Home FilmesCríticas Crítica | A Babá – Rainha da Morte

Crítica | A Babá – Rainha da Morte

por Iann Jeliel
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  • SPOILERS do primeiro filme e SPOILERS moderados deste

Se o primeiro A Babá já dava McG uma liberdade de autoria completa, sua continuação eleva essa libertação a outro patamar. O diretor chuta o balde, desafiando o público aos mais absurdos níveis de nonsense, transformando as noções de linguagem por trás da brincadeira de gênero em quase uma mitologia. É verdade que Rainha da Morte com isso se encaixe naquele grupo de continuações que acreditam no “quanto mais, melhor”, mas ao invés de sustentar o “mais” como pura e simplesmente pegar cenas e elementos anteriores que deram certo e aumentar a escala – impedindo a eficácia do humor na quebra de expectativa –, o “mais” se torna um alicerce para a mistura de estereotipações não ter mais barreiras, assim, qualquer coisa pode acontecer na narrativa que será correspondente ao universo.

O sentido é não ter sentido, como a vida de um adolescente. Se o anterior defendia a consolidação de um novo estereótipo a um tipo de personalidade malandra da nova geração enquanto criança, este fará a mesma coisa à figura geracional do jovem, geralmente perturbado por algum problema psicológico e naquela fase doida em busca de autoafirmação. Processo desejado pelo protagonista desde o primeiro, mas que não foi correspondido exatamente ao final dele – reforçando seu aspecto de grande brincadeira caseira mesmo –, já que Cole não conseguiu convencer ninguém da veracidade da sua história, sendo taxado de louco por todos, inclusive seus pais. A única que acreditava nele por ter feito parte da ação era seu par romântico Melaine, mas esta agora o colocou na “friendzone”, o que só despertou mais anseio em sua personalidade naturalmente retraída. Não à toa, é através da subversão da real relação desses dois personagens que se torna o gatilho para a nova chacina e para a nova etapa da jornada dramática do personagem.

Sim, a ideia de torná-la a nova vilã parece não fazer sentido em continuidade, por isso o filme estende sua duração em relação ao anterior para desenvolver os contextos que levarão a essa virada ao mesmo tempo em que estabelece esse novo grau de exagero em sua decupagem. É bem didático, começa pela fotografia, vibrando mais as cores em um tom pastel, e passa para pequenos elementos inseridos na narrativa a serem puxados no futuro, tanto aqueles que realmente serão correspondidos como aqueles que estão ali só para enganar. O mais evidente nesse sentido é a inserção da personagem nova que será a ajudante de Cole no exercício de sobrevivência. Sua apresentação é estranha, extremamente exagerada (o tom do filme) e cheia de pistas como a tatuagem em seu braço, o figurino não correspondente à extravagância da fotografia, tudo para nos fazer acreditar que é dela que surgirá o gatilho da premissa. Pode ser até previsível não ser ela depois de todo esse direcionamento escancarado, mas existe um teor proposital de ser previsível porque desse modo o filme incita que em outros momentos vai construir cenas só para fazer a piada com a virada.

Ciente de que estabeleceu isso com seu público, o filme irá brincar sobre diferentes camadas de piada com os implantes anteriores. O filme ri da repetição que cria quando se espelha no que aconteceu no anterior, ri da intenção de se fazer a piada com essa repetição, ri da forma como o público (e os personagens) reage ao perceber a intenção de se fazer piada com a repetição, e às vezes mistura tudo em bolo só para rir de todas ao mesmo tempo, e se duvidar, depois ainda faz uma hipermetalinguística piada sobre o fato de como essa mistura ficou confusa. Essas várias sobreposições do humor em sintonia com a crescente de exagero absurdista no gore vão moldando convenções no universo partindo do efeito nos personagens das conveniências inseridas na trama. A cada nova reviravolta tirada da cartola, o filme estabelece uma regra, e a partir daí é que começa a segui-la, pois é desse ponto que ele saberá o que fazer quando for fechá-la numa nova piada. Como ele sabe não se levar a sério, essas conveniências se tornam passáveis porque sustentam a dinâmica de montanha-russa no ritmo.

Para além de uma paródia, ainda é um exercício de gênero categórico no terror, assim como o primeiro, respeita o mínimo de equilíbrio do termo “terrir” para não dispensar uma sensação de periculosidade do slasher, que fará dentro da lógica gameplay de sucessão de desafios com que os arcos de desenvolvimento sejam mais compráveis e a trama urgente como deve ser. Obviamente, considerando tantos elementos surtados, é preciso pensar essa “seriedade” para a lógica interna do filme, ou seja, correspondente a sua cafonice. E por incrivel que pareça, só não funciona tão bem como o anterior – que era a amizade entre Cole e Bee – porque tinha que dividir a dramaticidade com a outra personagem nova. Contudo, ela serve perfeitamente como abertura do mesmo clima romântico brega para a criação de um clímax grandioso, além de um auxílio para diagramar todos os novos dispositivos do universo criados, fechando coerentemente pontas deixadas pelas aleatoriedades surgidas na conveniência ou pela referência.

Porque lembremos, McG é um cineasta que gosta demais de trabalhar com citações de seu repertório para ampliar as possibilidades da brincadeira. Então, como tudo nesse filme, seu caráter referencial é também extrapolado, permitindo novas sacadas excelentes – principalmente as do ato final – e também criando várias que não soam tão orgânicas, mesmo nessa proposta maluca. É nesse ponto que talvez A Babá: Rainha da Morte ainda fique um pouco abaixo do primeiro, que dentro de seu nível mais contido conseguia tornar esses momentos junto à unidade do filme inteiro mais icônicos. Não que esse também não tenha momentos icônicos (tipo quando toca Killer Queen do Queen), mas até pelo caráter de sua proposta, como filme íntegro não se torna tão icônico e significativo naturalmente com o tempo, pelo menos, não tanto quanto o primeiro. Ainda assim, é uma continuação digníssima e um dos mais divertidos filmes do ano.

A Babá: Rainha da Morte (The Babysitter: Killer Queen | EUA, 2020)
Direção:
McG
Roteiro: McG, Dan Lagana, Brad Morris, Jimmy Warden
Elenco: Judah Lewis, Hana Mae Lee, Robbie Amell, Bella Thorne, Andrew Bachelor, Emily Alyn Lind, Leslie Bibb, Ken Marino, Jenna Ortega, Samara Weaving
Duração: 101 minutos

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