Crítica | A Caminho de Casa

“Vá para casa.”

Você sabe o que irá acontecer ao término de A Caminho de Casa, não se engane. Mas a jornada é o que importa, provavelmente dirá em resposta a essa afirmação, e realmente estará com toda a razão. Obras possuem propostas distintas, personagens distintos, cenas distintas. Não importa muito a conclusão, e sim como você chega a essa conclusão. Contudo, qual é o objetivo de A Caminho de Casa? Não é uma obra que pensa o relacionamento entre o homem e o ser humano. Não é nem uma obra que desperte emoções pungentes, por mais piegas que seja. Charles Martin Smith está simplesmente conduzindo da maneira mais burocrática possível uma jornada de reencontro extremamente cansativa, redundante em sua duração – e que nem é tão longa, porém.

Bella (Bryce Dallas Howard) é uma cachorrinha abandonada que acaba sendo resgatada por seres humanos e amada por eles. Em Denver, no entanto, pitbulls são proibidos por lei, obrigando os novos donos de Bella a transportarem-a para uma casa no interior, ao menos até se mudarem para alguma outra cidade. Uma premissa até que interessante, em vista dessa lei ser imensamente polêmica, com razões para muitos ataques e também defesas. Entretanto, o roteiro, adaptado da obra homônima do mesmo escritor de Quatro Vidas de Um Cachorro, não se preocupa com esse princípio argumentativo, pensando mais em uma ordem maniqueísta no intuito de originar os próximos problemas na trama do que no caos por si só. O que sobrará, senão nada além do raso?

E, para piorar, A Caminho de Casa não tem noção de supostos fundamentos narrativos, inerentes a um produto que não quer nem ser mais do que descompromissado, com uma mensagem qualquer surgindo no último segundo da sua duração. O enredo é simples: Bella terá que cruzar centenas de quilômetros, visando retornar ao seu humano.  Charles, porém, margeia uma genérica sequência de problemas surgindo, soluções aparecendo, e mais problemas surgindo, que torna toda a experiência episódica e pouco recompensadora em termos de desenvolvimento. Quando a questão da proibição torna-se um problema – através de um antagonista artificial -, não demora nem cinco minutos, após uma solução surgir em vista do conflito, para Bella ser presa subitamente.

O propósito do longa-metragem é muito mais explorar um relacionamento que desponta no meio da obra, envolvendo um dos efeitos visuais mais atrozes da atualidade, do que verdadeiramente introduzir um aprendizado à protagonista. Charles Martin Smith, conhecido por papéis em clássicos como Loucuras de Verão e Os Intocáveis, simplesmente faz o abecedário cinematográfico na direção, enquanto o texto é responsável por premeditadamente destruir o resultado. O quão irritante é uma protagonista tendo que explicitar tudo o que acontece ao seu redor através de uma narração gratuita? Como é uma auto-comunicação, nem existe fins narrativos, ou seja, apenas um meio a tornar a trajetória mais óbvia ainda, questionando a mera capacidade do público em vivê-la.

A Caminho de Casa parece mais um filme dos anos 2000 do que realmente dessa década. Junta muitas das coisas mais execráveis se tratando de manipulação ordinária nessa espécie de obra: uma graciosidade que é inexorável ao comportamento dos cachorros, passagens divertidinhas embaladas por uma trilha sonora popular, montagem de inúmeras cenas de animais sendo animais e outras qualidades sensuais ao público, mas reveladoras de uma pobreza conteudista. Tão cafona que nem tem mesmo vergonha de originar cenas ridículas, em que coincidências impossíveis acontecem – como Bella passando ao lado do carro de seu dono, em direções opostas, após já ter fugido e cruzado quilômetros. Já o caminho para a sua casa, depois da sessão, será muito melhor.

A Caminho de Casa (A Dog Way’s Home) – EUA, 2019
Direção: Charles Martin Smith
Roteiro: Cathryn Michon, W. Bruce Cameron
Elenco: Bryce Dallas Howard, Ashley Judd, Alexandra Shipp, Jonah Hauer-King, Edward James Olmos, Wes Studi, Chris Bauer, Patrick Gallagher, Farrah Aviva, Tammy Gillis
Duração: 96 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.