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Crítica | À Beira da Loucura

por Frederico Franco
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John Carpenter teve sua carreira marcada, primordialmente, pelo fenômeno do slasher a partir dos anos 1970. A trajetória do diretor acompanha, invariavelmente, as mudanças nas convenções do terror e do suspense. Abro um parêntese para um adendo: a carreira de John Carpenter não apenas acompanha lado a lado o desenvolvimento de gênero citado, mas também é a razão desse redirecionamento de rota. O pós-outono de 1978, data do lançamento de Halloween, representa o sucesso do subgênero do slasher, responsável direto pelo surgimento de obras subsequentes: de The Thing, do próprio Carpenter, até A Hora do Pesadelo, a fórmula de um assassino em série, de caráter antropomórfico ou não, que implacavelmente persegue um grupo de pessoas é reutilizada até sua exaustão. A insipidez das sequências das maiorias dos grandes filmes slasher ilustram bem o movimento de declínio criativo, no qual a fórmula primordial é utilizada como um meio vazio, não como espaço a ser esmiuçado esteticamente.

A questão, aqui, não é pontuar uma definição de slasher e a progressão do subgênero por entre suas múltiplas facetas, mas entender o que ocorre com Carpenter em À Beira da Loucura. O filme de 1994 parece uma revolta frente às já esgotadas convenções do subgênero: o cansaço causado pelas já conhecidas franquias é substituído por um pujante devaneio estético voltado para o desenvolvimento de um ambiente grotesco pontuado pela premissa de distorção da realidade. John Trent, um detetive particular é contratado para investigar o desaparecimento de Sutter Cane, um escritor de livros de terror. Quando Trent inicia a ler as obras de Cane em busca de pistas para o possível sumiço e a medida em que a leitura avança, sua sanidade parece cada vez mais dissipada. Concluir, a partir da breve sinopse, que o referido filme tem tons de realismo fantástico é uma leitura precipitada; o fantástico e o real não possuem relações limítrofes. Carpenter não busca qualquer relação com a realidade, mas sim maneiras de destruí-la.

À Beira da Loucura é um filme cujo mote principal é profanar, para delírios póstumos de Walter Benjamin. Ao abordar a questão da comunicação, o autor alemão aponta que a palavra, na verdade, não representa uma essência tautológica, mas remete a uma essência espiritual. E é tarefa do ato de comunicar unir língua e espírito: se comunica algo, a essência divina é evocada. A ideia, aqui, é entender que a comunicação é, na verdade, a profanação do divino; o homem não é capaz de criar por meio da palavra, apenas rememora a criação e o significado por meio dela. Profanar, portanto, é parte inata da vida humana: estamos condenados à profanação para nos comunicarmos. Esse detalhe da existência captado por John Carpenter é dividido no presente texto em três atos que, ao final da experiência fílmica, provam-se como uma grande unidade de ruptura.

Em um primeiro momento, é óbvio apontar que À Beira da Loucura é uma experiência que de nada tem a ver com o clássico. Tempo, espaço e ação não são usados em prol do didatismo, muito pelo contrário. Fugir do clássico é uma opção viável, mas nem sempre funcional. Carpenter sabe como manter o espectador preso em seu microcosmos de delírio e paranoia. A busca pelo antagonista abstrato parece despertar os objetos e paralisar os humanos; os decadentes cenários do interior dos Estados Unidos tornam-se não meros objetos, mas formas vivas com função de impor medo. Se os slashers carpenterianos possuem pequenos pontos de grotesco como ponto de quebra em suas atmosferas sóbrias e friamente calculadas, À Beira da Loucura é sua própria profanação. A sobriedade dá lugar à violência formal na qual sons estridentes, imagens grotescas e atuações de trabalho corporal à Grotowski nos agridem até o fim da jornada pelo universo místico de John Carpenter.

Partindo para o próximo tópico, não se pode deixar de lado a maneira como a distorção de símbolos sacro-cristãos tornam-se elemento imprescindível da ideia de violência estética. Desde a figura messiânica do autor desaparecido, passando por seu livro capaz de inflar multidões e levar outro tantos à insanidade, chegando aos minutos finais com o protagonista coberto por cruzes, o simbolismo cristão parece ser transformado em objeto de terror, não de afeição ou sacralidade. A religião é profanada. E do mesmo modo que Benjamin vê em Gênesis o ponto central de sua teoria da linguagem, John Carpenter parece se apropriar de uma versão do Apocalipse enquanto força motriz de À Beira da Loucura. Se Deus não é um escritor de livros de terror, como citado no filme, tal função fica a cargo do Diabo. O caos e a destruição reinam enquanto o sagrado é dilacerado pela encenação.

O mais importante e, talvez, impactante a ser observado a partir dessa leitura benjaminiana da película é perceber como é tratado o real. Ao contrário do método clássico, a realidade é negada e, sobretudo, profanada. Pensar a palavra como uma pequena partícula da essência divina do ato de comunicar é entendê-la como a profanação de sua matéria prima: o significado. Tentar traduzir essa ideia para as imagens é tarefa árdua, explorada desde os primeiros mestres da teoria do cinema; é inegável, no entanto, que considerar a realidade como uma candidata a matéria prima do cinema. Pensando assim, Carpenter atinge níveis de abstração do real nunca vistos em sua carreira; profanando a sagrada realidade o diretor nos afasta, desde o princípio do filme, de toda e qualquer possibilidade de aproximação com o universo por ele criado. À Beira da Loucura é um lugar onde tudo é uma grande estrutura agressão que transcende o plano físico; o conflito não ocorre entre elementos palpáveis, mas sim abstratos. O embate se posiciona a partir da relação do ser humano com a realidade e, consequentemente, com ele próprio. O mundo material que conhecemos é, dessa forma, um vívido campo de batalha tornado que, guiado pelo diretor, extrapola seus limites convencionais. A realidade não é profanada à toa, mas com intuito de atingir novos e etéreos níveis de percepção.

O poder da arte é abrir as portas da percepção de Blake e transformar tudo em infinito. Não é diferente daquilo que o próprio Sutter Cane faz com seu livro apocalíptico dentro da diegese de À Beira da Loucura. A função da realidade perante a arte pode ser, justamente, a de servir como território neutro a ser expandido. Como Francis Bacon, Pollock e Hilma af Klimt, John Carpenter distorce o mundo ao ponto de torná-lo inteligível ao intelecto humano, atuando como a utopia de criador para Benjamin. Tamanha profanação da língua visual da realidade aproxima a obra de Carpenter da essência divina.

À Beira da Loucura (In the Mouth of Madness) – EUA, 1994
Direção: John Carpenter
Roteiro: Michael de Luca
Elenco: Sam Neill, Julie Carmen, Jürgen Prochnow, David Warner, Peter Jason, Charlton Heston, John Glover, Hayden Christensen, Wilhelm von Homburg
Duração: 95 min.

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