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Crítica | A Cabana

por Guilherme Coral
555 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 2

Lançado em 2007, o livro A Cabana rapidamente se tornou um sucesso mundial, tomando conta das mesas de cabeceiras de inúmeras pessoas, muitas das quais passavam por crises de fé. No Brasil, estamos falando de uma época no qual tais obras se destacaram no mercado, com um crescimento do espiritismo em famílias que sempre foram católicas, não é por mero acaso que Nosso Lar estreou no mesmo período. É a fase do New Age, com uma visão universalista da religião e William P. Young, autor do romance original, explora esses pontos, embora se mantenha, em teoria, no catolicismo. Agora, dez anos mais tarde, o livro, enfim, ganha sua adaptação cinematográfica, com o mesmo nome.

A trama acompanha Mack Philips (Sam Worthington), que, quando criança, fora vítima de violência por parte de seu pai, que batia nele e em sua mãe. Agora, anos mais tarde, Mack é casado e tem duas filhas e um filho. Sua vida, contudo, é virada de cabeça para baixo quando, durante um acampamento, sua filha mais nova desaparece, tendo apenas suas roupas ensanguentadas encontradas posteriormente. Philips, então, entra em uma crise de fé até receber uma estranha carta, o convidando para a cabana onde as roupas de sua filha foram achadas. Lá ele se encontra com Deus, ou Papa (Octavia Spencer), como é chamado, Jesus (Avraham Aviv Alush) e o Espírito Santo, ou Sarayu (Sumire Matsubara) e deve aprender sobre o perdão antes que a culpa o consuma.

Cercado de polêmicas à época do lançamento do livro, A Cabana certamente conta com bastante coragem ao representar a Santíssima Trindade como uma mulher negra, um jovem de origem árabe e uma garota oriental, o que, por si só, já passa uma grande mensagem de aceitação, pedindo para que, não só o protagonista, como o espectador, se livre de seus preconceitos. Octavia Spencer, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas traz um imediato peso ao filme e, de fato, ela consegue fazer para a narrativa o que o roteiro falha miseravelmente: manter o espectador minimamente cativado. Infelizmente, seus esforços não sustentam uma bagunça que perdura por cento e trinta e dois minutos de projeção.

Para começar, tudo o que vem antes da chegada de Mack à cabana soa como um amontoado de desculpas para que o personagem entre em uma crise de fé. Não digo isso pelos eventos em si, mas pela forma como são retratados e trabalhados ao longo da obra. Embora a filha mais nova tenha sido dada como morta, aparentemente só o protagonista sofre com isso, já que o texto não se preocupa em demonstrar o impacto nos outros membros da família. Não existe uma preocupação sequer com os filhos adolescentes, que estiveram no acampamento. Para piorar, as dores da infância do personagem principal são ignoradas até certo momento da projeção e funcionam como um elemento extra, que não dialoga diretamente com toda a problemática do filme.

Com a espiritualidade abalada, seria apenas natural que o protagonista passasse a questionar sobre as coisas terríveis que Deus permite que aconteçam e, de fato, Philips chega a fazer tais perguntas para Papa, mas as respostas que recebem parecem mais uma forma de desviar da pergunta do que, de fato, respondê-la. Fica claro, portanto, que as mensagens oferecidas por essa figura divina parecem mais tiradas de um livro de auto-ajuda do que de algo com um maior teor filosófico ou teológico, caracterizando toda a obra como aquela que tipicamente busca deixar seu público feliz, não almejando colocá-lo em uma jornada de auto-descobrimento ou afirmação. Dito isso, se ao invés da santíssima trindade tivéssemos um padre ou algo assim, o efeito seria o mesmo, já que nenhuma verdade fora da obviedade é oferecida.

Ao lado de Spencer, Sam Worthington, não faz mais que desempenhar seu papel, mas o roteiro oferece a ele apenas o óbvio, ao colocar o personagem em sofrimento do início ao fim, tirando qualquer profundidade de sua personalidade, que se resume à sua infância conturbada e ao incidente que tirara a vida de sua filha. No fim, toda essa sua “aventura” soa como um gigantesco sermão sendo oferecido ao protagonista e, por consequência, ao espectador. A trama, portanto, soa extremamente dilatada, rapidamente prejudicando nossa imersão, enquanto rezamos para que o filme chegue ao seu fim.

A Cabana, apesar da forma corajosa como trabalha alguns de seus personagens, não consegue ser mais que um filme de auto-ajuda, desviando dos principais questionamentos de alguém com a espiritualidade abalada, focando unicamente no óbvio ao tentar passar mensagens que todos nós já escutamos. Por ser excessivamente longo, a obra perde nossa atenção logo na sua primeira metade e o que vem a partir daí não passa de uma jornada enfadonha e repetitiva, na qual a esperança de uma nova abordagem à religiosidade jamais se concretiza.

A Cabana (The Shack) — EUA, 2017
Direção:
 Stuart Hazeldine
Roteiro: John Fusco, Andrew Lanham, Destin Daniel Cretton (baseado no livro de William P. Young)
Elenco: Sam Worthington, Octavia Spencer, Tim McGraw, Radha Mitchell, Megan Charpentier, Gage Munroe, Amélie Eve
Duração: 132 min.

