Crítica | A Breve Noite das Bonecas de Vidro

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Dirigido por Aldo Lado, A Breve Noite das Bonecas de Vidro (1971) é certamente um dos gialli mais diferentões que eu já tive a oportunidade de ver. E o melhor de tudo isso é que se trata de um grande filme. No elenco, nomes de diversas nacionalidades, com destaque para o francês Jean Sorel (protagonista do filme, de um modo bem peculiar), da sueca Ingrid Thulin (uma das musas de Bergman) e do suíço Mario Adorf. Na produção, uma união de seis países investidores, o que trouxe ao longa um contexto geográfico bastante diferente do que estamos acostumados nos gialli, com cenas externas filmadas em Liubliana (Eslovênia), Praga (atual República Tcheca) e Zagreb (atual Croácia). Os interiores, por sua vez, foram filmados em Roma.

Existe uma variedade de elementos visuais aqui que podemos guiar por diferentes leituras, sendo o primeiro desses elementos a forma como Lado expõe a “população comunista” na tela. Não há uma indicação narrativa que acene para uma o cinismo em relação à abordagem do diretor, mas à guisa de manter um certo grupo de personagens medonhos em cena, a equipe de maquiagem, de figurinos e as próprias exigências para os atores fazem com que a população local pareça doente, assombrosa, marcada por hábitos bizarros, algo que na estrutura do filme acaba de fato se justificando. E à parte uma intenção ou não de alfinetar clandestinamente esse outro lado da Europa, a abordagem realmente funciona como impacto narrativo para a fita.

No roteiro, escrito pelo próprio Lado juntamente com Ruediger von Spies, acompanhamos o jornalista Gregory Moore (Jean Sorel), que prestes a partir do país, se vê no meio de uma intriga inesperada: sua namorada, Mira Svoboda (Barbara Bach) desaparece misteriosamente, e como é de praxe nos gialli, ele começa a investigar esse desaparecimento, encontrando-se com muitas coisas desagradáveis no meio do caminho. O clima de intriga aqui é tal, que parece querer expandir conscientemente as lições estruturais do gênero aprendidas desde A Garota Que Sabia Demais (1963) mesclando-as a misteriosas situações próximas à libido, flertando com Traumnovelle (1969), o original De Olhos Bem Fechados (1999). Muito cuidadosamente, o roteiro apresenta distintas camadas do problema, que se torna instigante a cada bloco graças à excelente montagem de Mario Morra, usando o recurso do flashback de uma maneira bastante criativa do começo ao fim do filme.

Diante da música macabra assinada por Ennio Morricone, o espectador se dá conta de que não conseguirá sair da armadilha criada pelo roteiro, assim como o malfadado jornalista em estado de catalepsia — ou algo mais sério que isso, infelizmente nunca explicado a contento no texto. Embora a aura de mistério em torno dessa questão fosse essencial, a meu ver, para o ambiente ameaçador criado pelo diretor, um melhor contexto para a tal “morte consciente” do jornalista tornaria as coisas bem mais orgânicas, ou seja, não uma explicação detalhada, mas um campo maior de possibilidades para que o espectador pudesse dialogar, pensar, aferir. Aqui, a palavra “catalepsia” é ouvida no momento do ritual (esta é outra parte um tantinho confusa do filme) e certas possibilidades médicas são levantadas, mas de um modo que parece abrir as portas para um Deus Ex Machina, de tão aleatório que é.

Para nossa felicidade, no entanto, o roteiro não se entrega à facilidade da explicação milagrosa no final, trazendo algo cruel, intenso e certamente digno de tudo aquilo que o filme construiu até aquele momento. A Breve Noite das Bonecas de Vidro fala sobre mistérios ocultos atrás das portas de lugares respeitáveis ou insuspeitos (como o Klub 99, que temos no filme) e que tem entre seus misteriosos membros cidadãos respeitáveis e insuspeitos do governo, da justiça, das artes, do comércio… Uma história onde muita coisa é sugerida e onde o horror, assim como na maioria dos casos na vida real, prevalece oculto de todos graças às próprias forças do sistema. Um giallo definitivamente diferente.

A Breve Noite das Bonecas de Vidro (La corta notte delle bambole di vetro) — Itália, Alemanha Ocidental, Iugoslávia, Eslovênia, Checoslováquia e Croácia, 1971
Direção: Aldo Lado
Roteiro: Aldo Lado, Ruediger von Spies
Elenco: Ingrid Thulin, Jean Sorel, Mario Adorf, Barbara Bach, Fabijan Sovagovic, José Quaglio, Relja Basic, Piero Vida, Daniele Dublino, Sven Lasta, Luciano Catenacci, Michaela Martin, Vjenceslav Kapural, Jürgen Drews, Semka Sokolovic-Bertok
Duração: 97 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.