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Crítica | A Barraca do Beijo 2

por Iann Jeliel
403 views (a partir de agosto de 2020)

A crítica a seguir contém SPOILERS MODERADOS.

Não é difícil entender os porquês que tornaram o primeiro A Barraca do Beijo um dos grandes fenômenos da Netflix. Em primeiro lugar, a linguagem adolescente idealizada que constrói um universo de aparências perfeitas que todo jovem naquela idade gostaria de participar. Em segundo, sua localização e de certo modo iniciativa de uma tendência no gênero (pelo menos dentro na plataforma), por mais que não fossem – creio eu – as intenções do diretor Vince Marcello, seu filme se encaixava no grande conglomerado surgido em meados dos anos 2010 de comédias dramáticas adolescentes puxadas no clima dos anos 80 e 90, só que reconstruídas em discurso para o moderno, mais representativas e geralmente direcionadas ao ponto de vista feminino.

Aí é que está, para um filme rotulado nesse movimento, e que pelo sucesso influenciou a produção de dezenas de outros para o preenchimento do catálogo, existia nas entrelinhas uma problemática com relação à construção abusiva do casal principal. Por isso digo que as intenções do diretor eram outras, dentro da sua construção individual, sua modernização parecia bem mais interligada à forma que ao conteúdo, uma comunicação mais dinâmica (os letreiros, as regras da amizade), direta (a montagem que falava tudo) e que ainda homenageava a cafonisse, sem deixar de entregar um lado dramático que tentava entender a mentalidade jovial, vibe John Hughes. Acontece que o cineasta passa longe de ser um Hughes da vida, e não compreendia perfeitamente as camadas comportamentais de seus personagens, especialmente da protagonista que se tornava refém das decisões dos homens que a cercavam.

No entanto, em minha perspectiva, essa problematização circundada no filme está muito mais interligada a uma falta de conhecimento do diretor do que má intencionada. A impressão é que o primeiro filme realmente não se sentia nesse compromisso representativo que seus posteriores (no caso, outros títulos adolescentes fortes da Netflix)  admitiam muito mais claramente, assim ele parecia ao menos honesto dentro da linguagem escolhida e tinha carisma suficiente para sair como inofensivo, apesar de distante de qualquer qualidade significativa, cinematograficamente falando. Eis que 3 anos depois, em outro contexto, surge repentinamente a continuação, que realmente expõe como esses filmes da Netflix são feitos sob demanda, e a única cobrada com relação a Barraca do Beijo era a mudança de discurso, ou no mínimo, a demonstração de uma evolução dele, e parece que  tudo de problemático foi devidamente ouvido para ser corrigido progressivamente nesse.

Tá, mas isso é bom, não? Nas intenções, sem dúvidas, mas na elaboração e reconstrução de linguagem na prática, só levou a franquia a incongruências mais incômodas. Das mais simples, como a mudança de caracterização do Noah – que já entrega muito dessas intenções de conserto do filme – evidenciando a inversão da imagem do que ele é no seu concorrente (Marco), para elaborar um embate de escolhas à protagonista, até o fato dessa construção ter que durar 130 minutos para passar a impressão de que ela foi elaborada como arco narrativo de trilogia, ou seja, negando o descompromisso e se assumindo em um desde o princípio. Acontece que, como dito, esse diretor não tem qualquer conhecimento substancial do universo jovem para propor tão ousada transformação de arquétipos sem abandonar os preceitos exagerados da idealização que quer para a comédia.

Então as coisas se misturam, Marco se torna o homem perfeito para absolutamente nada, exceto para ser descartado quando a princesa se toca que tem direito de tomar suas próprias escolhas. E o filme tenta interligar isso a outra parte do discurso narrativo do anterior – já resolvido nele mesmo – com relação à amizade, utilizando de paralelismos gritantemente óbvios das teias de relacionamentos para potencializar os conflitos específicos desse e torná-los só mais desnecessários. O que é mais importante? Amizade ou “namorico”? Até onde a amizade atrapalha o “namorico”? É possível os dois coexistirem? O roteiro entra nesse território novamente somente para apagar o fato da escolha estar direcionada ao respeito familiar conservador, e não ser um respeito simples de convivência entre as pessoas envolvidas, mas aí ele pensa estar resolvendo isso através da comunicação, mas os conflitos não são gerados pela falta dela, e sim por ela existir em contextos convenientes de paranoia ou “bom senso” para não perder as relações de amizade.

No lado masculino é colocado como mais complicado, pela retórica da pose de “macho” que nunca quer admitir nada errado, o que é errado, é preciso que uma amiga no estereótipo de totalmente desconstruída para só assim não resistir aos seus charmes e ensinar para ele aprender, enquanto a protagonista já admite o erro com um ato de força, mas o justifica pela fragilidade mental de não conseguir tomar decisões próprias. Aí a incongruência se completa, quando o filme admite esse vitimismo tóxico do anterior e inverte os papeis direcionando-o à protagonista, o admitir ser relativizado pelo gênero e colocado como algo positivo por desvincular uma retração bagunça completamente qualquer lógica temática que o filme tinha. Isso sem contar que sua escolha de assumir o compromisso só é endireitada também pela influência de um terceiro, criado ali protocolarmente como um amigo que vira uma paixonite e volta a ficar na amizade porque o namoro é o principal. Mas o namoro só foi possível pelo entendimento de amizade, que teoricamente está correlacionado em importância, mas só para aquele caso convenientemente não, então uma grande parcela do filme dedicada a construir aquilo é jogada fora pensando ser parte do processo de amadurecimento e representativo no discurso.

É tão óbvio, gratuito e incoerente que o filme põe a subtrama de origem no título como irrelevante à história, mas volta com ela somente para uma ceninha climática envolvendo outra subtrama completamente terciária de uma paixonite gay que sai do armário na brincadeira. Mas se a Barraca é irrelevante, logo, essa subtrama também é, sendo que na teoria é um recurso para admitir mais o lado representativo que é o mote principal do filme, ou seja, o próprio mote representativo é irrelevante? Enfim, nesse show de incongruências, os olhares do público-alvo certamente estão mais interessados na lógica de time criada pelo marketing, tal como na continuação recente Para Todos Os Garotos: PS Ainda Amo Você, é torcer para quem ficará com Elle no final, se é o gostoso do ensino médio ou o novo gostoso da faculdade (apesar de já saber do resultado, por favor…), e sonhar em um dia ficar dividida entre dois gostosos como eles.

A Barraca do Beijo 2 (The Kissing Booth 2 | EUA, 2020)
Direção:
Vince Marcello
Roteiro: Vince Marcello, Jay Arnold
Elenco: Joey King, Jacob Elordi, Joel Courtney, Molly Ringwald, Taylor Zakhar Perez, Maisie Richardson-Sellers, Meganne Young, Stephen Jennings, Carson White, Bianca Bosch
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 132 minutos

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