Crítica | 9-1-1 – 2ª Temporada

Trabalhar em equipe. Algo fundamental, afinal, quando há cooperação para a obtenção de um objetivo comum, estamos de fato sendo seres humanos. Nas relações econômicas, políticas, sociais, familiares, etc. O trabalho em equipe, desta forma, denomina-se como a justaposição dos esforços individuais e coletivos, além do somatório entre nossos desejos sociais e coletivos. Com um terremoto como abordagem dramática no primeiro episódio de sua segunda temporada, 9-1-1 demonstrou mais uma vez trabalhar com um tema que considero fundamental neste segmento ficcional: o trabalho em equipe. Não da forma como aprendemos a lidar com a questão, geralmente entrelaçada com as regras corporativas rígidas no bojo das relações capitalista, mas por uma via conectada ao nosso lado humano e como reagimos diante do outro. Esse é um dos pontos nevrálgicos da série desde a temporada anterior.

Desta vez, entretanto, tendo em vista a necessária manutenção da audiência, os casos, mesmos que inspirados em acontecimentos supostamente extraídos da realidade, adentram por uma dimensão às vezes absurda. Nesta fase, um mecânico cai num bico de ar da oficina e incha até quase estourar. Noutro momento, um funcionário distraído é jogado para dentro de uma caixa e empacotado pela máquina, mantendo-se de maneira claustrofóbica entre a fábrica e a loja de entrega. Um professor ainda em tratamento de redução de peso leva os alunos para uma visita numa fábrica de chocolate e acaba despencando dentro de um caldeirão gigantesco de chocolate, pois levado pela ansiedade, inclina-se demais para experimentar o “produto proibido”. E o que dizer do racista que se engasga com as suas próprias fezes?

Ah, os idiotas que fazem vídeos absurdos para as redes sociais, com desafios estarrecedores também adentram numa roubada quando uma brincadeira dá errado. Tudo isso é trabalho para a equipe de socorristas da série. Agora, eles também contam com a presença de novos colegas que logo em breve, tornam-se parte da família. Em seus 18 episódios de 45 minutos, o grupo mantém a luta do período anterior. Salvar pessoas das situações mais inacreditáveis que possamos imaginar. O relacionamento entre a policial Athena (Angela Basset) e o capitão Bobby Nash (Peter Krause) segue de maneira fixa, tendo que lidar com a ardilosa mãe da personagem, uma mulher que ainda no contemporâneo, discute questões sobre a união racial. Bobby, mais seguro de si e agora envolvido com a família de Athena, mantém firmeza em seu posto de líder, mas precisa dar conta de questões burocráticas que pululam em seu caminho.

Ele agora precisa gerenciar Eddie (Ryan Guzman), novo membro da equipe, bombeiro carismático e inicialmente desafio para o bobão Buck (Oliver Stark), personagem que amadure suavemente neste segundo ano. Por que desafiador? Simples: Eddie é outro bonitão que chega para colocar em crise o posto de Buck como o grande conquistador das mulheres. Chimmey (Kenneth Choi) se mantém bastante expressivo, firme depois do acidente que quase o matou na temporada anterior. Dedicado às novas experiências, inclusive na inscrição para o calendário de fotos sensuais com bombeiros, o personagem aproxima-se de Maddie (Jennifer Love Hewitt), substituição da atendente interpretada pela maravilhosa Connie Britton. Anteriormente enfermeira, Maddie é irmã de Buck e foge de seu passado opressor com o marido Doug (Brian Hallisay). Ao tornar-se atendente do serviço, ela arruma uma maneira de ressignificar a sua vida, mesmo que a ameaçadora presença de Doug esteja constantemente pairando em seu cotidiano, até o momento do terrível encontro.

Carla (Cocoa Brown), cuidadora da mãe da personagem de Britton na temporada anterior também é encaixada de maneira bem orgânica na condução dos conflitos dramáticos atuais. Outra personagem crescente na série é a necessária Henrieta (Aisha Hinds). O episódio dedicado exclusivamente para a radiografia de seu passado é emocionante. Ela partilha, tal como Chimmey, de questões conectadas aos meandros da opressão social e racial, pois além de mulher negra é lésbica, constantemente alvejada pelo preconceito. Assim, nesta temporada, os roteiros foram assinados por Brad Falchuk, Ryan Murphy, Tim Minear, Kristen Reidel, Erica L. Anderson, Matthew Hodgson, Andrew Meyers, dentre outros, material dirigido por uma equipe formada por Millicent Shelton, Bradley Buecker, Jennifer Lynch, Mary Wigmore, etc.

Tal como a abordagem temática da série, a equipe técnica é preenchida por um montante considerável de mulheres, o que já aponta grande diferencial não apenas no teor ficcional apresentado, mas nas manobras que engendram os processos de produção da segunda temporada de 9-1-1. Todos os episódios, ressalto, bem dirigidos e com a escrita mantida dentro de um nível similar entre uma narrativa e outra. No que tange aos aspectos estéticos, o segundo período consegue superar o primeiro em atributos visuais e sonoros. A condução musical da dupla formada por Mac Quayle e Todd Haberman é eficiente, acompanhamento das imagens captadas pela direção de fotografia frenética de Joaquin Sedillo, dinâmico e agitado, mas sem tornar as cenas um amontoado videoclipe bizarro. Os figurinos de Bryan Kopp também cumprem as suas funções estéticas adequadamente, parte integrante do design de produção cuidadoso de Giles Masters, gerenciador visual que também coordenou os bons trabalhos de Sinead Clancy e Tim Eckel na cenografia e direção de arte, respectivamente.

Em suma, imagem e som entregam ao público um bom espetáculo. Mas, afinal, e os absurdos do texto? São suportáveis? Devo dizer que sim. Dos 18 episódios, dentre todos os excessos, o único momento “demais da conta” foi o tubarão levado para um parque aquático dentro de uma piscina em um caminhão. Num acidente bizarro na estrada, o bicho cai na pista e abocanha o braço de um condutor de moto. Meio exagerado, não? Mas funcionou dentro do contexto. Ao menos, no desfecho, o tubarão-tigre é devolvido ao mar, de onde nunca deveria ter saído. Há, também, alguns momentos muito urgentes quando o comentário social está em debate. Sentimos, de maneira emergencial, o desejo incandescente de fazer uma crítica ao sistema, algo que poderia ser um pouco mais sutil. Mas, no geral, não são coisas que estragam a ofegante e emocional trajetória dos personagens, já preparados para estrear a terceira temporada, num episódio com um tsunami a devastar geral. Vai perder?

9-1-1 – 2ª Temporada – EUA.
Showrunners:  Brad Falchuck, Tim Minear, Ryan Murphy.
Direção: Millicent Shelton, Bradley Buecker, Jennifer Lynch, Mary Wigmore
Roteiro: Brad Falchuk, Ryan Murphy, Tim Minear, Kristen Reidel, Erica L. Anderson, Matthew Hodgson, Andrew Meyers
Elenco: Angela Bassett, Peter Krause, Oliver Stark, Aisha Hinds, Kenneth Choi, Rockmond Dunbar, Ryan Guzman, Brian Hallisay, Jennifer Love Hewitt
Duração: 45 min (cada episódio – 18 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.