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Crítica | A Amante (1992)

por Leonardo Campos
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Ao terminar a sessão de revisitação da comédia A Amante, de 1992, tive a impressão de ter assistido a um filme que teria sido bem melhor, caso dirigido por alguém como Billy Wilder. Depois desci o nível de exigência e pensei em Woody Allen, Alberto Brooks e Spike Jonze, ótimos cineastas com a “cara” do projeto em questão.  Não foi um momento de devaneio cinéfilo qualquer, mas a convicção de que mesmo diante de uma história tão batida quanto ao que é apresentado no filme, com uma direção mais firme e um roteiro mais coeso, o resultado seria ainda mais interessante. Mas enfim, não é o caso e aceitemos a produção do jeito que ela é, isto é, uma narrativa dirigida e escrita por Barry Primus, versão superficial da proposta metalinguística de O Jogador, clássico moderno de Robert Altman com o mesmo ponto de vista reflexivo: a crítica ao sistema de produção cinematográfica hollywoodiano, um território que muitos querem habitar, mas nem todos conseguem pagar o alto preço de ser parte de uma indústria tão corrosiva. Contemplados pela direção de fotografia de Sven Kirsten, os personagens são visualmente grandiosos para uma história que se desdobra sem tamanha pompa dramatúrgica.

Ao longo de 122 minutos extensos demais para a proposta dramática desenvolvida, A Amante aborda a trajetória de Martin Landisman (Robert Wuhl), um roteirista que desce aos infernos ao atender a demanda de um produtor (Martin Landau), mandachuva de um estúdio que está interessado num projeto estruturado, mas nunca antes filmado. É uma ideia “original” que tem tudo para vingar e ser um baita sucesso comercial. Instigado pelo desafio, o roteirista resolve embarcar na empreitada, financiada por três empresários, homens que não estão exatamente conectados com as necessidades artísticas da produção, mas voltados aos desejos insaciáveis de suas amantes, mulheres burlescas, intensas, exigentes, criaturas com tempo ocioso ao cobiçar, mas não ocupar o lugar principal na vida de “seus” homens: o trono da esposa. Para acomodar tanta gente, é preciso que o roteiro passe por ajustes. É quando Martin Landisman coloca as mãos no texto e começa a fazer as conexões necessárias.

O problema é que além de ter que dar conta de tantas exigências, ele precisa dar conta da ausência de experiência, talento e profissionalismo das pessoas que se envolvem no projeto e o transformam em algo desfigurado, totalmente diferente da proposta artística preambular. Independente da qualidade, os empresários interpretados por Robert De Niro, Danny Aiello e Eli Wallach querem ver as suas garotas contempladas. E satisfeitas. É isso ou o projeto perde investimento, algo que no sistema de produção industrial, significa o engavetamento da empreitada. A história de um pintor que entra em conflito diante de um mundo focado nas relações de consumo e, pressionado por todos os lados, ceifa a sua própria vida, ganha dimensões extraordinariamente bizarras. Ao mudar o caminho original para agradar aos interesses financeiros que promovem o desmonte do filme, A Amante faz a sua crítica.

O resultado, no entanto, é pouco eficaz. Seria injusto dizer que não há bons momentos. Algumas piadas são divertidas e funcionam porque satirizam esquemas que até mesmo nós, espectadores, conhecemos, afinal, vivemos todo em um mundo materialista, e, por isso, somos capazes de compreender os conflitos que se desenvolve na vida deste roteirista complexado. Envolto em crises conjugais e traumas pessoais que gravitam em torno das duas linhas narrativas de A Amante, isto é, a deturpação do roteiro e a crescente confusão criada com chegada das amantes, o filme entra num impasse e comete os mesmos equívocos de narrativas construídas em torno de referenciais do próprio campo da arte. É, como dito em Alex & Emma – Escrevendo a Sua História, a metalinguagem traiçoeira. Ambos utilizam os desafios criativos de uma história irregular dentro de uma história, mas acabam por ser tão ineficientes quanto a crítica que promovem. É paradoxal e irritante.

A crítica ao sistema está lá, mas funciona muito abaixo da média. Os personagens se desenvolvem sem traços psicológicos que nos aproximem mais de suas trajetórias. Hollywood e a cultura das celebridades são os alvos da reflexão, mas convence pouco. É uma indústria muito sedutora e atraente, campo de produção que precisa de uma crítica mais contundente para nos convencer do fato de que por detrás da usina dos sonhos, promovedora de entretenimento para as massas, há histórias escabrosas e que desconstroem qualquer idealização em torno dos mecanismos que engendram o seu funcionamento vertiginoso. Fica a lição metalinguística sobre os desafios num esquema de produção grandioso, com egos, afetos e outros sentimentos envolvidos em torno de algo chamado arte, tópico expressivo da humanidade que gravita em torno da subjetividade. Ademais, a trilha sonora farsesca de Galt MacDermot se esforça, com bons resultados, tal como o design de produção de Phil Peters, responsável por nos fazer mergulhar em espaços visualmente conectados com o “fazer” cinematográfico, e os figurinos de Susan Nininger, setor que permite que todos pareçam hollywoodianos. Aparências que enganam.

A Amante (Mistress) – Estados Unidos, 1992
Direção: Barry Primus
Roteiro: Barry Primus, J.F. Lawton
Elenco: Robert Wuhl, Robert De Niro, Martin Landau, Danny Aiello, Thomas R. Voth, Vasek Simek, Jace Alexander, Tuesday Knight, Jean Smart
Duração: 110 min.

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