Crítica | A Casa dos 1000 Corpos

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O Massacre da Bagunça Rockeira.

Rob Zombie é um músico, vocalista da banda White Zombie, que se transformou em cineasta sob as mesmas reges específicas do seu público, ou seja, um gosto adquirido e naturalmente voltado para uma limitação de estilo esquizofrênico que nasceu na época certa para ele conseguir uma voz na câmera. Quando A Casa dos Mil Corpos foi lançado, o horror vinha passando por essa fase mais misantrópica em que tudo era muito fúnebre, macabro, amarronzado e exageradamente grotesco e sangrento num desvio fora do trash e mais “perturbador”, por assim dizer. Ironicamente, a principal fonte do cantor para conceber tal estilo, tanto na música quanto no cinema, também ganhou sua versão no mesmo ano de sua estreia, só corroborando com a ideia de que ele realmente estava surgindo num tempo ideal para conseguir espalhar seu nome. 

Assim, quem pegou o primeiro filme do cineasta nesse tempo conseguiu ser bastante incomodado pela via suja aleatoriamente sádica que seus personagens proporcionaram, e pelo sentimento natural de ame ou odeie. Criou-se um rótulo cult até icônico para eles, tanto que viria a gerar sequências posteriormente. E de fato, essa ainda é a maior virtude de Zombie, percebe-se o respeito que ele tem à identidade de gênero, e isso é muito preservado. Embora tratado com uma estilização amadora cansativa ao atirar para todos os lados, algumas referências vão ganhando coerência conforme a disparidade das situações de tensão vão surgindo, fazendo com que isoladamente algumas sequências sejam muito emblemáticas pelo grau de imprevisibilidade de seus fins, mesmo que a maioria delas seja assim inconscientemente. O objetivo do terror, que é propriamente extrair algum derivado da angústia, é ressentido diante de uma salada mista tão ampla e caótica desenhada entre os elementos de horror.

Contudo, a construção em si não deixa de ser um Massacre da Serra Elétrica totalmente desordenado, cheio de cenas que não acrescentam à narrativa, e nenhuma noção de desenvolvimento de personagens ou atmosfera gradual de antecipação do suspense. A montagem em si é a grande problemática central, os entrecortes avulsos desviam a sensação de continuidade não intencionalmente porque não há grandes revelações de storytelling a serem feitas, é um filme confuso por ser mal organizado. A primeira cena, por exemplo, elimina qualquer resquício de tentativa de simpatização das vítimas, pois já deixa claro os males bizarros do ponto de parada. Assim, quando os turistas passam por lá, não há um mistério ou uma gradação do perigo, já sabemos que ele está ali escancarado, e a ingenuidade de muitos em acreditar na boa vontade da família de psicopatas ultrapassa a lei da suspensão de descrença com um atraso de pelo menos 20 minutos, até o momento em que eles deveriam ter percebido que havia algo seriamente errado aonde estavam se metendo.

Até tentam usar o humor de autoparódia para contornar alguns clichês, ou no mínimo se divertir com eles, mas isso leva o foco de tela para os vilões. Eles que são sim carismáticos para prender a atenção, mas se já há uma prévia garantia de nossa empatia por eles (no sentido de achá-los caricaturas divertidas), precisava de algum tempo para ao menos apresentar as pessoas que seriam torturadas para algo ser sentido por elas. A sensação é indiferença total, o que prejudica principalmente a elaboração climática mais grandiosa, que busca assim como o clássico mencionado englobar uma perseguição épica entre os assassinos e uma última mulher guerreira sobrevivente, mas que surge sem qualquer impacto. Fora que é preciso ter segurança ao querer mesclar humor numa história exageradamente sóbria, a tentativa para o riso de nervoso é sempre mais difícil, e se o roteiro de Zombie já não mantém a parte séria com regularidade, quem dirá a cômica, que se resume a uma disseminação de focks e tantas outras palavras sujas.

Sustenta-se mais pela tríade principal da família, Capitão Spaulding, interpretado por Sid Haig, é com sobras o melhor, ele que tem o papel de introduzir aquele universo de forma expositiva, e como qualquer outro palhaço vilanesco do cinema, brinca entre o sarcasmo e a psicopatia constantemente. Seria um personagem genérico se não tivesse a inserção mais brutamontes da performance de Haig, uma pena que ele fique pouco tempo em cena. Baby Firefly e Ottis fechariam a tríade mais interessante, a primeira é interpretada pela esposa de Zombie, Sheri Moon, e é a que tem mais tempo de tela (coincidentemente), e apesar de supercaricata, a atriz dá um charme marcante à loucura da personagem. Já Bill Moseley é o mais sádico, ele se diverte com a matança e a trata com uma normalidade perturbadora, é um personagem que viria a melhorar ao longo da trilogia. Os demais são bem esquecíveis, tanto que só aparecem nesse filme (com exceção da mãe) e se resumem a meras esculturas bizarras, um é fantasiado de urso, o outro é só um cara gigante deformado, e o último é uma cópia da vovó do clássico de Tobe Hooper, corroborando com a comparação que coloquei.

Zombie em intenção certamente buscou o mesmo efeito daquele clássico, mostrar o mal que habita nas profundezas da sociedade americana, numa visão distorcida da tradição familiar que no fundo saboreia a violência ao estrangeiro para sustentar seus princípios imorais. A diferença é que este soa muito mais como um projeto experimental do que um retrato devidamente elaborado para conseguir seu objetivo, o que o torna uma viagem alucinógena bastante apelativa, buscando as maneiras mais absurdas possíveis para conseguir o choque do público. Ao atirar para todo os lados, no cenário ideal, Zombie conseguiu sua meta, tanto que até quem vos escreve saiu bastante perturbado da primeira vez que viu A Casa dos Mil Corpos, e com isso, acredito que até hoje seja sim sensorialmente um filme que funciona, embora cinematograficamente careça completamente de princípios básicos da funcionalidade de uma história, o que o torna extremamente datado em linguagem. Princípios como esse formam o clássico “ame ou odeie”, mas o meio-termo é o que melhor o define, nas 1000 formas que busca o horror, pelo menos metade vai acertar diferentes pessoas em diferentes proporções.

A Casa dos Mil Corpos (House of 1000 Corpses, EUA – 2003)
Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie
Elenco: Sid Haig, Karen Black, Sheri Moon Zombie, Bill Moseley, Erin Daniels, Chris Hardwick, Jennifer Jostyn, Rainn Wilson.
Duração: 89 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.