Crítica | A Bolha Assassina (1958)

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A ficção científica hollywoodiana da década de 1950 gerou inúmeros exemplares carregados de uma atmosfera de desconfiança e paranoia, dado o momento histórico em que os Estados Unidos se encontrava: em plena Guerra Fria com a União Soviética. Assim, um dos aspectos mais pertinentes dessas obras diz respeito ao mal que vem do espaço ou que surge sem explicação, de tal forma que uma ameaça raramente seria oriunda dos próprios territórios estadunidenses. Fazendo uso dessas alegorias para tratar da expansão comunista, filmes como A Guerra dos Mundos, Vampiros de Almas e este A Bolha Assassina são apenas alguns dos diversos trabalhos de baixo orçamento e durações enxutas a serem produzidos na época.

Dito isso, este longa protagonizado por Steve McQueen (em um de seus primeiros papéis para o cinema) nos apresenta a um misterioso meteoro que cai na Terra, do qual eclode a criatura que dá título ao filme. Junto de sua parceira Jane (Aneta Corsaut), Steve Andrews (McQueen) acompanha o incidente de perto e vai em busca de descobrir do que se trata, para então encontrar uma espécie de massa grudenta que se apossa gradativamente de suas vítimas. Porém, com exceção do policial Dave (Earl Rowe), ninguém parece acreditar em Steve, pois ele foi o único que realmente avistou a tal bolha que cresce à medida que elimina os seres humanos.

É curioso falar do que se pode esperar de algo intitulado A Bolha Assassina. Para os amantes das produções de ficção com toques de horror, é uma oportunidade de descobrir um trabalho cult produzido nos anos 1950; já para o público não tão familiarizado com o estilo, o filme dirigido por Irvin S. Yeaworth Jr. pode soar absurdo em sua proposta e forçado em sua execução. Assim, a obra acaba se construindo justamente em torno dessas duas visões distintas.

Por um lado, é difícil para o espectador moderno comprar a ideia de dezenas de pessoas amedrontadas por uma espécie de massa gelatinosa que se arrasta vagarosamente pela pacata cidade em que a história se passa; por outro, a curiosidade em saber o que exatamente levou os realizadores de A Bolha Assassina a criarem uma narrativa com tal jamais deixa de existir. Nesse último aspecto, o visual da criatura exerce um papel relevante, já que a escolha de criá-la fisicamente (trata-se de uma mistura de silicone com corante vermelho) sem auxílio de trucagens visuais – com exceção de um outro momento – garante que sua presença seja sentida, independente de apresentar ou não um tom enigmático ou de suspense.

Quanto aos movimentos da mesma, em algumas cenas o diretor Yeaworth Jr. consegue criá-los de forma crível e convincente, usando auxílio de sombras e da escuridão para tanto, enquanto que em outros fica visível que o cineasta simplesmente utilizou a técnica de avançar e retroceder uma cena repetidamente para dar a impressão de agitações da criatura. Mas isso não deixa de ser um mérito, tendo em vista as limitações técnicas da época e principalmente o baixo orçamento, cujo, diga-se de passagem, se reflete na curta duração do filme.

Os meros 86 minutos de projeção fazem com que A Bolha Assassina transcorra fluidamente, focando principalmente na investigação do meteoro e na relação entre Steve e Jane. Pouco pode-se falar deste último e dos demais personagens, já que todos são rasos e carregados de diálogos triviais, contando ainda com um elenco que entrega nada além de trabalhos irregulares e amadores. E mesmo que Steve McQueen já apresentasse um ar heroico e uma presença cativante que se destacasse do restante, nem mesmo ele se salva de alguns momentos piegas criados pelo roteiro.

Assim, esta excêntrica história de 1958 pode gerar as mais diversas correspondências em seu público. Ver personagens aterrorizados gritando por ajuda perante a criatura gelatinosa – como a sequência envolvendo uma enfermeira na casa do médico – pode beirar o jocoso, enquanto que as cenas clichês de filmes de adolescentes que se passam na década em questão ajudam na criação de uma atmosfera facilmente apreciável – como a corrida de carros e o romance idealizado e um tanto tolo. A Bolha Assassina tem um evidente ar de filme B, mesmo que sem a violência gráfica de outras obras do tipo, em uma escolha feita principalmente para evitar a censura alta e buscar atrair um público maior. A película foi um grande sucesso, e sua relevância pode ser vista na forma de homenagem em trabalhos mais contemporâneos – preste atenção às cenas nos cinemas drive-in em Grease: Nos Tempos da Brilhantina.

Por fim, quanto ao tom de medo e desconfiança, ele não é tão intenso quanto em outros longas, mas ainda assim nos traz ao momento histórico em que a narrativa se passa, com a insegurança estadunidense de uma possível dominação comunista surgindo como alegoria no monstro assassino. Afinal, o vermelho da criatura com certeza é relativa à cor da bandeira da União Soviética, enquanto o azul do carro de Steve e do vestido de Jane remete a cor que destoa na bandeira norte-americana. Trata-se, portanto, de um filme que funciona no mínimo como registro de um contexto da História, de um estilo de obras populares em sua época e, finalmente, de um dos papéis de Steve McQueen que o lançariam ao estrelato – dois anos depois, ele viria a atuar em Sete Homens e Um Destino, um de seus mais famosos trabalhos.

A Bolha Assassina (The Blob, EUA, 1958)
Direção: Irvin S. Yeaworth Jr.
Roteiro: Theodore Simonson e Kay Linaker (baseado na ideia original de Irvine H. Millgate)
Elenco: Steve McQueen, Aneta Corsaut, Earl Rowe, Olin Howland, Stephen Chase, John Benson, George Karas, Robert Fields, James Bonnet, Tony Franke
Duração: 86 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.