Crítica | A Cadela (1931)

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Uma das portas de entrada para o Realismo Poético Francês, A Cadela (1931) — obra que seria refilmada como um noir, por Fritz Lang, em Almas Perversas (1945) — é o tipo de filme que deixa o espectador enraivecido por uma considerável parte da projeção. O “triângulo amoroso” formado por Maurice (Michel Simon), Lulu (Janie Marèse) e Dédé (Georges Flamant) tem um ciclo de toxidade e exploração física, financeira e emocional chegando a um ponto da narrativa que fica difícil para o espectador segurar algumas palavras de ordem mental para este ou aquele personagem, basicamente cobrando deles a fuga da situação de infame dependência em que se encontram.

Escrito e dirigido por Jean Renoir e baseado na obra de Georges de La Fouchardière, A Cadela faz um jogo de exposição social dos personagens ao mesmo tempo que investiga e também explora seus desejos, suas ações, seus pecados. Do início até bem avançado momento da narrativa, Maurice é o “cão sarnento” da relação, um homem velho que só desperta a atenção de uma prostituta porque tem dinheiro, passando a ser explorado financeiramente e permitindo-se mais gastos do que seu orçamento o deixava fazer… tudo isso em troca de algum tipo de carinho que, na verdade, não vem. Pelo menos não genuinamente.

Neste Universo de Renoir — e que seria a marcada do Realismo Poético em narrativa –, a miséria humana é explorada nas mais diversas intensidades, partindo de necessidades distintas de cada personagem. Os dois homens e a mulher que protagonizam a obra sonham com coisas diferentes e acabam sendo forçados por uma força emocional ou por um impulso incontrolável, a buscar a realização de seus sonhos nos lugares menos prováveis, nas pessoas que não lhes trarão felicidade ou realização alguma. As aparências, para os três personagens, são mantidas e cada um deles terá o seu momento de sofrimento, rápida felicidade e ação infame.

Tratando-se de um filme de 1931, ainda é possível encontrar aqui certos elementos do cinema silencioso, como o uso de intertítulos para marcar as muitas passagens do tempo, o que infelizmente quebra partes do andamento narrativo. No todo, o diretor construiu a obra como a representação de um espetáculo teatral, uma ficcionalização da vida que, segundo o mais sério dos bonecos que introduzem a ação, não é nem um cenário moral e trágico (bem… na verdade é), nem uma comédia cheia de valores para transmitir.

A Cadela é um filme com um número absurdo de semelhanças com relacionamentos abusivos que observamos em nosso cotidiano. Aqui os personagens são vistos de maneira desconfiada pela câmera, que sempre procura se afastar dos indivíduos, ampliar a profundidade de campo, contextualizar a todos e fazê-los se perder em meio à multidão, tornando-os “mais um em meio aos que sofrem“. A direção também tem seus momentos de ousadia, como na cena em que Lulu e Dédé dançam uma valsa e lá está a câmera dançando com eles, para então discretamente se afastar e contemplar a cena à distância, preenchendo-a com uma amargura que não deveria haver em uma cena de dança (e digo isso no sentido positivo da construção da cena e de seu significado). Em A Cadela, todos os personagens sofrem e fazem sofrer. E a maioria acaba pagando preços muito altos por sustentar essa postura a longo prazo. Assim como na vida, um jogo íntimo de amores, ódio e injustiças pessoais e sociais.

A Cadela (La Chienne) — França, 1931
Direção: Jean Renoir
Roteiro: Jean Renoir (baseado na obra de Georges de La Fouchardière)
Elenco: Michel Simon, Janie Marèse, Georges Flamant, Roger Gaillard, Romain Bouquet, Pierre Desty, Mlle Doryans, Lucien Mancini, Jane Pierson, Christian Argentin, Max Dalban, Jean Gehret, Magdeleine Bérubet
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.