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Crítica | 35 Doses de Rum

Amar a partir da sutileza.

por Fernando JG
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Voltando do trabalho, Lionel passa numa loja de panelas e compra uma elétrica de fazer arroz para dar à filha Josephine, de presente. Era uma coisa que a menina queria muito e o pai, assim, a surpreende. Lionel e Josephine vivem juntos num apartamento e se dão muito bem em sua relação familiar. Josephine cozinha o arroz enquanto seu pai termina de se banhar após mais um dia. Lionel está cansado. Nos minutos seguintes, sentam-se à mesa; a panela ocupa o centro, entre ambos. Josephine experimenta o arroz feito no recipiente – o recipiente que ele a havia presentado – e diz: “está perfeito”.

E então compartilham, na mesma mesa, de uma refeição preparada num objeto que se tornara um utensílio de afeto que Lionel lhe dera e ela, recebido com carinho. Ainda que não fosse o modelo de panela desejado por Josephine, e que seu pai compre uma outra ao fim do filme, tentando ‘retificar o erro’, nada disso retira a delicadeza e a energia afetuosa que permeia toda essa cena, cuja profunda sensibilidade está às voltas da atmosfera fílmica: é um presente dado com o coração; um sorriso de canto de boca quando um escuta o outro chegar em casa; são cuidados sinceros durante o cotidiano; e o mais bonito é que todas as as refeições fazem juntos. Isso é amar em sua forma mais original. 

35 Doses de Rum é uma espécie de releitura de Pai e Filha (1949), feita com muita emotividade. O cuidado embutido em cada corte dá a dimensão da afetuosidade que a cineasta busca imprimir no seu filme. 35 Rhums é a história de uma família a dois: Lionel (Alex Descas) e Josephine (Mati Diop); a mãe não existe, uma vez que ele é viúvo. Não há nada de especial, exceto pelo fato de que o roteiro segue à risca a verossimilhança de um cotidiano verdadeiro. Tão difícil o trabalho de tornar um argumento comum numa peça tocante, resultando em inúmeras reflexões sobre assuntos diversos como conflitos raciais, sociais, geopolíticos, pessoais, sentimentais, que não é possível não creditar a essa obra mais um acerto da diretora. 

Bom Trabalho e Desejo e Obsessão já tinham ocupado seus lugares de obras-primas do cinema francês quando a cineasta lança 35 Rhums, e não decepciona ao roteirizar por meio do silêncio, da imagem, do símbolo e do gesto, sem a necessidade de texto para que sua mensagem seja repassada. A cineasta mais essencial do Novo Extremismo Francês, que incomoda sempre por trabalhar através de uma beleza feroz e violenta em suas obras, mostra-se multifacetada neste longa-metragem. Aqui, Claire Denis fala com a voz do silêncio, ainda que esta afirmação pareça uma figura de oposição e contradição. O silêncio não é apatia. Quando os personagens se calam é justamente quando mais são ressaltados os gestos de afeto.

Denis e Jean-Pol Fargeau escrevem um roteiro sobre amor. Não da perspectiva carnal, mas enfocando sobre o fino amor. Esse sentimento é o mais puro de todos, porque se ama sem negociação, buscando nada além de afeto e aconchego do outro. O aspecto fraternal da obra, que é evidenciada por meio da principal relação desenvolvida dentro do roteiro, que é a conexão sensível e cuidadosa entre um pai e uma filha, envenena todas as outras relações entre os personagens, até mesmo as conexões de amor carnal são transformadas em sentimentos fraternais. Percebe-se isso na conexão entre Gabrielle e Lionel e entre Josephine e Noé. É difícil encontrar qualquer vestígio de erotismo mesmo nos encontros entre um homem e uma mulher dentro do filme, e isso é bonito porque a cineasta lida com o detalhe sem perder o interesse por sua própria trama, comovendo a cada corte, a cada cena, a cada ato. 

Com zero verborragia, o ritmo dramático mostra-se muito singelo, conduzido pelas jornadas subjetivas de seus personagens, que, por sua vez, são muito bem lidos por meio de uma trilha sonora impecável e nostálgica. A cineasta explora a subjetividade de cada um de seus heróis, mas sem texto, apenas com o silêncio e um enfoque muito cerrado na imagem e no corpo dos protagonistas. A subjetividade é isso: é o instante absoluto de nós mesmos, nossa individualidade mais original, aquela que construímos a partir de nossas próprias experiências. Pouco a pouco, Claire Denis explora esse dado. A câmera-personagem, o primeiro-plano, as falas reduzidas, as expressões faciais, constroem um enredo que é vazio em texto, mas inflamado em sentimento. 

É uma Paris muito diferente da que estamos acostumados a assistir. Não é uma cidade glamourosa, mas uma Paris que se assemelha, e muito, à vida real e ao cotidiano, com muito cinza e não há sequer um símbolo capaz de identificar que esta é a cidade de Paris. Ao transformar a mise-en-scène num lugar distinto, a cineasta constrói o seu universo particular numa constante autorreferência ao seu cinema, como num movimento circular. Este filme encontra, sem dúvida alguma, com toda a sua obra anterior e posterior. É uma Paris constituída por corpos negros, sobretudo. O problema racial está sempre rodeando a película, isto é, em todas as reflexões o pós-colonialismo está presente. 

O estudo do cotidiano mostra-se, por vezes, melancólico. “Quando tenho pensamentos ruins, penso na minha filha”, diz Lionel um dia antes de seu amigo sair de cena na ocasião de um suicídio. Existencialista na medida certa, o filme não deixa de pensar, em nenhum momento, sobre os conflitos internos de cada um. E falar do dia-a-dia assim a faz alcançar um status de universalidade. O que é mais comum a todos que vivem na cidade do que esse cotidiano que às vezes é tédio, às vezes tristeza, às vezes amor? Não é uma individualidade abstrata, mas é que lidar com o aspecto subjetivo de um personagem é falar do universal, de nós mesmos, uma vez que todos somos constituídos de um interior que ora é pleno ora conflituoso. Ao trabalhar com a cena mais devastadora do longa-metragem, cuja aflição leva René ao suicídio, a cineasta faz jus ao lugar que ocupa dentro do Extremismo Francês. O grotesco não provoca nojo, mas converte-se em melancolia num trabalho muitíssimo bem feito.

35 Rhums é um filme sobre a sutileza do cotidiano, sem deixar de ser rico e complexo a perder de vista. Esse amor paterno de Lionel, quase como um instinto de proteção animal diante da sua filha, é compreensível em todos os níveis: ela é a única coisa que ele tem. Mas Lionel compreende que ela é uma outra pessoa, um outro sujeito no mundo e a deixa ir. As últimas 35 doses de rum tomadas em comemoração à felicidade da filha resolvem uma trama intrincada e dissolve as amarras existentes na relação familiar. No último corte do filme, Claire Denis conecta brilhantemente a última cena à primeira, fechando um arco dramático de maneira tocante, simbólica e completa.

35 Doses de Rum (35 Rhums – Alemanha, França, 2008)
Direção: Claire Denis
Roteiro: Claire Denis, Jean-Pol Fargeau
Elenco: Alex Descas, Mati Diop, Nicole Dogue, Grégoire Colin, Ingrid Caven, Stéphane Pocrain , Eriq Ebouaney, Adèle Ado, Cheikh Touré, Mario Canonge
Duração: 100 min.

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