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Crítica | A Boa Esposa

por Laisa Lima
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Mulheres são ensinadas a serem “doutrinadas” desde sempre. O manual do “espécime perfeito do sexo feminino” ronda regras vindas de um senso comum imposto, mas nada combinado com quem verdadeiramente sofre a imposição. Ao invés disso, elas apenas existem. Uma destas normas – talvez uma das mais essenciais -, considerada como um passe direto para um bom julgamento prévio aos olhos da sociedade, é casar-se. Jane Austen já havia alertado a importância do ato em Orgulho e Preconceito, assim como a protagonista da obra, Elizabeth Bennet, desconsiderou toda a primordialidade da ação para exaltar a liberdade individual. Entretanto, isso não impediu que suas irmãs seguissem se esforçando única e exclusivamente para arranjarem um casório. Em um tempo um pouco mais adiante, A Boa Esposa (Martin Provost, 2020) revisita os preceitos que a família Bennet propagava às filhas, mas o elevando ao nível de uma instituição destinada a esta finalidade. 

Na França dos anos 60, ser mulher significava a exclusão de seus direitos como indivíduo. Na frente deles, estava sua posição como esposa e os adjacentes postos que com ela vem, incluindo, mais tarde, o cargo de mãe. Para a reprodução satisfatória desse modelo, foi criada, então, uma escola para meninas que desejam – ou melhor, que terceiros desejam – ter sucesso na empreitada do que era ser do gênero feminino na Alsácia de De Gaulle; focando no ramo de dona de casa. No comando do local, está Paulette Van Der Beck (Juliette Binoche) juntamente com o inútil Robert (François Berléand), que logo falece. Após a morte do homem, dívidas são descobertas e a falência torna-se uma realidade que posteriormente leva a uma nova outra: a de mulheres na gerência. Ao lado da irmã de Robert e de uma freira, também funcionária do estabelecimento, Paulette tenta liderar jovens mentes já influenciadas pelos arredores das cercas do casarão, exteriores que pregavam uma ode à libertação.

Em 1968, revoltas antigovernamentais se proliferavam pelo território francês e as eclosões de cunho social moveram recém-adquiridas perspectivas. Contudo, alheio a isso, estava a fundação de Paulette. Apegada aos antiquados preceitos de sexismo, a moça conduz à risca o aprendizado de tudo que provavelmente lhe foi instruído no passado, sendo ressaltado sempre a visão do outro (ou do homem) sob as atitudes e os trejeitos femininos. Para obter a aprovação masculina, tudo precisa ser cronometrado, controlado e coreografado, desde a maneira em que se põe chá na xícara até a forma em que se senta. Logo, tudo é padronizado para remeter a feminilidade – os papéis de parede florais não permitem o esquecimento de que a essência que necessita ser passada ali convém com o feminino -, começando pela personificação de uma figura que é sinônimo da total preparação para um matrimônio: Paulette. Com o maior conhecimento de sua personalidade, é notório que a antiquada decoração da moradia, repleta de móveis em madeira maciça e candelabros, é proveniente de sua ultrapassada mentalidade, visto a única modernidade do local se ater a um rádio.

Embora os meios de comunicação de massa, tal qual o rádio, representarem para as jovens um canal de transmissão entre as noções do mundo fora da instituição, tudo lá parece programado. E o intuito é esse. Bem encenado, o longa-metragem cria um mundo particular e isento das reformas acontecidas na França de 68, fazendo com que a superficialidade se choque com a consciência que aqueles movimentos auxiliaram a trazer para os dias de hoje. A perfeição com que é apresentada a escola, metade um convento de A Noviça Rebelde (1965) e metade um reformatório versão feminino – e menos pesado – de Se… (1968); ecoa na imagem, que não comete “deslizes” como câmeras tremidas ou movimentos bruscos, dando preferência a zoom in e passeios, de modo retilíneo, pelos cômodos. A estética supérflua adentra igualmente o campo da visibilidade dos personagens, que pouco se aproximam da filmagem, tendo primeiros planos apenas em momentos de uma fragilidade mais expressiva; na interpretação do espectador. Cada passo, assim como é calculado pela protagonista do filme, pode ser cuidadosamente observado aqui.

Além disso, o entrosamento da câmera para com seus enfoques não se deve somente a sutil direção de Provost; os intérpretes presentes na obra dão um forte sustento para suas, na maioria, caricaturas. Intencionalmente, os estereótipos que pertencem a A Boa Esposa corroboram com a atmosfera de devaneio, cujo é normal o público conjecturar sobre a possibilidade de toda aquela junção de preconceitos emitidos, não existir em seres humanos reais e atuais. Portanto, a distinção de três padrões comuns, a exemplo das mandantes da escola; uma freira fumante, uma mulher um tanto desequilibrada e fora das convenções, e, finalmente, uma de um forte temperamento escondido por baixo de uma carapuça submissa; é interessante de assistir devido a suas performances. A protagonista de Binoche, inclusive, é responsável pela trajetória mais verossímil do longa-metragem, na qual a descoberta de novos valores, ainda que previsível, fez-se relevante por meio da atuação propositalmente exagerada da artista.

Todavia, o foco distribuído no filme é desigual para a nova geração, na qual algumas tramas, como a de duas meninas descobrindo suas sexualidades, ficam em planos não bem desenvolvidos. E, mesmo que se trate de uma proposta leve e tendenciosa a uma comédia, a elaboração das situações, por mais que careçam de um alto grau de irrealidade para assentarem com o cerne da obra, peca em não exigir confecções mais satisfatórias. Ou menos fáceis. A evolução dos pensamentos das personagens mais velhas, como Paulette, é, até certo ponto, feito com rigorosidade, mas a predisposição a simplificar a linguagem e os eventos para transmitir seus ideais com clareza pelo longa-metragem, soa mais forte na tomada de certas decisões estilísticas e narrativas. O discurso que o mesmo promove, aliás, não se molda por intermédio de nenhum recurso inovador, até um pouco tradicionalista no que diz respeito a um grafismo imagético mais evidente ou uma fórmula mais direta de difusão de uma pauta que demanda um arrojo.

A Boa Esposa trata o absurdo como um absurdo. Quando o feminismo é ridicularizado por jovens, porém músicas acerca do poder feminino e transmissões de rádio que inferem discussões sobre o clitóris são objetos de questionamento, é fato que algo não condiz com um factual de hoje. Levando isto em conta, o longa-metragem não foge de sua condição ilógica, mesmo tendo como ponto principal a seriedade da inflexibilidade no papel do sexo feminino em um senso comum. Com cautela, a obra francesa se aventura em um terreno ousado, mas não voa longe a ponto de ser encarado como totalmente destemido. O filme pode produzir um sentimento de avaliação de um distante e estranho dia a dia na audiência, mas o instrumento que se dá para o mantimento da distância desses tempos é raso. Não obstante, a grande indagação é se mesmo com esse conservadorismo visual e de abordagem, após esse filme há alguma dúvida de que o lugar da mulher é onde ela quiser.

A Boa Esposa (La Bonne épouse – França, 2020)
Direção: Martin Provost
Roteiro: Martin Provost, Séverine Werba
Elenco: Juliette Binoche, Yolande Moreau, Noémie Lvovsky, Edouard Baer, François Berléand, Marie Zabukovec, Anamaria Vartolomei, Lily Taieb, Pauline Briand, Armelle, Marine Berlanger, Marie Cornillon, Lauren Deguitre, Stéphane Bissot, Cécile Dominjon
Duração: 109 min.

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