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Crítica | 7 Dias em Havana

por Sidnei Cassal
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A década de ´60 foi pródiga em filmes no estilo de 7 Dias em Havana, onde vários diretores eram reunidos para contar sua própria história em um mesmo longa-metragem.  Títulos como Boccccio 70, por exemplo, dirigido por Fellini, Visconti, De Sica e Monicelli, ou Histórias Extraordinárias, dirigido por Fellini, Louis Malle e Roger Vadim, ou ainda, As Maiores Vigarices do Mundo, dirigido por Roman Polanski, entre outros. Nesses últimos anos, parece que a moda voltou, e tivemos Paris, Te Amo (uma seleção de 18 curtas diferentes – dirigido por nomes como Gus Von Sant, Alfonso Cuarón e os irmãos Coen) e Nova York, Eu te Amo.

Infelizmente, o resultado tem sido sempre o mesmo: um filme irregular, com altos e baixos, dependendo do episódio, atores e diretores envolvidos. Este 7 Dias em Havana não é diferente, e o resultado geral, na minha opinião, não poderia ter sido pior.

Nenhum dos diretores envolvidos é exatamente um mestre da direção, como no casos dos filmes citados, sendo que o expoente maior é o francês Laurent Cantent, realizador do excelente Entre os Muros da Escola. O problema maior com o filme é que a maioria dos pequenos filmes em que é dividido não dão uma visão inédita e pessoal da ilha de Fidel, muito pelo contrário, parecem reforçar o olhar estrangeiro e preconceituoso típico por exemplo de um norte-americano. Assim, Cuba é mostrada como um lugar pobre, decadente e parado no tempo, mas com belas mulheres e onde você pode encontrar em cada esquina um talento artístico desperdiçado.

Dois episódios se destacam, em minha opinião, como o melhor e o pior, e coincidentemente, ambos tratam da questão da religiosidade, tão presente na cultura latino-americana. O episódio O Ritual mostra uma jovem que foi descoberta pelos pais na cama com outra menina e é levada a uma cerimônia no estilo dos rituais afro-americanos para ser “purificada e curada” de seu desvio homossexual (é bom nosso deputado Feliciano não assistir este filme, ele pode vir a ter ideias a respeito). Nem sei se preciso dizer que este é o pior, é claro. O episódio A Fonte, de Cantet, mostra a bizarra empreitada de uma comunidade para atender o desejo de uma mãe-de-santo que sonhou que a Virgem Maria pedia para construírem uma fonte bem no meio da sala de seu apartamento. Considero este o melhor, porque, além de um interessante elo narrativo com outros 2 episódios do filme (A Tentação de Cecília e Doce-Amargo, do único diretor cubano envolvido no projeto, Juan Carlos Tabío) tem uma excelente direção dos atores não-profissionais envolvidos, onde um aspecto positivo da cultura local é realçado: o espírito de comunidade, que mesmo motivados pela religiosidade, é algo que há muito se perdeu na maioria dos povos ocidentais.

7 Dias em Havana, no final das contas, deixa um gostinho de frustração, da expectativa daquilo que poderia ter sido mas não foi. Da maneira como foi apresentado e concebido, o filme é extremamente desnecessário e gratuito. Não foi desta vez que Cuba ganhou um olhar inteligente e criativo na visão do cinema gringo.

7 Dias em Havana (7 días en La Habana | Cuba, 2012)
Direção: Laurent Cantet (segment “La Fuente”), Benicio Del Toro (segment “El Yuma”), Julio Medem (segment “La tentación de Cecilia”), Gaspar Noé (segment “Ritual”), Elia Suleiman (segment “Diary of a Beginner”), Juan Carlos Tabío (segment “Dulce amargo”), Pablo Trapero (segment “Jam Session”)
Roteiro: Laurent Cantet (segment “La Fuente”), Alejandro Fadel (segment “Jam Session”), Martín Mauregui (segment “Jam Session”), Julio Medem (segment “La Tentación de Cecilia”), Santiago Mitre (segment “Jam Session”), Gaspar Noé (segment “Ritual”), Leonardo Padura (segments “El Yuma”, “La Tentación de Cecilia”, “Dulce amargo”), Elia Suleiman (segment “Diary of a Beginner”), Pablo Trapero (segment “Jam Session”)
Elenco: Josh Hutcherson, Vladimir Cruz, Daisy Granados, Emir Kusturica, Daniel Brühl, Melvis Estévez, Elia Suleiman, Othello Renzoli, Melissa Rivera, Mirta Ibarra, Jorge Perugorria
Duração: 129 minutos

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