Crítica | 7 Desejos (2017)

“Tome cuidado com o que você deseja.”

Wish Upon é mais um projeto que entra pra lista dos que conseguem errar em todos os aspectos. Um roteiro superficial, com uma trama arrastada e uma direção que parece adolescentes brincando com a câmera, a obra não se permite cativar em nenhum momento. Clare (Joey King) vive uma vida de adolescente comum. Como presente de aniversário antecipado, a garota recebe de seu pai uma misteriosa caixa chinesa que promete dar 7 desejos. O objeto, porém, esconde forças malignas e cada desejo tem um preço mortal a ser pago.

O roteiro quis introduzir um clichê adolescente na protagonista, porém peca excessivamente neste ponto. Claire é retratada da maneira mais burra possível. Ela enxerga os acontecimentos horríveis e só consegue associar as tragédias à caixa no terceiro ato. É claro que o adolescente burro é típico do terror clichê, mas em Wish Upon essa tradição poderia ser desenvolvida em outros elementos, de modo que a falta de inteligência da protagonista não se fizesse exagerada. Por exemplo, o amor inalcançável de Claire por Paul (Mitchell Slaggert) só é adicionado para servir como base de um novo desejo (e novas mortes). Esse romance seria um pouco mais aceitável se o roteiro se esforçasse para desenvolver esse artifício, mesmo que utilizasse do clichê para tanto.

Nem o clichê salva os personagens secundários. A relação das amigas de Claire é tão superficial que não sentimos qualquer tipo de empatia por elas, mesmo quando estão em perigo ou quando a obra tenta colocar uma dramaticidade em volta das garotas. O pai da protagonista também não se salva, tendo seu papel escondido atrás de um roteiro mal escrito. Por exemplo, a função dele como catador de lixo não é sequer aproveitada: é só mais um protótipo da narrativa para servir como base de um dos desejos. E o pior de tudo: a mãe de Claire, que cometeu suicídio no começo do filme, não é minimamente aproveitada. Ela aparece no início e depois só vem a ser citada no final, sem acrescentar em nada no projeto.

E nem para as atuações passarem despercebidas. Os atores aqui estão parecendo um robô lendo o texto, recebendo o cachê e indo pra casa. Acredito que nem eles acreditavam no potencial da obra e, assim, não quiseram se esforçar. Isso porque sabemos que Joey King é uma ótima atriz (destaque para Christine, em Invocação do Mal). No entanto, em Wish Upon ela tem potencialmente a sua pior atuação.

As mortes são escritas e tratadas da maneira mais desleixada possível. Se a sinopse descreve uma morte a cada desejo, então as fatalidades são elementos importantes para a película. No entanto, parece que estamos assistindo a mais uma cena comum do clichê, sem qualquer tipo de suspense ou cerimônia construída em volta. Além disso, os acidentes são previsíveis e não utilizam qualquer recurso cinematográfico avançado. A maior vergonha é a nítida comemoração dos produtores em acharem que estão arrasando por colocarem um certo gore nas cenas de morte. Entretanto, é impossível não notar o molho de tomate e o CGI feito no editor de vídeo mais barato da internet. É impressionante que esse filme seja de 2017. Se me contassem que é dos anos 80, eu acreditaria.

Também não dá pra desculpar a péssima utilização da câmera. Elemento que passa tão despercebido em obras medianas, aqui é algo que incomoda para além do suportável. Os enquadramentos deixam qualquer um perdido, mesmo que incrivelmente nenhuma cena envolva ação ou movimentos acelerados. Bastava o mínimo de competência para fazer com que o espectador acompanhasse os movimentos dos personagens. E, como cereja do bolo, o filme força uma lenda chinesa que não faz sentido algum. Uma história tão mal escrita que se assemelha facilmente a uma fanfic, somado a um demônio que não tem nenhum aspecto desenvolvido (só pertence à caixa, e é isso), nos faz querer nem terminar de assistir ao filme.

Wish Upon é um dos maiores erros cinematográficos já existentes. Incrivelmente nada se salva. Vamos todos dar as mãos e fazer dois pedidos: Barbara Marshall, não roteirize mais nada. John R. Leonetti, não volte como diretor.

Wish Upon (7 Desejos) – EUA, 2017
Direção: John R. Leonetti
Roteiro: Barbara Marshall
Elenco: Joey King, Ryan Phillippe, Ki Hong Lee, Mitchell Slaggert, Shannon Purser, Sydney Park, Elisabeth Röhm, Josephine Langford, ALexander Nunez, Daniela Barbosa, Kevin Hanchard, Sherilyn Fenn, Raegan Revord, Alice Lee, Victor Sutton
Duração: 90 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.