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Crítica | A Cauda do Escorpião

por Luiz Santiago
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Segundo giallo dirigido por Sergio Martino, estreando alguns meses depois de O Estranho Vício da Senhora Ward (também de 1971), A Cauda do Escorpião começa com a morte misteriosa de um milionário, que deixa para a esposa uma grande soma em dinheiro através do seguro de vida. Já no início da fita acompanhamos, temerosos, os passos de Lisa (Evelyn Stewart), a viúva beneficiada que passa a ter encontros e atitudes que nos fazem desconfiar dela imediatamente, uma suspeita que logo se expandirá para muitos outros personagens.

Há muita coisa acontecendo aqui. O roteiro do trio Manzanos, Gastaldi e Scavolini estabelece uma forte sensação de perigo sem precisar que muita coisa aconteça inicialmente. Esta ambientação que flerta com o constante perigo para os indivíduos se fortalece à medida que uma suspeita simples, daquelas que encontramos não muito raramente nos dramas policiais (a seguradora passa a investigar a beneficiada para ter certeza de que não existe crime envolvido), abre as portas para uma série de assassinatos com uma assinatura bastante peculiar, ao menos no que diz respeito às mulheres mortas.

A luvas pretas do assassino, a máscara e a coreografia do crime são coisas que o diretor usa bem no decorrer da obra. No primeiro ato, o crime é apenas uma ameaça geral. A trilha sonora faz o papel de manipuladora de percepções aqui, mas o compositor Bruno Nicolai não usa de motivos tipicamente ligados ao terror ou mesmo ao suspense para assustar ou alertar. A escolha de canções e a própria partitura da obra contrastam, muitas vezes, com aquilo que vemos na tela, dando uma aparência sonhadora e possivelmente feliz a um cenário de medo e apreensão.

Isso muda, no entanto, na reta dos assassinatos. Nestes momentos, a trilha parece gritar diante do horror da situação, tornando as sequências de morte ainda mais interessantes, fazendo jus ao capricho estético do diretor, que enquadra muito bem os lugares dos cortes da lâmina e mantêm sempre admirável a sua boa decupagem na hora dos crimes, estando na ótima companhia do editor Eugenio Alabiso, que trabalhara com o cineasta em Senhora Ward. Cada crime também conta com um tratamento diferente da direção de fotografia, uma vez que ocorrem em distintos lugares e com resultados até inesperados, pois aqui, alguns dos atacados reagem e até conseguem retardar ou impedir alguns atentados. No ato final, porém, essa vivacidade perde um pouco o foco e o caráter mais próximo ao giallo na representação dos crimes dá lugar a um misto de suspense e ação exóticos — o que não é ruim, só diferente do restante da obra.

Incomoda, no decorrer da investigação, a maneira como algumas autoridades são retratadas, especialmente o personagem de Alberto de Mendoza, que ao fim, tem seu arco fechado de maneira negativamente inesperada, o mesmo acontecendo com a jornalista Cléo Dupont, interpretada por Anita Strindberg. Em face da necessidade de inserir o escorpião como parte literal da investigação, o roteiro também cambaleia na hora de usar os simbolismos e de fornecer as explicações finais para uma parte nem tão complicada assim do mistério. Foi mais fácil lidar com a revelação de quem estava por trás dos assassinatos (com boas escolhas dos roteiristas) do que inserir de maneira orgânica e simples a presença do escorpião no filme, um ícone tão bem trabalhado visualmente que acaba tendo uma explicação final meio tola.

A Cauda do Escorpião se apropria de muitos ingredientes da literatura policial para desenvolver o enredo, alocar os assassinatos ao longo da investigação e plantar motivos e suspeitos a cada dez minutos. Sergio Martino faz alguns fantásticos experimentos com a câmera aqui, com posicionamentos nada ortodoxos que têm um resultado estético aplaudível. À parte suas poucas conveniências e a maneira como a trama se finaliza, A Cauda do Escorpião é um giallo interessante, infelizmente escanteado na filmografia do diretor e que só com o passar do tempo ganhou maior reconhecimento da crítica e do público.

A Cauda do Escorpião (La coda dello scorpione) — Itália, Espanha, Reino Unido, 1971
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Eduardo Manzanos, Ernesto Gastaldi, Sauro Scavolini
Elenco: George Hilton, Anita Strindberg, Alberto de Mendoza, Janine Reynaud, Luis Barboo, Tom Felleghy, Lisa Leonardi, Tomás Picó, Evelyn Stewart, Luigi Pistilli, Franco Caracciolo, Giulio Massimini, Fulvio Mingozzi
Duração: 95 min.

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