Crítica | A Casa (2020)

Não dá nem pra dizer que o original Netflix Hogar se encaixa na linha dos recentes thrillers psicológicos espanhóis que ganharam tal notoriedade com o alavanque do serviço de streaming, já que não existe a sofisticação de paralelas reviravoltas como sua principal característica, tampouco é também um estudo de status social como Parasita, com o qual vem sendo comparado, pois não apresenta quaisquer reflexões plausíveis ou complementos relevantes no assunto, ficando devidamente no limbo entre essas estéticas. A Casa. Plano Crítico.

Não dá nem pra dizer que o original Netflix Hogar se encaixa na linha dos recentes thrillers psicológicos espanhóis que ganharam tal notoriedade com o alavanque do serviço de streaming, já que não existe a sofisticação de paralelas reviravoltas como sua principal característica, tampouco é também um estudo de status social como Parasita, com o qual vem sendo comparado, pois não apresenta quaisquer reflexões plausíveis ou complementos relevantes no assunto, ficando devidamente no limbo entre essas estéticas. A história gira em torno de Javier, um executivo de marketing bem sucedido afundado em uma crise financeira, forçado a sair de seu apartamento contra sua vontade por não poder pagá-lo. Quando uma nova família adquire o aposento, do qual Javier ainda tem as chaves, o ex-empresário vê uma oportunidade de recuperar sua vida antiga se infiltrando na “casa” e manipulando a rotina daquelas pessoas.

Diante dessa premissa, é inegável que o filme até quer ser parte suspense, gerando a tensão a partir de quais movimentos o protagonista irá fazer para alcançar o seu objetivo, mas o roteiro anula essas possibilidades quando na tentativa de inserção de twists reduz obstáculos a amplificar a imprevisibilidade em um “eu já sabia que isso poderia acontecer”, logo, não tem possibilidade do plano dar errado, consequentemente não há motivos para se preocupar em terceiros atrapalhando a sua execução, que consta basicamente na narrativa inteira. Isso não seria um problema se o roteiro admitisse essa aura fantasiosa na liberdade do exercício de gênero, mas ao se colocar num pano realista discursivo, todas essas saídas de sempre ter um plano B, C ou D para cada situação ditada transparecem a arrogância de se sentir à frente do público mesmo que por trapaça. 

É fácil não apresentar a linha de raciocínio de Javier e ir revelando conforme a conveniência pede, porque no momento em que o acaso age podendo prejudicá-lo, é só inventar que isso estava nos planos da sua cabeça desde o início, assim, o filme vai acumulando incongruências diversas, enquanto finge estar sendo inteligente. Não que um suspense precise ser participativo sempre para poder funcionar, mas é preciso uma cota mínima de pistas ou fatos previamente estabelecidos como sustentáculo de verossimilhança quando os desvios aparecerem, algo que nesse caso some em pouquíssimo tempo de duração, só ficando cada vez mais perdido conforme novos absurdos vão sendo implementados e desculpados em sequência.

Ignorando essa estruturação desleal, sobraria como thriller a possibilidade de ter um lado a torcer como motivação para acompanhar os desdobramentos, mas isso é impossível e até não faz parte do intuito do filme, que coloca Javier como um homem desprezível para simbolizar a verdadeira índole da classe conservadora em uma projeção que ela perca tudo. Contudo, nem analisando o viés dessa maneira simbólica funciona, pois o background pré-surto do personagem é extremamente limitado, fazendo-o parecer puramente maniqueísta, com motivações rasas e uma índole ainda mais distante do realismo pregado na estética. Se nem o protagonista ganha um histórico, quem dirá suas vítimas, em cena somente quando ele as está “stalkeando“. 

Não só não há tempo de criar qualquer vínculo para que nos importemos com as consequências das ações de Javier com eles, como também existe o mesmo parâmetro crítico para elas. Quando colocadas em situações desfavoráveis se transformam no mesmo “monstro” que é o protagonista, assim, não sobra ninguém para torcer e o tédio engole a projeção em completude. Sem contar que os comentários de parasitismo social propostos não saem em nenhum momento do básico da premissa. Lembra em uma primeira camada o recente (e também espanhol) O Poço, só que invertido, os de baixo quando fossem pra cima não dariam o braço a torcer em prol do revanchismo, e os de cima, quando em baixo, comeriam os outros para conseguir o topo de novo e… para por aí. Até pela baixíssima inventividade do thriller, não existem outras provocações sociais fora dessa obviedade.

Diria que o filme nem coloca essas temáticas de propósito, visto a irresponsabilidade de alguns movimentos quando cruzados com as reviravoltas, especialmente as finais, totalmente negligentes com o comportamento de personagens femininas, que já não tinham qualquer destaque e ainda precisam ser ridicularizadas a marionetes objetificadas para o twist acontecer com maior “sadismo”. Fora uma cartada tirada avulsamente para inflar o ego do personagem e não o fazer se sentir tão mal, mesmo depois de todas as atrocidades que cometeu, afinal, no processo alguém “pior” pagou o preço. Pelo menos nesse caso, faz sentido com o objetivo do filme de fazer o telespectador acabar com raiva do sociopata, no bom sentido da superfície crítica que ele leva, mas é a raiva, no mau sentido, de estar vendo um suspense trapaceiro e mal articulado o sentimento de predominância no resto do longa.

A Casa (Hogar, Espanha – 2020)
Direção: Àlex Pastor e David Pastor
Roteiro: Àlex Pastor, David Pastor
Elenco: Javier Gutiérrez, Mario Casas, Bruna Cusí, David Ramírez, David Selvas,  David Verdaguer, Ernesto Collado, Ruth Díaz, Vicky Luengo.
Duração: 103min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.