Crítica | A Armadilha (Otoshiana, 1962)

PLANO CRITICO PITFALL A ARMADILHA Otoshiana

Primeiro longa-metragem de Hiroshi Teshigahara — e também o primeiro de quatro filmes que ele realizou em parceria com o escritor Kôbô Abe — A Armadilha (Otoshiana/Pitfall) é um cruel e belo ensaio cinematográfico sobre o reino dos vivos e dos mortos, sobre as terríveis condições de trabalho dos mineradores e sobre como a maldade pode atingir diversas pessoas, começando apenas com um ato aparentemente aleatório e distanciado. Um tipo violento e realista de “teoria do caos” com mesclas de fantasia, surrealismo, história policial, suspense e horror.

Teshigahara também era artista plástico e o seu olhar peculiar para composição de imagens já se fazia ver como um grande diferencial neste primeiro longa, onde mistura trechos de documentários e reportagens sobre acidentes envolvendo mineradores na ilha de Kyushu, a maior do arquipélago do Japão, local de filmagens de A Armadilha. Por sua forma crítica e sobrenatural de abordar temáticas de condições de trabalho e violência de diversos tipos (assassinatos, estupro, agressão física) o filme é muitas vezes descrito como um “documentário fantástico” e esta definição é bastante precisa.

A primeira sequência da obra é uma fuga noturna. Pai (Hisashi Igawa) e filho (Kazuo Miyahara) fogem, se escondem e encontram um “cúmplice” no meio do caminho. O destino deles é incerto, nesse primeiro momento, e uma estranha atmosfera de tragédia paira sobre eles, correndo na linha do trem para um lugar que não conhecemos. A direção de fotografia tem aí o seu primeiro grande marco pela exposição das sombras e, pelo contraste, ganha evidência na sequência seguinte, uma diurna em sol a pino, onde os mineradores estão fazendo escavações-teste para ver se encontram carvão. O roteiro, até então, acena para um drama social, apenas. Até que um homem de terno branco aparece ao longe, fotografando os mineiros. E então as primeiras janelas de mistério são abertas.

Desse ponto em diante, o texto de Abe terá apenas uma dificuldade, que é a de engatar a briga entre os sindicatos de mineradores. No final, esse aspecto se cruza com um pouco de paranoia por parte dos dois representantes, e vale também dizer que quando os jornalistas abordam o segundo personagem vivido por Hisashi Igawa, a direção não segue o mesmo rigor que tivera no restante do filme, tornando a conversa visualmente pouco interessante, tendo aí também justificativas e problemas um tanto atropelados por parte do roteiro. No entorno dessa cena, a obra funciona muitíssimo bem. O clima de medo — em muitos níveis — é criado com bastante eficiência pelo diretor e recebe ajuda precisa da trilha sonora composta pelo grande Tôru Takemitsu em parceria com Yûji Takahashi e Toshi Ichiyanagi.

Existem diferentes interpretações sobre o homem de terno branco (a própria morte? Um assassino contratado pela direção da mineradora? Um serial killer? Alguém querendo vingança?) e até mesmo sobre o silencioso garotinho que passa o filme inteiro correndo, comendo e contemplando o horror à sua volta. Independente do caminho que se tome para ler cada uma dessas figuras, a nossa certeza é de que A Armadilha é um filme poderoso sobre partidas e permanências, sobre maus-entendidos, sobre a maldade humana e sobre diferentes visões do que é “lutar para sobreviver”. Com uma direção ousada, Teshigahara começa a sua jornada nos longas-metragens com o pé direito, abrindo o caminho para o seu filme seguinte, A Mulher da Areia, considerada a sua maior realização.

Otoshiana (Japão, 1962)
Direção: Hiroshi Teshigahara
Roteiro: Kôbô Abe
Elenco: Hisashi Igawa, Sumie Sasaki, Sen Yano, Hideo Kanze, Kunie Tanaka, Kei Satô, Kazuo Miyahara, Akemi Nara, Tadashi Fukuro, Kikuo Kaneuchi, Kanichi Ômiya, Shigeru Matsuo, Ton Shimada, Sanpei Asakura, Heiguro Matsumoto
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.