Crítica | A Canção da Estrada

O cineasta indiano Satyajit Ray faz parte de uma seleta lista de diretores que começaram suas carreiras de maneira absolutamente exemplar. A Canção da Estrada (1955) não foi apenas o primeiro filme que Ray dirigiu e roteirizou (baseado na obra homônima de Bibhutibhushan Bandyopadhyay, lançada em 1929), mas o primeiro longa da famosa e influente Trilogia de Apu, completada pelos filmes O Invencível (1956) e O Mundo de Apu (1959). Aqui estão as sementes do cinema de Satyajit Ray: seu olhar para o ser humano em crise, para seu legado no mundo, para os dilemas e caminhos morais de cada um, pra a conexão do homem com o divino, com a natureza, com os familiares e consigo mesmo.

As filmagens do longa começaram em 27 de outubro de 1952, mas ainda muito cedo o diretor começou a ter problemas com a produção, que chegou a ser interrompida por um tempo. Existem inúmeras histórias sobre a luta do diretor para conseguir dinheiro a fim de completar a produção, chegando a empenhar sua coleção de discos e alguns outros pertences de valor. O projeto, no entanto, acabou recebendo socorro financeiro do Governo de Bengala Ocidental, que assinou definitivamente a produção da fita. Completado e lançado em 1955, A Canção da Estrada mostra a vida de uma família pobre na Vila de Nischindipur, região de Bengala, no início do século XX. Harihar (Kanu Bannerjee), o pai, é um pujari (uma espécie de padre), que por conta de sua função está constantemente viajando. Todavia, ele sonha em ser reconhecido como poeta e dramaturgo, a fim de ganhar mais dinheiro para a família, mas a forma como tenta unir as duas coisas acaba tornando tudo ainda mais difícil para a esposa, Sarbojaya (Karuna Bannerjee), a filha Durga (Uma Das Gupta) e o filho Apu (Subir Banerjee).

A abordagem de Ray para a realidade dessa família reflete a sua visão lírico-realista que está o tempo inteiro nos lembrando dos limites do corpo, da mente e do coração dessas pessoas. A pobreza, ao mesmo tempo que não tira desses indivíduos a capacidade de se alegrar com o mínimo em seu cotidiano, não é ignorada ou romantizada pelo artista. Sua visão é crítica na forma como aborda essas coisas, mas não é apaixonada demais pela própria posição, de modo que o que está na tela às vezes parece frio ou impessoal, como se o diretor estivesse apenas observando a difícil vida de uma família numa região rural e dali só tirasse a beleza dos quadros e o sentimento de resignação diante do que está mostrando — mais ou menos a acusação que fazem a Godfrey Reggio por causa de Powaqqatsi – A Vida em Transformação (1988). A questão é que a beleza exposta por Ray na tela não é nula ou vaidosa, daquelas que nada dizem além de si mesma e está muito mais preocupada em ser bonita do que servir a um enredo.

O belo trabalho do fotógrafo Subrata Mitra reforça a temática do roteiro: conta-se a história de um grupo de pessoas, por um período de tempo, e nesse intervalo o público tem contato com as transformações que eles tiveram em suas vidas e como mudou o espaço à sua volta. E é por este caminho que chegamos a um dos pontos centrais desse filme: o olhar. Durante toda a projeção, o diretor assume a observação de sequências inteiras a partir do olhar de Apu, de sua irmã ou de ambos. Os horrores causados pela pobreza são de certa forma ressignificados porque a maior parte das cenas, as reações e as consequências delas estão ligadas a esses irmãos. Mas não é só isso. A câmera está o tempo inteiro exibindo troca de olhares entre personagens, e a própria trajetória do olho, de um objeto para outro, recebe atenção do diretor, inclusive sendo a forma primorosa como ele resolve nos apresentar Apu. O olhar aqui não assume uma perspectiva longa, não domina aquilo que vemos, não se apossa da imagem ou da narrativa. Trata-se exatamente disso: de um olhar. A noção de rápida passagem de tempo que essa palavra nos traz é confirmada na tela pelo curioso olhar de Apu, que consome com intensidade um ambiente específico e rapidamente já está focando em outro.

Dessa perspectiva, vemos a vida correr dentro de uma normalidade que fala diretamente conosco, mas é envolta em uma aura de elementos em constante transformação. O diretor filma cenas noturas e diurnas, névoa, luz direta, meia-luz, sol, chuva, nuvens, vento. O clímax dessa ligação entre manifestações atmosféricas e seres humanos acontece numa noite de tempestade, em uma cena onde tudo no filme está em aguda precisão e nos faz sentir medo de diferentes formas, além de uma angústia imensa por imaginar quanto tempo aquilo vai durar. Por um momento nos esquecemos que estamos vendo um filme e quedamos ali, ao lado da mãe que consola a filha amedrontada e com febre alta. Até a veia religiosa é fartamente irrigada pelo diretor nesse momento, nos fazendo, pelo temor, atribuir parte dos dissabores à Deusa cujo altar familiar vemos balançar ao vento.

A trilha sonora do filme, composta pelo grande Ravi Shankar (que por este filme e por sua ligação com George Harrison se tornaria bastante conhecido no Ocidente), solidifica o sentimento de dor e abandono, mas consegue imprimir beleza, alegria e esperança quando as cenas cobram esse tipo de reação. Há uma certa cadência Ocidental na forma como ele concebe certas peças (por exemplo, uma linda e divertida versão para cítara de O Voo do Besouro, de Korsakov, numa cena em que Durga está perseguindo Apu em volta das ruínas da casa), mas a identidade bengali e os muitos sentimentos cobrados por cada fase são alcançados de maneira aplaudível pelo compositor.

A Canção da Estrada é um retrato cru da vida e dos sentimentos de uma família, num espaço de anos. Mostra a capacidade de alguém ser bom e mau, indiferente e atencioso. É um filme sobre a beleza das coisas — mesmo quando não há de fato tanta beleza para se ver — pelos olhos de uma criança, e sobre a infância de um menino que vai pouco a pouco enfrentando todos os desafios que a vida pode oferecer a alguém, da fome à morte, passando pela alegria de comer algo diferente ou a oportunidade única de ver uma peça e imitar os atores depois. Um hino aos sentimentos e aos laços familiares, seio onde o sofrimento pode ocorrer, mas onde através da união, é sempre possível recomeçar.

A Canção da Estrada (Pather Panchali) — Índia, 1955
Direção: Satyajit Ray
Roteiro: Satyajit Ray (baseado no romance de Bibhutibhushan Bandyopadhyay)
Elenco: Kanu Bannerjee, Karuna Bannerjee, Chunibala Devi, Uma Das Gupta, Subir Banerjee, Runki Banerjee, Reba Devi, Aparna Devi, Tulsi Chakraborty, Haren Banerjee
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.