Crítica | 7 Mulheres (1966)

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7 Mulheres (1966) foi o último longa-metragem que John Ford dirigiu e, para todos os efeitos, a sua real despedida dos cinemas. Ele finalizou a película em abril de 1965, mas a MGM só a lançou em janeiro do ano seguinte. Do fim das filmagens deste Seven Women até o início das filmagens daquele que realmente seria o seu último filme, o curta-metragem Chesty: A Tribute to a Legend, passaram-se cinco anos. O diretor viria a falecer em 1973, aos 79 anos, e sua derradeira obra estrearia apenas três anos depois, em pequeno circuito. É por isso que 7 Mulheres leva a nomeação de “canto do cisne” do grande John Ford. E realmente tem tudo para sustentar isso.

Escrito por Janet Green e John McCormick, o roteiro do longa é baseado no conto Chinese Finale, de Norah Lofts, e se passa no interior da China, próximo à fronteira com a Mongólia. O ano é 1935 e guerreiros mongóis liderados por Tunga Khan (Mike Mazurki) pilham e incendeiam cidades inteiras; matam pessoas, estupram mulheres. A notícia dos atos terríveis desse ‘grupo bárbaro’ é dada já no início da obra e, sob o medo cada vez mais presente de um ataque, é que a trama se desenvolve para um grupo de missionárias cristãs. Este assentamento funciona mais ou menos sob uma pacífica normalidade, embora nem todas as mulheres da missão tenham o mesmo comportamento ou entrega à causa de benfeitoria aos necessitados. Todo esse cotidiano sofre uma grande mudança quando a doutora Cartwright (Anne Bancroft) chega ao local.

O papel da doutora, depois de muita busca do diretor, foi inicialmente dado a Patricia Neal, que no terceiro dia de filmagens sofreu um AVC. Foi só então que Anne Bancroft entrou para o elenco, com poucos elogios de Ford, pelo menos no início, e grande respeito por parte da atriz, embora ela tenha casado de dizer que John Ford era “maravilhoso, mas maluco“. Com a chegada de Cartwright, certos caminhos críticos começam a aparecer no roteiro e o diretor toma o tempo que acha necessário para desenvolvê-las, fazendo com que o filme tenha um início mais lento do que deveria e uma segunda parte, especialmente após a chegada do bando de Tunga Khan, que acaba fluindo bem apenas no bloco das mulheres. Tudo isso, no entanto, tem um peso menor diante da força do argumento e da direção de John Ford.

Falando sobre fanatismo religioso e sobre a hipocrisia cristã, destacando aqueles que pregam o amor ao próximo mas são os primeiros a desejar a morte e condenar qualquer pessoa que considere “fora dos padrões de retidão“, a obra opõe essas personagens (o elenco aqui está tinindo) num momento de grande crise, onde o sacrifício da própria vida acaba sendo uma opção para a salvação dos outros. A fotografia muito bem pensada de Joseph LaShelle mostra uma enorme variedade de tons marrons e essa forte ligação com a terra (dando a impressão de impossibilidade de escape, de que aquelas pessoas são parte do solo, da paisagem) recebem a mesma atenção por parte dos figurinos, cuja quebra acontece na segunda metade da obra, com a chegada de Khan. A final costura se dá pela bela trilha sonora de Elmer Bernstein, que emula temáticas de música oriental, mas imprime uma força trágica nos temas individuais, tornando tudo ainda mais grandioso, angustiante, fatal.

A grande despedida de Ford se dá com um olhar cru sobre a bondade e a maldade no mundo, opondo visões cegamente conservadoras, como as defendidas pela personagem de Margaret Leighton, a comportamentos supostamente condenáveis, mas de onde sairá a real ação de salvação no momento em que todos precisarem. Uma reflexão solene a respeito de mudar de ideias e aceitar as diferenças entre as pessoas ao nosso redor. Mais uma prova da grandeza de John Ford.

7 Mulheres (7 Women) — EUA, 1966
Direção: John Ford
Roteiro: Janet Green, John McCormick (baseado no conto de Norah Lofts)
Elenco: Anne Bancroft, Sue Lyon, Margaret Leighton, Flora Robson, Mildred Dunnock, Betty Field, Anna Lee, Eddie Albert, Mike Mazurki, Woody Strode, Jane Chang, Hans William Lee, H.W. Gim, Irene Tsu, Lee Kolima
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.