Crítica | A Bela Intrigante

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Obra máxima do lendário diretor Jacques Rivette, A Bela Intrigante (1991), versa sobre os desafios e frustrações de um pintor que tenta finalizar seu suposto magnum opus através da figura de uma jovem modelo. Inspirado no conto A Obra Prima Desconhecida, do célebre Honoré de Balzac, o filme de Rivette, de aproximadamente 4 horas de duração, explora de maneira minuciosa o processo de criação artística e a obsessão do artista por sua musa inspiradora.

Com 4h de duração e rodado na Provença francesa, o filme de Rivette conta a história do ressurgimento artístico de um famoso pintor, Edouard Frenhofer (Michel Piccoli) após conhecer a jovem Marianne (Emmanuelle Béart). Deixando de lado sua antiga modelo e esposa Liz (Jane Birkin), o artista combina de realizar sua grande obra final tendo Marianne como modelo. 

Como é de se esperar, filme e livro possuem uma clara diferença: o apelo visual. Obviamente, a película de Rivette ganha vantagem em tal aspecto. Tratando-se da sétima arte – naturalmente um veículo imersivo e extasiante – A Bela Intrigante carrega o espectador até o âmago da psique artística. Somos levados, através de imagens com caráter realista, porém, com um quê de onirismo, às minúcias do gesto de Frenhofer; acompanhamos cada detalhe de sua mão em longos planos, que revelam ora firmeza, ora dúvida quanto a seu próprio trabalho. 

É, também, o entendimento e concepção da labuta artística que constrói o universo de A Bela Intrigante. Fugindo do usual, Jacques Rivette, adaptando a obra de Balzac, não a comprime: insere nela seus próprios devaneios e percepções quanto a construção da obra prima de Frenhofer. Assim, acaba dilatando a narrativa – caminho inverso à maioria das adaptações literárias – dando à ela mais intenções pessoais. Um exemplo: os questionamentos quanto ao autor e sua existência ou não no mundo da arte. 

Como observado por Thomas Elsaesser em seu texto Em Torno de A bela intrigante, de Jacques Rivette, o filme contesta o conceito de autoria e de autenticidade no mundo artístico. “A impossibilidade do autor e a necessidade de ser um“, frase de Elsaesser, funciona como uma síntese da odisseia de Frenhofer em busca de sua obra prima – já que, ao falsear sua própria pintura, o artista coloca a própria autoria em jogo, apresentando ao público uma versão alternativa de seu magnum opus

Assim como faz Orson Welles em Verdades e Mentiras (1973), Rivette questiona: não seria a capacidade de representar e, quiçá, forjar, o real valor artístico? Desse modo, como temia Walter Benjamin em A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, inclusive pinturas poderiam ser falseadas; não contava ele, que tal processo poderia ocorrer através do próprio veículo da pintura. 

Entretanto, na cena em que Liz assina com uma cruz a obra já finalizada por Frenhofer, surgem novos questionamentos quanto a questão do autor – tal símbolo aparentando significar alguma questão post mortem. Assim, conclui-se que nem ao menos a morte seria capaz de acabar com a autoria, assinatura e legado de um autor. Ainda, recorrendo a Benjamin, tal marcação seria capaz de ressignificar toda a obra de Frenhofer: segundo o alemão, a aura da pintura seria alterada, já que o hic et nunc (aqui e agora) da pintura estaria fortemente atrelado ao suposto período da vida do autor. 

Seguindo Elsaesser, existem três tipo de filmes sobre pinturas: aqueles que versam sobre pintores, filmes que colocam pinturas como ponto central da trama e tableaux vivants. É fundamental tentar enquadrar A Bela Intrigante nas categorias que pesquisador alemão propõe. Facilmente, a película de Rivette se enquadra nas duas primeiras categorias – mesmo que esteja versando sobre um pintor fictício, é uma obra que explora os meandros da mente criativa, assim como Caravaggio (Derek Jarman, 1986) e Retrato de Uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2018). 

Adiante, A Bela Intrigante pode ser classificado, segundo Elsaesser, como um mise en abyme: uma narrativa inserida dentro de outra narrativa ou veículo artístico.  Contudo, há de se ir além e entender que todo filme que versa sobre pintura é um mise en abyme, haja visto que a sétima arte é um derivado muito próximo da pintura; sem esquecer, ainda, que as técnicas cinematográficas só foram aperfeiçoadas através da câmara escura. A Bela Intrigante, sobretudo, tem como principal função, aproximar ao máximo duas das mais importantes artes da representação. Essa, é a palavra perfeita para unir tais atividades artísticas. São essas as duas artes capazes de captar, e criar, a essência de uma experiência estética advinda da natureza proposta por Kant e aprimorada para o cinema através de Hugo Munsterberg, primeiramente. 

Seria então, o presente longa, uma contribuição rivettiana aos entusiastas da metalinguagem? Ao compor, dentro do ateliê de Frenhofer, uma rigorosa mise en scène repleta de pinturas inacabadas, enterradas em um denso jogo de chiaroscuro e tendo, ao centro do quadro, uma Marianne completamente imóvel, Rivette expõe a grande farsa do cinema. O realismo anterior dá voz ao formalismo, fazendo com que o veículo cinematográfico fique exposto – com uma montagem menos incisiva, o tempo torna-se dilatado e o espectador passa a notar os limites e farsas do cinema. 

Aqui, Rivette une cinema e pintura, para instigar o espectador a entender os processos físicos, mentais e artísticos que dão à luz a uma experiência artística. Dentro do ateliê de Frenhofer, o espectador é lançado dentro do processo de criação do artista; ali, um denso e labiríntico mundo é criado. Desde as repetidas (e excessivas) poses propostas à modelo até os enraivecidos traçados de Frenhofer, Rivette convida a platéia a conhecer o escalafobético processo criativo de um pintor.

Ao fim, por meio de uma sutil metáfora, o diretor discorre sobre o confronto entre o artista e o real, o reprodutível. Do mesmo modo que todo artista necessita entender aquilo que busca reproduzir, necessita confrontar essa instância, impondo sua visão sobre esta. Esse ato é representado por meio de extensos e calorosos debates entre Frenhofer (artista) e Marianne (o real). Enquanto o pintor assume uma postura tensa e controladora, a modelo rebate, criando um embate de ideias. Terminando a obra, os dois entram em um pequeno consenso, desenvolvendo uma relação de aceitação com o papel de cada um dos dois dentro do processo artístico – simbolizando o ápice da criação e subjetividade do artista. Sem a realidade, o trabalho do artista, da arte, seria frívolo; não há arte sem o contraste desta com o real.

A bela intrigante (La Belle Noiseuse) – França, Suíça, 1991
Direção: Jacques Rivette
Roteiro: Jacques Rivette, Pascal Bonitzer, Christine Laurent
Elenco: Michel Piccoli, Jane Birkin, Emmanuelle Béart, Marianne Denicourt, David Bursztein, Gilles Arbona, Marie Belluc, Marie-Claude Roger, Bernard Dufour, Leïla Remili, Daphne Goodfellow, Susan Robertson
Duração: 238 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.