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13 comentários

Fernando Morais 17 de fevereiro de 2020 - 10:22

Já tinha lido o livro é o filme ainda não tinha tido a oportunidade, ontem ⁹passou no telecine e quis me dar o prazer de finalmente ver, olha quem não gostou do livro nem tente ver, e a versão resumida do livro, eu adoro a história me fez refletir várias coisas tanto o filme como o livro foi bem controverso na época teve a parcela de pessoas bem divididas de quem odiou e quem amaram eu fico na parcela de quem amaram,me fez questionar muitas coisas a respeito de religião, porque se pensarmos bem se você não seguir uma religião vc é taxado de ateu ou que é pecador, porque simplesmente não posso amar de Deus de todo meu coração é msm assim achar a religião enganadora ???

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Derockes Barcelona 30 de setembro de 2019 - 02:33

Bom, após anos ao sair o livro ainda não li, vou iniciar essa semana, só após lê que posso dizer algo… Mais andei buscando informações… Pelos comentários e pela matéria.!

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Nidia Maria Medeiros Magalhães 29 de maio de 2017 - 00:44

Esperava coisa melhor…diante de uma tragédia daquelas todo mundo fica apavorado e é normal todos os questionamen tos,crenças,sentimentos contraditórios eetc.Somos levados a crer em um Deus que nos livra de todos os males …mas como já disse um pastor que teve na morte do filho único a certeza de que Deus nao torna seus filhos em Super -homens,esta náo é a vida definitiva . ela passa.Estamos fora do paraíso portanto,vulneraveis . Porque acontecem tais sofrimentos ?Porque tantas lindas meninas e meninos passam por tais coisas?Porque tantas crianças morreram em campos de concentraçao apenas por serem judeus ou separados de seus pais por serem negros e escravos ??Porque tantas doenças, fome,pobreza,injustiças,?Em contrapartida porque tantas coisas lindas na natureza,tantos atos maravilhosos de uns para com os outros,de curas asssombrosas,de milagres efetivos e de amor ,?Porque tem um tempo pra tudo e tudo tem seu tempo…Deus criou o homem e deixou seu manual: a Bíblia ;A resposta tá lá…Esse filme nao responde e nem precisa Deus vir até aqui e se materializar na forma humana pra pisar por este vale de lagrimas (veja quando encontra com Moisés) Ele nao mandou Jesus pra abrir o caminho ?A dor existe ,a fisica e a espiritual. E essa dor desse pai é forte,muito forte,,beira a imcompreensão mas ele se encontrou com Deus neste momento…do seu jeito .Nao é uma verdade bíublica muitas coisas como por exemplo:seu pai vai ser julgado sim(depois da morte nao tem como pedir perdao pro filho …)permitir que ele veja a filha….tudo num plano da c abeça humana …Prefiro as novelas da Record

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Gabryel Marinho 26 de maio de 2017 - 23:54

Minha opinião é totalmente o contrário, achei o filme super tocante, emocionante mesmo. Foi uma ótima surpresa.

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Silvio Pereira 23 de abril de 2017 - 17:38

Eu sai impactado, Jesus é maravilhoso e para os criticos de plantao na verdade nao conhecem o amor de Cristo.

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Heloísa Zambianco 16 de abril de 2017 - 00:24

Filmão! Pra quem quiser ler o livro, fica a dica 😉 http://compre.vc/v2/e6c8b26a

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Bruno [FM] 12 de abril de 2017 - 16:08

Sai da sala de cinema até mais leve. MARAVILHOSO!

Li o livro e logo após já fui assistir ao filme. Sinceramente não sei muito bem como descrever tudo, mas de uma coisa eu sei – foi uma experiência maravilhosa! – e ver o filme em seguida foi apenas uma “confirmação visual resumida” de tudo que tinha sentido ao ler o livro.

Só não consegui identificar onde está a “história religiosa” como muitos estão falando. Pois tanto o livro como o filme faz justamente o contrário, bate de frente com tradições meramente humanas e a religiosidade vazia, nos mostrando o poder transformador do amor e do relacionamento (tanto com Deus como com o próximo). E isso, não tem nada haver com religião.

– Você é cristão? – Pode assistir sem medo. Tenho certeza que muita “religiosidade” vai sair de você (assim como saiu de mim), e mais amor irá entrar.

– Você não é cristão (mas crê em Deus)? – Vá de coração aberto! Em nenhum momento o livro ou o filme fica defendendo “placa de igreja”, doutrinas, ideologias, sistema religioso, político, econômico ou social. É apenas uma história de cura, perdão e humanidade (e sim, de como Deus é bom e quer ter um relacionamento conosco).

– Você é ateu? – Bom, deixa pra lá. (Acredito que ainda haverá uma “Cabana” real e especial para você, capaz de mudar totalmente sua vida!)

Agora consigo entender porque é praticamente impossível falar desse filme sem levar 80% pro lado pessoal. Porque ele realmente mexe com a gente (sendo pro lado positivo ou pro negativo, mas de alguma forma mexe! Vai com o dedo bem lá na ferida aberta). Antes da cura, vem a dor e o incômodo quando as feridas estão sendo limpas.

