Crítica | A Besta, de Peter Benchley

Literatura, cinema e vida real conectam-se constantemente. O surgimento das divertidas e apavorantes histórias de animais gigantescos e assustadores, aparentemente ficcionais, mas que constantemente surgem na realidade, servem para nos contar que o ficcional e o real dialogam de maneira fascinante e curiosa. O anúncio de um tubarão, um polvo ou lula de enormes proporções pode nos fazer arrepiar e achar que se trata apenas de “literatura”, mas notícias sobre o invertebrado de 4,2 metros na Nova Zelândia, a aparição inédita de uma lula gigantesca para pescadores do Golfo do México em 2019 e os tentáculos que deram um espetáculo de medo e delírio num porto do Japão em 2015 nos demonstram que a distância entre a nossa realidade e os truques cinematográficos do horror ecológico não estão distantes como às vezes imaginamos.

Subgênero literário e cinematográfico que tem como ponto nevrálgico o embate entre humanos e forças da natureza, as tramas do horror ecológico geralmente trazem para discussão as mazelas causadas pelos homens nos ambientes naturais, em reação diante das situações ameaçadoras. Desta vez, isto é, ao longo do desenvolvimento de A Besta, de Peter Benchley, as mortes são causadas por um misterioso ser, dotado de “tentáculos predatórios”, conforme descrição do narrador: uma gigantesca e abominável lula. Dentro da linha narrativa do horror ecológico, um veleiro naufraga e seu bote é encontrado à deriva. Os viajantes, sumidos, são atacados para que nós, leitores, contemplemos com pavor toda a situação, diferente dos personagens do livro, investigadores que sequer imaginam o que pode ter acontecido.

Lançado em 1991, tendo a versão brasileira a tradução de Auly de Soares Rodrigues, o romance nos apresenta uma misteriosa fera do mar como predador que surge das profundezas para causar horror e pânico ao longo da costa de uma cidade litorânea, aparentemente tranquila e sem incidentes do tipo com animais desse porte. Para investigar, compreender e resolver os problemas, um pequeno grupo é unificado, tendo em vista o projeto para deter o animal. Liderado por um pescador bastante experiente e um pesquisador em vida marinha, a ideia é proteger os seres humanos que se tornam diariamente vítimas incautas. Tem-se como proposta, também, entender os mecanismos que engendram os problemas ambientais da região, causados, obviamente, pela força destrutiva dos seres humanos, conflito essencial do horror ecológico.

Dentre os personagens desta saga, podemos destacar Whip Darling, homem que acredita nos funerais como rituais “realizados para os vivos, não para os mortos”. Ele possui certa amargura e descrença nas instituições, semelhante ao protagonista de Orca, A Baleia Assassina. São homens que exalam a heterossexualidade por todos os poros, viris, valentes e em alguns momentos, impulsivos. Tendo como heróis, James Bond, Ernest Hemingway e Theodore Roosevelt, Darling assume o protagonismo da narrativa e carrega para si a responsabilidade de resolver o problema ambiental que preocupa os moradores e comerciantes da região.

Ele é acompanhado pelo oceanógrafo Dr. Tally e numa missão, além de constantemente surge em cena em diálogo com sua filha. Quando não é isso, está em conflito com os pescadores do local, pessoas sem a mínima consciência ambiental. O prefeito, tal como em quase todas as narrativas do horror ecológico, comporta-se de maneira questionável, sem preocupar-se com os problemas reais da questão, mais inclinado na construção de uma imagem imaculada e turva dos acontecimentos. Há também Manning, um banqueiro preocupado com o sumiço de seus filhos, viajantes que foram mergulhar na região e desapareceram. Ciente das dificuldades financeiras de Whip Darling, ele assume a hipoteca do pescador para induzi-lo na missão em busca do paradeiro de seus jovens filhos, aventura que mudará a vida de todos os envolvidos.

Em termos de estilo, Peter Benchley abusa da descrição em muitos trechos do livro, algo que em alguns momentos, causa embaraço na tensão, diluída diante de uma desnecessária ou talvez deslocada abordagem científica. Antropomorfizada, a lula responsável pela catástrofe na região é delineada com riqueza de detalhes, num panorama de pistas cinematográficas que não foram bem aproveitadas em sua versão audiovisual para a televisão, em 1996. Interessante também são as passagens que emulam a eficaz metalinguagem para resgatar a presença histórica desses seres na história da literatura ocidental, em especial, comentários sobre a Odisseia, de Homero, e Moby Dick, de Herman Melville, poema e romance, respectivamente, ambos comentadores dos aspectos monstruosos da lula gigante, ser que sempre habitou as descrições do nosso imaginário.

Dentre alguns momentos descritivos memoráveis, temos “a lua cheia espiou por cima das árvores a lestes, atingindo com suas flechas douradas as garças, transformando-as em estátuas de ouro”, “barracudas vorazes arremeteram contra os cardumes de cavalas e a água fervia com uma espuma cor de sangue”. Eis dois de vários trechos repletos de descrições. Ademais, em seu desfecho, crias de lulas conseguem sobreviver e segundo o narrador, a evolução dará conta de seu desenvolvimento. Com capa bem conectada com o conteúdo do romance, a arte elaborada pelo designer Ivan Pinto para a edição brasileira, lançada por aqui em 1992, é parte do projeto da editora Rocco, diagramado de maneira simples, mas eficaz para leitura ao longo de suas 292 páginas.

Quando Peter Benchley escreveu e publicou A Besta, gozava do prestígio de Tubarão, romance traduzido por Spielberg para o cinema, filme que se tornou uma das maiores bilheterias da década de 1970. Desta vez, no entanto, o monstro que surgia das profundezas oceânicas para ceifar qualquer forma de vida que lhe servisse de alimento era dotado de tentáculos, isto é, uma gigantesca e assustadora lula, o maior invertebrado do planeta. Publicado após 17 anos do tubarão-branco, A Besta não teve o mesmo sucesso do livro anterior, mas reforçou o escritor como uma referência nostálgica no bojo das histórias sobre embates entre seres humanos e forças da natureza.

Graduado em Havard, Benchley tinha os tubarões como seus animais prediletos desde a infância. Nunca foi atacado por alguma criatura marinha, a não ser alguns incidentes tolos com águas-vivas e ouriços do mar. Isso, no entanto, não o impediu de desenvolver o lado criativo e publicado tramas sobre monstros repletas de precisão e criatividade. Com maior riqueza de detalhes, A Besta personifica o animal marinho de maneira bastante peculiar, envolvendo-nos em seus tentaculares parágrafos cheios de mistérios e descrições apavorantes. Engajado na luta pela salvação da natureza, Peter Benchley adotou a sua pose de ativista depois dos impactos de Tubarão na realidade, haja vista o extermínio da espécie do filme ao longo das décadas que sucederam o seu lançamento e legado.

A Besta (Estados Unidos, 1991)
Autor: Peter Benchley,
Tradução:Auly de Soares Rodrigues
Editora no Brasil: Rocco (1992)
Páginas: 292

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.