Crítica | A Arte de Charlie Chan Hock Chye

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Você já ouviu falar em Charlie Chan Hock Chye? Se não ouviu, deveria. Trata-se de um verdadeiro ícone da Nona Arte, o maior quadrinista de Singapura, um homem que desafiou regimes e lutou durante décadas para a produção de sua arte. Inicialmente influenciado por Osamu Tezuka (logo no início desta sua jornada ele cita o preciosismo do movimento na arte do colega japonês, mesmo em trabalhos de base, como A Nova Ilha do Tesouro) Charlie Chan foi amadurecendo como artista e como pessoa, mudando seu estilo, seu ritmo narrativo e seus projetos, às vezes tentando dar as mãos para a indústria, só que majoritariamente olhando com desconfiança e até um tanto de desprezo para ela, assim como para o Estado e suas resoluções. É sobre a arte deste grande artista que o presente quadrinho se trata. A arte deste grande artista que nunca existiu.

Escrita e desenhada por Sonny Liew, um malaio radicado em Singapura, A Arte de Charlie Chan Hock Chye foi originalmente publicada em 2015 e já começou sua trajetória com polêmicas envolvendo o Estado. Liew havia recebido um investimento de 8 mil pelo National Arts Council, mas o conteúdo da obra foi visto com maus olhos pelo Conselho, que retirou o valor. Coube a Edmund Wee, fundador da Epigram Books, devolver o dinheiro ainda não utilizado e colar adesivos para encobrir a logo do NAC nos livros já impressos. Segundo os auditores oficiais, este quadrinho “minava a legitimidade do governo em suas afirmações sobre a História do país” e até mesmo na forma como Singapura foi conduzida até o estágio de desenvolvimento em que vive hoje. E esta é justamente a alma da obra. A História de Singapura contada através dos quadrinhos — no seio de uma falsa biografia — e uma História dos quadrinhos contada a partir da História de Singapura.

O teor metalinguístico da obra se une às suas diferentes intenções através de um design sublime, fazendo-nos acreditar que realmente estamos acompanhando os projetos de um artista hoje velhinho e [quase] esquecido, que abriu o baú para um entrevistador jovem, agora compartilhando todo o raro material com os leitores. Com esse gancho que, de partida, já é encantador, vemos o autor experimentar dezenas de técnicas artísticas ao longo do volume, fazendo jus ao título — A Arte de… –, ou seja, como se estivéssemos com um catálogo muito rico e perfeitamente contextualizado da vida e obra Hock Chye e como os trabalhos do biografado espelham, criticam e mostram-se influenciados pelas eleições, pelas manifestações de estudantes, pela repressão policial, discursos vazios de líderes políticos, briga entre setores da esquerda e toda a caminhada dos britânicos para manterem pelo maior tempo possível as suas garras sobre o sudeste da Ásia… isso após a já traumática história de malaios e singapurianos nas mãos dos japoneses durante a 2ª Guerra.

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É nesse ponto que o real sentido da HQ se descortina para nós. Falar de arte e política (ao contrário do que uma turba de alienados “fãs de quadrinhos” andam apregoando em redes brasileiras) é parte legítima do jogo e o propósito final aqui é uma aula de arte e uma aula de História que utiliza diferentes formatos, páginas envelhecidas, recorte, colagem, pinturas com variadas técnicas e inúmeras referências ou citações a outras obras, títulos e artistas (do Ocidente e do Oriente) como base documental. É um negócio brilhante de se ler e que realmente nos dá a impressão de ter sido feito por um homem ao longo de 50 anos de carreira, tamanha é a diferença que temos nos tipos de abordagem para um problema/situação, nos experimentos com formatos artísticos e também nos desenhos ou intervenções feitas em material governamental (como livros didáticos e folhetos educativos) ou publicitário (como propaganda de disco).

Na camada referencial, onde Liew não só usa a Nona Arte, mas faz dela um ‘personagem’ que também está recebendo uma trajetória biográfica, o leitor irá observar como a sociedade, a política, as memórias e a vida pessoal se agarram às citações de personagens como O Sombra, Superman, Beano, Batman, Dan Dare, Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Astro Boy; como delicados e irônicos momentos políticos de Singapura são expostos no estilo de revistas como Weird Tales (em abordagem pulp) e MAD (em abordagem cômica); e como se faz presente em tudo isso a arte de Wally Wood; o trabalho de Carl Barks na Disney; uma certa sequência televisiva de O Cavaleiro das Trevas; as brincadeiras com Dream of the Rarebit Fiend de Winsor McCay, ou o ambiente cheirando a “problemas da comunidade” que referencia Pogo, de Walt Kelly e o ambiente cheirando a “problemas da humanidade” que referencia Maus, de Art Spiegelman.

Para mim, A Arte de Charlie Chan Hock Chye é o tipo de obra que tem tudo para se tornar um material didático de peso, além de ser uma HQ que entretém e que não vai jogar fácil com o leitor ou subestimá-lo. Mesmo existindo cenas de porradaria e clichês industriais propositais nas histórias dentro da história, o volume não vai apresentar o tipo de conflito personagem X vilão/outro-personagem. A proposta e o propósito aqui são outros. E são executados de tal forma que nos deixa incrédulos pelo que acabamos de ler e ver: um perfeito casamento entre técnica e conteúdo fora do núcleo heroico, pelo menos como tema principal. Uma obra preocupada em discutir, fazer pensar, informar de um modo diferente (lembrando um pouco Guy Delisle nesse aspecto) nunca perdendo a proposta criativa de vista, a ode aos mangás e quadrinhos ou à arte de desenhá-los e escrevê-los. Uma das melhores HQs de todos os tempos.

A arte de Charlie Chan Hock Chye (The Art of Charlie Chan Hock Chye) — Singapura, 2015
Publicação original: Epigram Books, março de 2015
No Brasil: Pipoca e Nanquin, 2018
Roteiro: Sonny Liew
Arte: Sonny Liew
Editoria: Joyce Sim
320 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.