Crítica | A Carta Roubada, de Edgar Allan Poe

__ Não é um completo idiota — disse G. — mas é um poeta, o que é quase a mesma coisa.

Terceiro de três contos que narram as aventuras do Detetive Dupin, A Carta Roubada (1844) fechou o ciclo do personagem em um patamar bem diferente daquele que o encontramos em Os Assassinatos na Rua Morgue. Ali, o estranho homem era apenas um entusiasta da investigação, entrando no caso por pura diversão dedutiva/analítica e sem cobrar pelo serviço prestado, algo bem diferente do que temos nessa sua trama de encerramento, com ele recebendo um cheque de alto valor do Comissário G. para concluir o caso e, algo interessante, conscientemente tendo um ganho de vingança, como descobrimos no final do conto.

Diferente dos outros dois casos em que Dupin e seu parceiro de aventuras trabalharam, a saber, Rua MorgueO Mistério de Marie Rogêt — ambos citados como produto de lembranças da dupla logo no início de A Carta Roubada –, não estamos diante de um assassinato. O título do conto diz exatamente qual é o problema da vez, e Poe desenvolve o enredo a partir de uma visão lógica e desafiadora, fazendo com que o detetive pense exatamente como o ladrão da carta e tente descobrir onde é que ela estaria escondida.

A construção da história passa de algo bastante simples, com a narração do Comissário sobre como a missiva caiu nas mãos do infame Ministro D. e os perigos que o conteúdo de suas linhas representam para a política do país, até a exposição mais do que milimétrica realizada pelo Comissário e seus policiais, investigando com precisão cada canto possível da casa do Ministro e tendo a plena certeza de que a carta não estava lá. É neste ponto que entra em cena o pensamento arguto de Dupin e, mais uma vez, temos o desenvolvimento de uma ideia que foi inovadora para a literatura policial como um todo, ou seja, a criação de um mistério e de um processo aceitável e lógico de buscas em torno de algo escondido à plena vista.

Já me deparei com alguns leitores achando “incoerente” o fato de o comissário não pensar nessa possibilidade, mas aqui temos duas coisas a considerar. A primeira delas é que esse tipo de narrativa estava em seu pleno nascimento, em 1844, portanto, é um princípio de investigação inovador para a época em que foi publicado. E depois — esta, a melhor das duas considerações — é que faz total sentido essa postura se a gente considerar o caminho de análise dissecado pelo próprio Comissário: ele fez a leitura psicológica e comportamental do Ministro a partir de um único ponto de vista (tomando-o por idiota, pelo fato de o político ser um poeta), enquanto Dupin sabia algo a mais sobre o homem culpado, ou seja, a sua inclinação matemática.

Unindo o que poderia vir da junção dessas duas linhas de pensamento é que o Detetive chegou à solução do caso, adicionando no meio do caminho dois exemplos (desnecessários, para falar a verdade) a fim de lhe dar suporte: o método de vitórias de um garotinho que apostava bolinhas de gude no par ou ímpar e um exemplo matemático chatíssimo, do qual só entendi o sentido geral e o que o personagem quis dizer com ele, mas não o exemplo em si. A partir daí, partimos para a explicação geral do pensamento de Dupin, concebida de maneira muito gostosa pelo autor, sendo este final e a apresentação do problema da carta roubada os melhores momentos do conto. Um final interessante para a jornada desse Detetive de Edgar Allan Poe, embora não seja melhor que a sua aventura de estreia.

A Carta Roubada (The Purloined Letter) — EUA
Publicação original: The Gift for 1845, dezembro de 1844
No Brasil: Edgar Allan Poe: Medo Clássico – Vol. 1, DarkSide Books, 2017
Autor: Edgar Allan Poe
Tradução: Marcia Heloisa
20 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.