Home FilmesCríticas Crítica | 499 (2020)

Crítica | 499 (2020)

por Kevin Rick
232 views (a partir de agosto de 2020)

O fantasma de um soldado (Eduardo San Juan) da Conquista de Hernán Cortés viaja pelo México quase 500 anos após a colonização espanhola do Império Asteca. Ele navega por múltiplas regiões do México, dentro e fora das vidas e experiências de várias pessoas, ouvindo suas histórias dos horrores da moderna sociedade mexicana corrompida e lentamente percebendo as semelhanças entre esses novos desgostos e a ganância violenta da conquista espanhola. Esta é a premissa do documentário 499, dirigido por Rodrigo Reyes. Exatamente, um documentário. Chamar a abordagem do cineasta de heterodoxa é praticamente um eufemismo.

Por se tratar de um documentário, 499 é o que geralmente rotulamos como filme de não ficção. Apesar disso, Rodrigo Reyes acrescenta, em um jogo anacrônico de realismo mágico, o elemento ficcional: o fantasma. Este anfitrião inesperado e incômodo revela a dura realidade, uma descrição da violência que assola o México faz quinhentos anos. Não é segredo que a conquista espanhola foi um verdadeiro genocídio. Em nome de Deus, da pátria e do rei, os nativos foram subjugados aos milhares. Ou você reza ao meu deus ou está morto. Claro, sob o slogan daquilo que os conquistadores chamam de civilização. De Veracruz a Tenochtitlan, eles tomaram tudo pelo ataque de força bruta. O paralelo que o diretor traça entre o passado sangrento e a atual realidade do povo mexicano é impressionante. O aviso do filme sobre como a história tende a se repetir é universal e oportuna e, sem dúvida, se conectará com públicos de todas as idades e origens.

As entrevistas, sempre em uma diferente região, retratando problemas da localidade em questão, pintam um quadro triste de corrupção, perda e injustiça infligida às famílias de jornalistas, ativistas sociais, migrantes, um antigo soldado e uma mãe traumatizada. Cada história supera a anterior, com a última sendo uma das, senão a mais horrível história de abuso infantil, assassinato e corrupção policial que eu já vi recitadas publicamente. Rodrigo Reyes sabe combinar a evidência real das vítimas de violência e corrupção com imagens carregadas de beleza poética e metafísica. Os céus se alternando com montanhas de lixo. O contraste da beleza e feiura.  

A evolução da fala do fantasma abre uma janela de esperança. Do desprezo e submissão do povo asteca e do reconhecimento da sua dor, a uma certa compreensão da alteridade.  Sua jornada tem um ponto de viragem: a montanha do lixo. Sua penitência está longe do fim, é apenas o começo. É hora de soltar um pouco do lastro. Em outra época, talvez o fantasma fosse outro migrante, em busca de um futuro melhor, mas agora ele deve escutar histórias de um povo com uma cicatriz que o tempo não curou, apenas perpetuou a dor de eventos passados.

O diretor Rodrigo Reyes em seu documentário híbrido de realismo mágico cria uma película que se parece mais como uma pintura em movimento, uma obra de arte viva, do que simplesmente um filme. Isso fica evidenciado na sua poética e não ortodoxa estrutura narrativa, e na bela cinematografia de óbvia admiração e respeito pelo país e pelo povo mexicano, e que permite ao espectador ficar totalmente imerso no longa. Um dos poucos problemas da fita é o ritmo da edição, um pouco prolongado, mas não excessivamente, e alguns tópicos poderiam ter sido mais aprofundados considerando a duração do filme, mas 499 é um documentário incomum, que na grande maioria das vezes, trabalha a seu favor. É claramente a esperança dos envolvidos neste projeto que o espectador, como o soldado, termine esta visita guiada de testemunhas das atrocidades ignoradas e profundamente sistêmicas que assolam o povo do México em lágrimas, e esperançosamente com empatia. 

499 – EUA, México, 2020
Direção: Rodrigo Reyes
Roteiro: Rodrigo Reyes, Lorena Padilla, Misha Maclaird
Elenco: Eduardo San Juan
Duração: 88 min.

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