Mas voltando para os 20%. As atuações são cativantes, uma fotografia linda e uma direção de arte mais caprichosa que a Ana Maria Braga com visita especial no programa. O roteiro poderia ter sido adaptado explorando o relacionamento entre Papai, Jesus, Sarayu e Mack com mais profundidade (com exceção da cena e diálogo na cozinha com a massa e farinha de trigo. Ficou perfeita!). E a trilha sonora poderia facilmente ganhar patrocínio de uma indústria de lenços. (A canção “Keep Your Eyes On Me” com Tim Mcgraw & Faith Hill tocando nos créditos me segurou na poltrona por mais alguns minutos).

Se você viu o filme mas ainda não leu o livro, vale muito a pena! Tem muuuita coisa no livro que não está no filme e que merece o tempo gasto.

Acho que histórias como essa não servem para defini-las em uma tese, comentário ou crítica. Acredito que o principal motivo delas terem sido escritas foi unicamente para senti-las. O fóco não é o racional, mas o emocional. (E pra quem quer ir ainda mais fundo, é buscar entender e experimentar o porquê de fato o nome de Sarayu significa “Vento”. Bom, mas essa narrativa fica para uma outra conversa).

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Márcio Xavier 11 de abril de 2017 - 14:27

Tentei, me esforcei, tentei de novo, mas não consegui chegar nem a metade do livro. Fiquei me questionando se eu era um ET porque todo mundo só falava dele. Aí tentei de novo e vi que literalmente ele é muito fraco mesmo. Acho que vale pela propaganda religiosa, mas não como obra literária. Assim como alguns filmes espíritas (eu sou espírita) esse filme parece ser bom para o mesmo propósito, mas não como obra cinematográfica. Vou passar longe depois dessa crítica.

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Rerison Justo 10 de abril de 2017 - 23:34

Eu adoro o livro, e ainda não assisti o filme, pretendo assistir essa semana. Então, não posso comentar a respeito da adaptação. Mas, tenho uma dúvida e uma correção. A dúvida: no filme realmente chamam de “Papa”? Por que no livro é Papai (nada demais, só curiosidade mesmo). Correção: no livro é dito que o Mack tem 5 filhos: três rapazes e duas meninas. Enfim, era isso.

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Fernando Morais 17 de fevereiro de 2020 - 10:10

Sim o filme ficou a bem claro q ele é a família chama Deus de papai

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Fernando Queiroz 7 de abril de 2017 - 23:56

Não entendo não colocarem o capítulo 18 na íntegra. O desfecho do capítulo dá credibilidade e lógica a história!
Lamentável…

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Lucia Maria Miranda 7 de abril de 2017 - 20:57

…. Quando o livro saiu eu fiquei mega ansiosa por lê-lo e saí correndo para comprar. A primeira parte, o desaparecimento da garotinha, é pungente, nós ficamos praticamente arrancando os cabelos para saber o que de fato ocorreu. Depois, com o andar da carroça, ou da trama, é de uma chatice sem precedentes, é de uma pobreza literária horrenda, Deus que me perdoe, sou católica, batizada, crismada, mas esse parecer e essa premissa que o autor aventou é de lascar e é de doer a alma. Nem sei como consegui terminar de ler tal lástima, foi apenas para enfatizar que li sim e não gostei não. E depois disso, o livro, se tornar best seller, sei lá como, ainda filmam o troço que não vou ver, não tenho interesse nenhum e até o trailer já me deu canseira.
Vixe, se é para motivar o ser humano em fé, creio, poderiam ter exposto coisa melhor e com maior ênfase.

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Elias Cena 12 de abril de 2017 - 17:22

Lúcia, gostaria de te fazer um convite para ler a bíblia. Mas somente se vc entender que é com amor que te faço este convite. Caso contrário, nem continue lendo.

Mas se você decidir aceitar, tome algumas considerações como verdadeiras, e então Deus lhe proporcionará uma experiência com Ele jamais imaginada:

1 – Considere que ler partes de qualquer livro não é ler o mesmo. Sendo assim, a leitura correta para receber o entendimento correto, deve ser em sequencia. Do primeiro livro, todos os capítulos, todos os versículos, em sequencia, e até o último livro. Hoje, a aliança que Deus oferece gratuitamente aos homens é a nova e eterna, presente no novo testamento. Então leia o novo testamente primeiro, ou somente este.

2 – Jesus se revela (conforme palavras dele próprio nas escrituras) a todo aquele que se interessa por ele, que o busca, que ouve e que guarda (obedece) os seus mandamentos. Buscando com humildade e amor, ele virá até você. Sendo assim, sugiro que você leia como eu leio: busco um lugar calmo e tranquilo para a dedicação à leitura (de preferência o quarto), oro sempre antes de ler, pedindo a Jesus perdão pelos meus pecados e pedindo que Ele envie o Espírito Santo para me dar discernimento espiritual das coisas de Deus.

Que Deus abençoe você e que a paz de Cristo esteja sempre contigo.

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