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Crítica | A Cabeça de um Homem, de Georges Simenon

por Luiz Santiago
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Gênios do crime são criaturas fascinantes na ficção. A maneira como utilizam de sua inteligência fora do comum para cometerem assassinatos, roubos e tantos outros crimes e, ainda assim, não serem pegos pela polícia — ou serem pegos porque querem, para também cumprir a um propósito criminoso — é algo que bons escritores e bons roteiristas já aproveitaram dentro das mais variadas tramas, das mais fortemente psicológicas às mais abertamente políticas e sociais. Neste nono livro das aventuras do Comissário Maigret, Georges Simenon lança o seu olhar para um personagem como este. E o faz de forma espetacular.

Brincando com o título da obra em mais de um sentido o autor nos apresenta uma cena inicial que mostra o Comissário Maigret colocando “a sua própria cabeça” a prêmio, quando, em um acordo judiciário, ajuda um condenado à morte a escapar da prisão a fim de provar um argumento perigoso: que o jovem entregador Joseph Heurtin, de 27 anos, era um homem inocente.

Há muito de Crime e Castigo nessa aventura, sendo um dos personagens um reflexo revisado de Raskolnikov, a partir do qual toda a saga se desenvolve, e aqui o leitor não está — como é de se esperar dos livros de Simenon — diante de uma investigação comum. O caso já nos é apresentado a partir de um incomum acordo, trazendo à discussão a diferença que um bem intencionado agente da lei pode fazer na vida de uma pessoa inocente, utilizando das brechas fornecidas pelo sistema (ou encontrando possíveis brechas) para corrigir erros de julgamento cometidos por esse intricado mecanismo que é um misto de leis, política e pressão de uma camada policial e judiciária sobre a outra.

A jornada de grande tensão que Maigret, seus inspetores, o tcheco Radek e o condenado Heurtin atravessam me lembraram um pouco toda a busca realizada em Pietr, o Letão, só que desta vez tudo é muito mais pessoal. Após um revés inicial, Maigret fica um bom tempo perdido, sem saber que caminho investigativo tomar e então mais uma vez somos colocados em contato com a humanidade do personagem, vendo suas falhas, sua incapacidade de enxergar algumas coisas à primeira vista, apesar de ser um profissional muito inteligente e com um instinto e presença admiráveis. Este é, todavia, o ponto para o qual o texto chama a nossa atenção: tanto o lado da lei quanto o lado do crime tem seus vícios, seus obstáculos e seus momentos de ganhar e perder.

Maigret encontra nessa ocasião um inimigo muitíssimo astuto, e o leitor irá passar por pistas falsas e por narrativas que estão apenas parcialmente relacionadas ao caso principal, o que nos faz perguntar um bom número de coisas, mas mais do que isso, nos faz observar de perto o pensamento e o comportamento de diferentes mentes afiadas trabalhando para diferentes fins. A Cabeça de um Homem é uma história sobre a busca pela justiça de um lado e sobre o exercício da maldade de outro. Um livro sobre um gênio do crime que até à última página consegue entrar na mente do homem da lei e assustá-lo. Uma trama instigante e, pela forma como termina, verdadeiramente assustadora.

A Cabeça de um Homem (La tête d’un Homme / L’homme de la Tour Eiffel) — Bélgica, 1931
Série Comissário Maigret – Livro #9
Autor: Georges Simenon
Editora original: A. Fayard
No Brasil: Companhia das Letras (outubro de 2014)
Tradução: Eduardo Brandão
152 páginas

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