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Crítica | A Casa da Noite Eterna

O mito da casa mal assombrada segundo Richard Matheson.

por Rafael Lima
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Muitas comparações são feitas entre o clássico Desafio do Além (1963) de Robert Wise, e A Casa Da Noite Eterna (1973) dirigido por John Hough, que é objeto desta crítica. De fato, a premissa básica dos dois filmes é bem parecida, já que em ambos acompanhamos um grupo de cientistas e médiuns hospedando-se em uma casa com um histórico violento de mortes para investigar as atividades paranormais que lá ocorrem. Entretanto, apesar dos pontos de partida semelhante e do tributo que o longa de Hough presta ao de Wise, os dois filmes possuem atmosferas e encaminhamentos dramáticos bem diferentes. Na trama, o milionário Rudolph Deutsch (Roland Culver) compra a infame Casa Belasco, ou casa infernal, como é conhecida, devido ao seu histórico de violência e avistamento de assombrações. Querendo testar a veracidade das lendas em torno da luxuosa casa, Deutsch contrata uma equipe para investigar o local e determinar a existência ou não do pós-vida. Assim, o parapsicólogo Dr. Barret (Clive Revill), sua esposa Anne (Gayle Hunnicutt) e os médiuns Florence Tanner (Pamela Franklin) e Benjamin Fischer (Roddy McDowall), unem-se para passar uma semana hospedados na Casa Belasco para desvendar os segredos da macabra residência.

Escrito por Richard Matheson, a partir de seu próprio romance, A Casa Da Noite Eterna é um filme curioso pela forma como se apropria do subgênero da história gótica de casa assombrada para construir uma abordagem temática e narrativa muito característica do tipo de terror que surgia nos anos 70. As assombrações são ligadas à temática do satanismo e do ocultismo, muito em voga no período de produção do filme; tal como o uso de uma violência gráfica mais acentuada. Esse grafismo, entretanto, não é proposto pelo texto de forma gratuita, já que as passagens mais violentas surgem como reflexo dos conflitos psicológicos dos personagens. No centro de A Casa Da Noite Eterna está a disputa entre ciência e religião; fé e lógica; e dos perigos de se desconsiderar qualquer uma das pontas desse conflito. Essas duas abordagens são representadas pelo Dr. Barret, que se recusa a levar em conta qualquer possibilidade não prevista pela ciência, e pela jovem Florence, cuja fé em uma força maior a faz desconsiderar elementos concretos, tornando-se assim facilmente manipulável.

O roteiro constrói a tensão entre os presentes na Casa Belasco de forma eficiente, usando não só o citado conflito entre fé e razão, mas os próprios traumas e desejos reprimidos dos pesquisadores. O texto apresenta de maneira sutil, mas inequívoca o quão sexualmente frustrada Anne Barret é em seu casamento, o que a torna vulnerável à influência fantasmagórica da casa. Já Benjamin Fischer (único sobrevivente de uma tentativa anterior de investigar o local) é o único que sabe realmente do que a Casa Belasco é capaz, o que não apenas o faz isolar a sua mente da influência do lugar, mas também se isolar dos seus parceiros, o que contribui para o clima de desconfiança que se estabelece. A direção de Hough é competente pela articulação de signos das histórias de casa mal assombrada com os aspectos psicológicos e gráficos propostos pelo roteiro. Os elementos clássicos desse tipo de trama estão lá, mas o diretor valoriza menos o choque de tais eventos e mais o impacto psicológico que têm sobre os personagens. Também torna a Casa Belasco um personagem dentro da história, bastando perceber como as passagens externas são filmadas em contra-plongée, de modo a tornar a residência imponente e ameaçadora. A montagem também faz um ótimo trabalho, especialmente pela forma como mostra a passagem dos dias, um recurso que parece ter influenciado o trabalho de Stanley Kubrick em O Iluminado.

O quarteto protagonista está muito bem entrosado em cena, e todos desempenham bem os seus papéis, mas é necessário dar algum destaque para o trabalho de Pamela Franklin e Roddy McDowall como Florence e Fischer. A Florence de Franklin não está lá apenas pelo dinheiro ou por reconhecimento, ela quer realmente ajudar os espíritos que habitam a Casa Belasco a se libertar, e Franklin vende muito bem esse idealismo de sua personagem movido por uma fé quase cega sem cair na caricatura. Esse idealismo acaba fazendo de Florence a personagem que mais sofre pelas ações da casa, fazendo-a passar por uma degradação física e mental muito bem abordada pela atriz. McDowall por sua vez, cria um perfil acertadamente introspectivo para o seu Benjamin Fischer, que combina perfeitamente com a postura assumida pelo personagem, que ao recusar-se enfrentar o seu trauma, torna-se omisso na repetição deste trauma sobre outras pessoas. De fato, Fischer acaba se estabelecendo como a grande figura dramática do projeto, o que é definido em um belo momento onde o médium enfim se abre sobre as suas emoções, em um trabalho discreto, mas forte de McDowall.

A Casa Da Noite Eterna é um ótimo representante do subgênero de filmes de casa mal assombrada, onde John Hough e Richard Matheson não apenas homenagearam clássicos góticos como A Queda Da Casa Dos Usher e Desafio Do Além, como também atualizaram de forma eficiente os arquétipos envolvidos nesse tipo de história.  Trata-se de uma obra claustrofóbica, que contando com uma direção elegante e um elenco comprometido, entrega uma história onde as assombrações sobrenaturais surgem como consequência de complexos muito humanos e terrenos, podendo ser exorcizados apenas quando encarados.

A Casa Da Noite Eterna (The Legend Of Hell House)- Reino Unido, 1973
Direção: John Hough
Roteiro: Richard Matheson (baseado em seu próprio romance)
Elenco: Roddy McDowall, Pamela Franklin, Clive Revill, Gayle Hunnicutt, Roland Culver, Peter Bowles, Michael Gough
Duração: 95 min.

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