Crítica | 78/52

  • spoilers de Psicose. Aliás, se você não viu ainda esse filme, o que está fazendo aqui? Corra já para assistir!

A cena do assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) no chuveiro do motel Bates é um marco na História do Cinema. Não só é o momento definidor de Psicose, uma das grandes obras do mestre Alfred Hitchcock, como também, de certa forma, estabelece o início dos giallo que, ato contínuo, dariam origem aos slasher movies.  E isso sem falar na quebra de convenções e do então muito presente Código de Produção ao mostrar – sem mostrar – uma mulher nua, facadas e sangue, muito sangue. São 78 set-ups de câmera e 52 cortes para gerar três minutos de um momento absolutamente inesquecível que, acompanhado pela angustiante música “arranhada” de Bernard Herrmann, é conhecido mesmo por quem jamais assistiu o filme. E, baseado nesses números mágicos 78/52 é um documentário que, em 91 minutos, tem como objetivo esmiuçar essa cena.

Mas Alexandre O. Philippe, documentarista responsável, dentre outros, pelo ótimo O Povo contra George Lucas, sabia que não só seria arriscado focar apenas na referida sequência, como também seria um exercício em futilidade. Por isso, ele trabalha muito bem na contextualização do momento, começando pela abordagem do próprio conceito da “família americana” nos anos 50 e nos filmes que começavam a desmistificar a perfeição que muitas obras anteriores procuraram construir. Trazendo grandes nomes do cinema como Walter Murch, Peter Bogdanovich, Guillermo del Toro e outros – incluindo Jamie Lee Curtis e Osgood Perkins, filhos, respectivamente, de Leigh e Anthony Perkins – para dar depoimentos sobre o momento histórico que serve de gênese para Psicose, Philippe estabelece um belo estofo narrativo para a criação de Hitchcock, ainda que por vezes as pontes construídas pelos entrevistados possam parecer forçadas.

A fotografia em preto e branco usada no documentário dialoga perfeitamente bem com as várias sequências que vemos do filme antes, durante e depois da icônica cena do chuveiro, revelando uma sensibilidade muito particular do diretor e roteirista com o objetivo de prender o espectador em sua narrativa. Além disso, ele e seus entrevistados evitam o “tecniquês”, o que retira todo e qualquer hermetismo que a obra poderia ter, mas sem torná-la rasa. Dessa forma, ele consegue entregar um produto que funciona tanto para cinéfilos secos para estudarem detalhes desse marco cinematográfico quanto curiosos de ocasião que porventura esbarrem no filme e levantem as sobrancelhas nem que seja de surpresa por descobrir que há um filme de 90 minutos para falar de apenas três.

Quando a sequência em si é abordada, porém, a análise é completa e muito bem trabalhada, quase que lidando com ela quadro-a-quadro, da escuridão “fabricada” que esconde o rosto do assassino, passando pela faca quebrando os planos, o momento em que ela encosta uma única vez no corpo da dublê de corpo Mali Renfro, que recebeu o cachê de 400 dólares para participar do filme sem sequer levar crédito, mas que aparece no documentário, já idosa, mas completamente lúcida e divertindo-se (e nos divertindo) demais com seu depoimento. Vemos cada detalhe e, mais ainda, a inspiração de Hitchcock para alguns momentos-chave como a cortina sendo puxada pela Marion quase morta. O mergulho no momento é completo e denso, contando inclusive como foi a criação dos sons utilizados, mas sem ser complicado, tornando 78/52 um daqueles documentários muito fáceis de se ver em uma sentada só.

Nem sempre os entrevistados acrescentam de verdade ao documentário, sendo particularmente irritante a presença inútil de Elijah Wood, que só fica com seus olhos esbugalhados concordando com tudo que seus colegas de sofá dizem (ainda que seja muito bacana o cuidado de Philippe em colocá-los em ambiente que emule a decoração de Psicose) ou mesmo de cineastas como Eli Roth ou Mick Garris, que mais parecem fanboys babões sem muito a dizer a não ser falar de si mesmos. No entanto, no conjunto, as escolhas de Philippe enriquecem a experiência da cena do chuveiro, ainda que por diversas vezes esses três minutos inesquecíveis ganhem o status de cena mais importante da Sétima Arte, o que é, claro, um pouco de exagero.

78/52 é, no final, das contas, um hipnotizante e robusto documentário sobre um dos mais lembrados, homenageados, imitados e parodiados momentos do Cinema que simplesmente precisa ser conferido por cinéfilos, mas que pode ser igualmente apreciado por quem tem apenas interesse incidental por filmes. São excelentes 91 minutos de contextualização, estudo e exploração de três importantíssimos minutos hitchcockianos.

78/52 (Idem, EUA – 2017)
Direção: Alexandre O. Philippe
Roteiro: Alexandre O. Philippe
Com: Walter Murch, Peter Bogdanovich, Guillermo del Toro, Jamie Lee Curtis, Osgood Perkins, Danny Elfman, Eli Roth, Elijah Wood, Daniel Noah, Josh Waller, Bret Easton Ellis, Gary Rydstrom, Shannon Mills, Illeana Douglas, Marli Renfro, Tere Carrubba, Stephen Rebello, Bill Krohn, David Thomson, Mick Garris, Karyn Kusama, Neil Marshall
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.