudo proposto por Panahi aqui não é apenas de denúncia desse massacre de sonhos de uma menina por uma questão social que parece já bem resolvida em outros lugares do mundo. Há uma belíssima cena de conversa da atriz Behnaz Jafari com um aldeão sobre os costumes e a tradição do local, tudo isso em torno do prepúcio de um menino que acabou de ser circuncidado. Existem valores que uma sociedade entende como colunas vitais e que não estão dispostas a deixar passar. A grande questão é: e quando essas colunas vitais não só sustentam uma tradição, mas a diminuição e apagamento da liberdade de outros indivíduos?

Entre a comicidade e a necessidade de discussão de temas sociais, 3 Faces nos faz pensar bastante sobre valores e status dos cidadãos, numa sociedade que decide o que alguém deve ser, especialmente se for mulher. O encerramento poderia vir por um caminho que reafirmasse essa discussão de perto, mas o diretor optou por um afastamento da situação e deixou que o público abstraísse o seu significado, o que não necessariamente foi uma boa escolha. Ainda assim, o filme é um poderoso instrumento de debate sobre como a humanidade é capaz das melhores e também das piores coisas, muitas vezes lutando para manter ideias que a História claramente faz questão de extinguir.

3 Faces (Se rokh) — Irã, 2018
Direção: Jafar Panahi
Roteiro: Jafar Panahi, Nader Saeivar
Elenco: Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei, Maedeh Erteghaei, Narges Delaram
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.