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Crítica | “4:44” – Jay-Z

por Handerson Ornelas
152 views (a partir de agosto de 2020)

É quase irônica a jornada musical de Jay-Z e de outros rappers americanos. De crítico do sistema e palavra das ruas a empresário milionário e controlador da indústria. De rebelde a ditador. De plebeu a rei.

Sequência de Magna Carta Holy Grail (2013), 4:44 chegou em 2017 como o décimo terceiro álbum do artista e após um longo hiato em sua carreira musical. Jay-Z nesse meio tempo passou a ser reconhecido bem mais por sua figura empreendedora, principalmente devido a seu polêmico serviço de streaming – Tidal – lançado para rivalizar o poderoso Spotify. E até mesmo devido a esse seu novo status, 4:44 poderia muito bem soar como uma mera atitude de marketing servindo de resposta aos rumores de sua traição a Beyoncé referenciados em Lemonade, além de atrair público para sua plataforma de streaming. No entanto, deve-se dar devidos méritos ao rapper, que em nenhum momento parece possuir pretensão de fazer um álbum meramente sensacionalista, ganancioso ou gratuito.

Temos aqui uma obra direta, sincera, sem floreios. A produção crua, sem exageros e abusando do uso de samples (que incluem Nina Simone, Stevie Wonder e até um grupo português chamado O Mundo e Ninguém) já denota a ideia do rapper em voltar a atenção para seus versos. Uma ótima escolha, por sinal, já que Jay-Z adota a imagem de uma espécie de velho sábio, discursando sobre suas experiências, lamentações e conselhos. Uma excelente abordagem para um artista que já passa de 20 anos de carreira, demonstrando aqui toda sua maturidade e humildade ganhada com o tempo, algo surpreendente se considerarmos que o hip-hop é dominado por discursos de ego e ostentação.

Por diversos momentos nos deparamos com um Jay-Z contemplativo sobre suas memórias, seja em conversa com sua filha a respeito de seu legado em Legacy, suas lembranças no início da carreira de rapper em Marcy Me, ou sobre as perseguições a sua figura na abertura exageradamente dramática e piegas de Kill Jay-Z. Já a faixa homônima é o clímax do álbum, localizado exatamente em seu centro. É Jay-Z batendo no peito e admitindo toda sua culpa e vergonha a respeito da tão comentada traição, algo que corria risco de soar forçado se não fosse tão sincero. Se o cantor orgulha de dizer que considera uma de suas melhores canções isso não é pra menos, o que encontramos aqui é de uma honestidade enorme e tocante.

Há momentos marcantes pelo disco que ficarão para sempre com o ouvinte. Seja o belíssimo poema proclamado por sua mãe assumindo sua homossexualidade no fim de Smile, o ótimo refrão de Moonlight debatendo com bom humor para onde nós, como sociedade, estamos rumando (“Nós estamos presos em La La Land, até quando vencemos nós perdemos”), ou o debate interessante de The Story Of O.J., que usa a polêmica história do ex-jogador para discursar sobre quedas e perdas após o sucesso.

Jay-Z constrói em 4:44 um interessante degrau para o hip-hop, provavelmente o gênero que mais vem se mostrando versátil nos últimos anos. Seja o rap gospel de Chance The Rapper, os versos esquizofrênicos e experimentais de Danny Brown, ou a genialidade crítica de Kendrick Lamar às desigualdades da sociedade americana, um fato é certo: o hip-hop está em constante mudança e se preocupando em inovar. Jay-Z sabe disso e ocupa uma posição de sábio em 4:44, quase como um monge meditando sua vida no alto de uma colina. Seus erros, seus acertos, suas recomendações e conselhos para novas gerações, tudo através de inteligentes e humildes versos.

Aumenta!: 4:44
Diminui!: Kill Jay-Z

4:44
Artista: Jay-Z
País: Estados Unidos
Lançamento: 30 de junho de 2017
Gravadora: Roc Nation
Estilo: Hip-hop

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9 comentários

Pedro Rebello 1 de fevereiro de 2018 - 23:13

Plano Crítico, vcs poderiam dar um olhada na cantora Grace Vanderwaal? Ela tem apenas um álbum com 12 faixas (e +2 na versão deluxe) e um EP. Acho que compensa muito dar uma ouvida! Ótima cantora e compositora, uma das melhores nos últimos tempos pra mim. Obg 😀

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Handerson Ornelas. 2 de fevereiro de 2018 - 15:41

Vou conferir! Valeu a recomendação!

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Vinícius Mendes 27 de janeiro de 2018 - 14:34

Putz mano, que texto sensacional.. ia ler só o comecinho da crítica por curiosidade, mas não consegui me conter hahaha
Abraço!

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Handerson Ornelas. 30 de janeiro de 2018 - 13:05

Puts, muito obrigado! Abraço!

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Gabriel 26 de janeiro de 2018 - 22:47

a pergunta que não quer calar:

domingo o Grammy vai para Kendrick, Lorde ou Jay-Z?

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Luiz Santiago 26 de janeiro de 2018 - 23:30

Nooossa, pelo amor de 2Pac, tem que se o Kendrick!!!

Responder
Handerson Ornelas. 30 de janeiro de 2018 - 13:04

Parece que nenhuma das opções que você citou Hahahaha
Triste, né??

Responder
Mano Jó 11 de maio de 2020 - 13:26

a sociedade esta mergulhada no La La Land! só musicas dançantes nada de mensagem consciente e despertadora…

Responder
Handerson Ornelas. 30 de janeiro de 2018 - 13:04

Parece que nenhuma das opções que você citou Hahahaha
Triste, né??

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