Crítica | A Bela e a Barba

0Satoko Date, Hiroko Kawasaki The Lady and the Beard (1931) plano crítico a bela e a barba

É bem comum que diretores, no início de suas carreiras, experimentem ou adotem um estilo de filmar ou de opções narrativas que sejam muito diferentes daquilo que marcariam sua filmografia madura. No caso de Yasujiro Ozu, considerando os seus mais antigos filmes sobreviventes, podemos notar essa grande diferença de estilo mais fortemente em  Dias de Juventude e Marchar com Alegria, por exemplo, mas nada supera o curiosíssimo elefante branco na carreira do diretor, a comédia romântica A Bela e a Barba (1931), filme que mais parece uma obra de safras iniciais de Hiroshi Shimizu ou de Mikio Naruse, mas definitivamente não de Ozu.

A principal justificativa é fácil de entender, se tomarmos conhecimento de que Ozu tinha em altíssima conta o cineasta alemão Ernst Lubitsch, e aqui, mesmo que indiretamente, lhe fez uma espécie de homenagem, trabalhando em um roteiro que conecta elementos de guerra dos sexos, flerte com comédias bobas, melosas ou musicais (não à toa, um pôster de Amor de Zíngaro está pregado na parede da casa do protagonista) e uma ciranda de romances onde pessoas amam pessoas que não amam pessoas. O resultado é um longa que diverte o tempo inteiro, apesar de certos incômodos na representação de algumas cenas e interação entre personagens, sobre os quais falarei adiante.

Tokihiko Okada dá vida a Okajima, um recém-formado mestre de kendo (moderna arte marcial japonesa, desenvolvida a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais do Japão feudal, o kenjutsu) que está procurando emprego, mas sem sucesso. Jovem, bem-humorado e com vontade de trabalhar, Okajima passa pelos mesmos perrengues sociais que os estudantes de um filme anterior de Ozu, Fui Reprovado, Mas…, certamente um reflexo social do Japão em que o diretor vivia, também sentindo as ondas econômicas da Crise de 1929. Um ponto particular para o protagonista, no entanto, é que ele tem uma barba cheia e isso não era exatamente bem visto na sociedade japonesa de 1931. Em cima dessa premissa muito simples (tendo como base o livro de Komatsu Kitamura), Ozu desenvolveu um roteiro que mirava em Lubitsch na inteligência de parte da comédia e colocava suas próprias perguntas e posicionamentos sobre diversos temas da vida no Japão.

Imageticamente, o filme ganha um charme a mais e talvez seja por isso que seu resultado final seja solidamente bom. Claro que aqui sentimos falta de alguns ícones estéticos favoritos do diretor, mas a direção é aplaudível e o ritmo do filme, ao menos na estrutura geral dos eventos, é muito bom, além de inteligente. O tema da barba como demarcação da personalidade de Okajima — vendido como “homem antiquado”, mas nem é tanto assim… basta fazer a leitura correta do personagem dentro da sua época — se desenrola por caminhos cada vez mais tortuosos e engraçados, com o espectador às vezes torcendo para que uma pretendente não encontre a outra junto ao pobre mestre de kendo, algo que passa ao largo do personagem, já que ele não é um homem sacana, só muito prestativo. Diante disso, como era de se esperar para um filme de 1931, temos diversas bifurcações para estranhas definições do papel da mulher (o final chega a ser incômodo, mas pela exposição social que o diretor faz, quase como uma crítica; não que isso seja uma posição final dele — e sabemos que não é), para o comportamento do homem e mais uma boa colocação do conflito de gerações e criação de laços, esses sim, temas que seriam recorrentes para o diretor no futuro.

Lamentamos que alguns personagens recebam cenas bastante estúpidas, como a última da barba falsa de Okajima; ou desconsertantes, como as que seguram tempo demais as emoções já compreendidas e meio exageradas dos personagens na tela. A comicidade e a dureza disfarçada de como funcionam as regras de nossa sociedade para as famílias, para a questão da aparência física das pessoas, para os pobres e principalmente para as mulheres, vencem com folga os maiores obstáculos e tornam o filme melhor. Cheio de indiretas, olhares mal disfarçados entre personagens e uma bem pensada passagem entre os blocos A Bela e a Barba é mais do que um “filme dos primórdios” na carreira de Ozu. É o seu filme diferentão por excelência. Um verdadeiro documento de como um bom diretor, mesmo em terreno essencialmente estranho, pode entregar um bom trabalho.

A Bela e a Barba (Shukujo to hige) — Japão, 1931
Direção: Yasujirô Ozu
Roteiro: Yasujirô Ozu (baseado na obra de Komatsu Kitamura)
Elenco: Tokihiko Okada, Hiroko Kawasaki, Chôko Iida, Satoko Date, Ichirô Tsukida, Toshiko Iizuka, Mitsuko Yoshikawa, Tatsuo Saitô, Takeshi Sakamoto, Sôtarô Okada, Yasuo Nanjo, Ayako Katsuragi, Tomio Aoki
Duração: 75 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.