Crítica | A Caixa (1994)

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A década de noventa trouxe um frescor à carreira de Manoel de Oliveira, diretor português que já estava no panteão do cinema tanto de seu país quanto do mundo. De 1990 até 2000, o cineasta passou a dirigir um filme por ano, aumentando sua produção de forma absurda, considerando seus oito longas gravados desde 1942. Com a idade já avançada (e Visita ou Memórias e Confissões, seu filme póstumo, já gravado desde os anos 80), Manoel foi capaz de pousar seu olhar crepuscular sob o cinema, e produzir algumas de suas mais belas obras, incluindo A Caixa (1994), que por vezes é considerado um filme menor.

Manoel fez algo pouco recorrente em sua filmografia aqui: deixou de lado a vida aristocrática para dar vida a um bairro simples de Lisboa. O Dia começa, uma multidão de pessoas bem vestidas corre pelas ruelas, sintoma da modernidade, da pressa, contraponto dialético da tradição centenária que estamos prestes a presenciar. O que fica após essa sequência de correria, são os moradores, aposentados, clientes do bar, personagens que muito me lembram os filmes dos brasileiros David Neves e Hugo Carvana, especialistas nesse cinema de boteco e malandragem. A pressa dá lugar para o ócio, o cotidiano e os costumes portugueses menos explorados pelo diretor, uma parte da história tão tradicional quanto os contos patriarcais de Castelo Branco.

Mas não se engane, pois não se trata de um filme menos ácido e questionador que seus outros trabalhos. É um Portugal que ingressa no futuro mas não desloca-se das raízes ruins que os filmes de época de Manoel retratavam. Se é um filme sobre hábitos e dia a dia, é também sobre a inveja, mesquinharia e malandragem. Luís Miguel Cintra interpreta um dos moradores do bairro, um cego que fica com uma caixa de esmolas em frente a sua casa, onde trabalha sua filha e o genro abusa da boa vontade da esposa. Os residentes sentem-se atraídos pela caixa, provocam o cego, que é abençoado com o dom de não ver os problemas do mundo.

A caixa do cego é roubada, talvez por um invejoso ou talvez por alguém mais pobre ainda. A encenação dessas ruelas nada lembradas na história do cinema português reflete essas pessoas cuja dualidade é tão visível quanto inerente: o policial que é bêbado, os clientes do bar que assediam a prostituta que ajuda o cego. São personagens muito mais profundos que uma suposta moral que poderia ser introjetada no filme. Todos são imaginados inocentes e de bem, mas todos tem sua parcela de culpa na constituição desse país, um lugar de trapaceiros, avarentos e invejosos.

A Caixa (Portugal, França, 1994)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Luís Miguel Cintra, Beatriz Batarda, Diogo Dória, Isabel Ruth, Sofia Alves, Rogério Samora, Miguel Guilherme, Ruy de Carvalho
Duração: 93 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.