Crítica | A Casa das Janelas Sorridentes

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A história de uma casa cheia de mistérios, de um pintor que passa dias nessa casa e de um processo cada vez mais intenso de loucura que vemos aqui em A Casa das Janelas Sorridentes (1976) me lembrou o enredo de Um Lugar Tranquilo no Campo (1968), com a diferença de que este longa de Pupi Avati escorrega consideravelmente na formulação das motivações dos vilões e, infelizmente, acaba impedindo que a esperada força de um drama de loucura tomasse a história de corpo e alma.

O filme, porém, tem muitos momentos assustadores. O espectador consegue sentir a atmosfera macabra desde o início, com takes que mostram um homem sendo esfaqueado. A fotografia com intenso brilho e filtro que nos mostra uma cena esfumaçada — e que pode ser no passado ou o olhar perturbado e doente de alguém –, adiciona mais uma camada de angústia, assim como a trilha sonora à la canção de ninar, em contraste com o horror que vemos na tela. Essa preparação tem uma força tão grande, que passa a ser responsável por parte da frustração do público no decorrer da obra, pois o desenvolvimento do roteiro aqui não entrega nem metade daquilo que o filme nos alertou de maneira rápida nos créditos.

Stefano (Lino Capolicchio, numa atuação medíocre) é contratado para restaurar o mural de uma igreja numa isolada vila: o mural do Martírio de São Sebastião, que foi pintado anos atrás por Buono Legnani, um lendário e louco artista da região. Ao ver o mural pela primeira vez, o espectador faz a ligação com a cena de abertura do filme e imagina que tipo de inspiração está envolvida na obra desse “presumidamente falecido” homem, de quem o público e o restaurador chegam a conhecer outras obras, com uma certa dose de espanto pela temática da violência e morte. No centro desse suspense mesclado de teoria da conspiração, temos elementos bastante conhecidos do cinema de terror e não só dos gialli. Uma localidade isolada, uma pessoa “normal” que é atraída para este lugar, o comportamento mais do que estranho de praticamente todo mundo, algumas frustradas “tentativas de aviso” ao visitante e detalhes macabros acontecendo ao seu redor, como portas e janelas sendo fechadas repentinamente, sombras que não revelam pessoa alguma e barulhos indecifráveis pela casa.

Todos os ingredientes são colocados no lugar certo, mas no momento em que as respostas começam a ser dadas, o roteiro mais confunde do que responde. Falta coerência em uma porção de atitudes dos personagens e principalmente uma ligação sólida e aceitável entre o mistério da tal casa do título com as pessoas da cidade encobrindo aquilo que estava acontecendo há anos. Isso acaba enfraquecendo a história naquilo que ela deveria ser mais forte, o que tornaria o já incrível final ainda melhor.

Como é comum nos filme italianos de terror, a produção não tem um grande orçamento e isso é perceptível pela forma como o diretor usa os recursos que tem para criar diferentes sensações no público, ao passo que o filme cresce, as dúvidas aumentam e o temor pela vida do pintor visitante também. A fotografia é fortemente saturada, com nuances de amarelo e verdade que dão um tom doentio, claustrofóbico e quente ao lugar, com exceção às cenas noturnas, o que realmente me agradou aqui. Isso cria duas esferas de medo utilizando uma cor mais natural no escuro e outra de aparência mais nojenta no claro, impedindo aquela distinção que normalmente fazemos no horror entre a “noite perigosa” e o “dia seguro”. A Casa das Janelas Sorridentes é uma verdadeira teia de aranha para seus personagens. Não há muitas linhas afiadas no texto e o diretor peca consideravelmente no desenvolvimento, mas o suspense, os assassinatos e o mistério por trás de tudo nos mantém aflitos e atentos até o terrível final.

A Casa das Janelas Sorridentes (La casa dalle finestre che ridono) — Itália, 1976
Direção: Pupi Avati
Roteiro: Pupi Avati, Antonio Avati, Gianni Cavina, Maurizio Costanzo
Elenco: Lino Capolicchio, Francesca Marciano, Gianni Cavina, Giulio Pizzirani, Bob Tonelli, Vanna Busoni, Pietro Brambilla, Ferdinando Orlandi, Andrea Matteuzzi, Ines Ciaschetti, Pina Borione, Flavia Giorgi, Arrigo Lucchini, Carla Astolfi, Luciano Bianchi
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.