Crítica | A Casa Sinistra

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A situação onde um grupo de viajantes, por uma razão ou outra, fica preso na estrada e é obrigado a pedir abrigo em uma isolada casa decrépita e sinistra cheia de segredos é uma das mais recorrentes das histórias de terror. No cinema, um dos primeiros diretores á se apropriar desta tradicional premissa foi James Whale, que já havia marcado o seu nome no gênero ao dirigir o clássico Frankenstein no ano anterior, pela Universal, que também produz A Casa Sinistra.

Na trama, Philip e Margaret Waverton (Raymond Massey e Gloria Stuart) formam um casal que está viajando com seu amigo Roger Penderel (Melvyn Douglas) quando uma grande tempestade bloqueia a estrada. Sem escolha, eles são obrigados á pedir abrigo em uma velha casa próxima á estrada, onde vivem os irmãos Horace e Rebecca Femm (Ernest Thesiger e Eva Moore), juntamente com o sinistro mordomo mudo Morgan (Boris Karloff). Enquanto a tempestuosa noite avança, os viajantes descobrem que a estranha família Femm guarda mais segredos do que eles imaginam.

Embora traga muitos dos arquétipos da trama de casa assombrada, não há nada de sobrenatural em A Casa Sinistra. O roteiro de Benn W. Levy e R.C Sheriff, baseado no romance de J.B. Priestley está muito mais interessado na psique distorcida dos habitantes da casa do título do que em assombrações. Claro, antes mesmo que qualquer um dos moradores da Casa dos Femm apareça, Whale já deixa claro para o público que aquele não é um ambiente seguro, seja através da assustadora silhueta da casa vista pelos protagonistas no meio da tempestade, ou do primeiro vislumbre que temos de Morgan, quando o rosto em close de Boris Karloff com uma barba desgrenhada e uma cicatriz no rosto espia os viajantes recém-chegados através de uma fresta na porta.

O filme traz algo de muito subversivo para uma produção de 1932, começando pela dinâmica entre os dois irmãos, que coloca a figura feminina representada por Rebecca Femm como a figura de autoridade máxima da residência, enquanto Horace surge como uma figura tímida e submissa à irmã. Os dois irmãos de fato, parecem representar a antítese um do outro. Enquanto Horace é hospitaleiro com os viajantes e teme os segredos da casa, Rebecca deixa claro que não haverá camas para os seus “hóspedes”, e acredita que o mal que vive ali afetara apenas os ímpios. E claro, existe a figura muda e embrutecida do mordomo Morgan, que após se embriagar, representa toda a selvageria e a violência escondida na casa, sendo justamente ele o responsável por manter um terceiro irmão Femm, supostamente um maníaco homicida, preso em seu quarto no andar de cima.

O longa parece ser muito mais conduzido por sua atmosfera e personagens do que por seu enredo. Felizmente, Whale conta com um grupo competente de atores para trabalhar a ambiguidade dos personagens, tanto nos aspectos assustadores quanto em seus aspectos cômicos, já que a obra também conta com certa dose de humor. Ernest Thesiger vive Horace de forma afetada, mas que condiz com o personagem quase infantilizado pela figura da irmã. Existe essa mesma afetação na Rebecca de Eva Moore, especialmente nas gags envolvendo a sua surdez parcial, embora a personagem possua uma veia mais macabra, vide a cena em que camufla a inveja que sente da juventude de Margaret com fanatismo religioso enquanto observa a moça se trocar, em uma cena que constrói a sua tensão através de uma conotação sexual rara para o período (o filme foi produzido antes do estabelecimento do Código Hayes). Já a interpretação de Karloff como Morgan, lembra o seu papel mais famoso como o monstro de Frankenstein, mas há uma lascívia no mordomo que era inexistente na criatura do clássico de 1931, o que dá á Morgan um caráter mais perturbador.

Não escrevi muito sobre os viajantes, por que eles pouco se destacam, excetuando o Sir William de Charles Laughton, que surge na casa dos Femm acompanhado da simpática corista Gladys Perkins (Lilian Bond) após também se perder na tempestade. Sir William chama a atenção pelo bom humor que traz à narrativa, por ter total consciência de quão estranha é a situação na casa, mas também por trazer certa tensão social. Os outros personagens, entretanto, não têm muito o que dizer, e o roteiro ainda centraliza um romance nada crível entre Gladys e Roger, que são atingidos por uma paixão arrebatadora e pensam em se casar após passarem algumas horas juntos.

Mas se o roteiro apresenta problemas na construção dos personagens “normais”, a direção supre essa carência dando uma elegância atmosférica para a obra. O diretor cria planos fantásticos que elevam a tensão das cenas e dilatam o tempo, valorizando o suspense, como na já citada cena em que vemos a imagem distorcida do rosto de Rebecca refletido em um espelho enquanto ela aterroriza Margaret, ou o plano detalhe que mostra uma mão no corrimão emergindo das sombras no alto da escada. O desenho de som é outro destaque, ao abrir mão de qualquer trilha sonora e investir nos sons ambientes, desde o constante som de ventania e trovões, passando pelos rangidos do assoalho da casa e, claro, a maléfica risadinha vinda do andar de cima.

A Casa Sinistra é uma farsa de terror dirigida com estilo por James Whale, que cimentou muitos dos clichês cinematográficos envolvendo “casas mal assombradas” e explora com primor as ferramentas técnicas que o cinema sonoro poderia oferecer ao gênero. Embora o roteiro possa parecer datado e até pueril para os dias de hoje, ele traz uma interessante exploração da psique de seus personagens mais estranhos. Vale a pena dar uma chance a este obscuro filme de casa assombrada, produzida na Era de Ouro do terror da Universal Studios.

A Casa Sinistra (The Old Dark House), Estados Unidos, 1932.
Direção: James Whale
Roteiro: Benn W. Levy, R.C Sheriff (Baseado em romance de J.B Priestley)
Elenco: Boris Karloff, Melvyn Douglas, Charles Laughton, Lilian Bond, Ernest Thesiger, Eva Moore, Raymond Massey, Gloria Stuart.
Duração: 72 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.