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Crítica | A Cela (2000)

por Fernando JG
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Enquanto via ao filme, não conseguia parar de pensar em quão superficiais todas as questões propostas pela trama fílmica se apresentavam diante de mim. Particularmente, sempre vejo com receio produções que buscam trabalhar com a tecnologia de modo futurista, trazendo utopias para o enredo, articulando ideias que podem se tornar reais, mas que ainda não são. Ou até são, mas ainda não tanto. A primeira temporada de Black Mirror, por exemplo, é espetacular e soube se utilizar das ferramentas que tinha em mãos para causar o incômodo e o espanto. Diferentemente disso, A Cela, uma produção ainda anterior, mais precisamente com 11 anos de diferença, esbarra em erros que são difíceis de engolir. Muitos são os erros teóricos e muitos outros são erros da própria trama, do filme propriamente dito. Nada convence. É divertido? é sim. É uma proposta avantajada para a época e por isso pegou muita gente no pulo. Mas de verdade? Chega em 2021 absolutamente datado, com falhas das quais considero falhas crassas. Apesar dos inúmeros tropeços, o filme se destaca pela questão da unidade estilística, que é, finalmente, um dos aspectos bem montados e trabalhados na trama, que a salvou de críticas ainda mais duras. Mas vamos lá.

A Cela é uma coprodução germano-americana, estrelada por Jennifer Lopez no papel da psicóloga Catherine Deane, que participa de um experimento de terapia ultra tecnológica que consiste em entrar na cabeça do paciente através de uma técnica de última geração. Com esse mecanismo, a psicóloga consegue fazer uma espécie de transferência para o inconsciente do paciente e tratá-lo de dentro, conhecendo seus traumas, tentando consertá-los. Neste meio tempo, em que somos apresentados a um trabalho mega avançado da psicologia moderna, conhecemos um psicopata chamado Carl Rudolph (Vincent D’Onofrio), que faz um trabalho muito perverso, encarcerando suas vítimas em celas aquáticas, assassinando-as por afogamento. Um belíssimo dia, Carl sequestra Julia (Tara Subkoff), sua nova vítima, e então a polícia parte em busca de encontrá-la. Na tentativa de achá-la, o FBI prende Carl, mas o assassino tem um colapso e entra em coma, fazendo com que a polícia tenha de mexer todos os pauzinhos possíveis para encontrar Julia, que está em perigo. Mas como achá-la se o desgraçado teve um colapso, está em coma e ele é o único que sabe onde ela está? Neste problema, entra o papel de Catherine, e fica à cargo dela entrar no inconsciente dele para encontrar respostas de onde estaria Julie e salvar a vítima de um fim trágico. 

A trama é ótima. Excelente. Chamativa, cativante. De fato, o filme é uma bela aposta. Apesar disso, o longa apresenta algumas inconsistências notáveis, o que é uma pena, pois o filme poderia ser adorável. A Cela foi o primeiro filme dirigido por Tarsem Singh, e sei que isso não é um fator de peso, até porque grandes diretores fizeram belíssimas estreias, mas sinto que faltou um olhar mais aguçado sobre a profundidade do filme que ele tentou fazer. A personagem da Jennifer Lopez é bizarramente superficial! Como pode uma psicóloga ter o poder de entrar no inconsciente de um criminoso e a primeira coisa que ela faz é perguntar onde está a vítima? os anos de psicologia não foram úteis para que ela pudesse aprender um método? A cena é ridícula e me fez sentir vergonha de algo que poderia ter sido muito melhor trabalhado. 

O filme, que parece se basear numa teoria freudiana de boteco, trata de camadas de inconsciente como “subconsciente”, um termo que não é utilizado dentro da psicologia. Junto disso, alguns erros teóricos são cometidos incessantemente. Ela entra no inconsciente do cara e tenta eliminar o seu Eu, o seu duplo, numa cena bem cretina, em que parece mais uma cena de Mortal Kombat do que uma coisa séria. A metáfora terapêutica é horrível. Depois que, enfim, é descoberto o local em que Julia está encarcerada, Catherine insiste em voltar para lá, para a mente do cara, e tentar consertar o “Eu infantil” do assassino, tentando recobrar algo de bom que existia nele. Neste momento, o “motivo” do filme muda. O que antes era uma tentativa de salvar a vítima, agora a trama concentra-se na tentativa de salvar o assassino de si mesmo. No entanto, são cenas tão carregadas de exageros, de fantasias, de uma presença heroica que não cabe, que parece perder toda a genialidade da proposta fílmica. 

De fato, não posso ser sempre rude e dizer que a proposta psicanalítica é de todo ruim. Toda a ideia da sombra do pai, do trauma infantil, das construções inconscientes na formação do Ego do menino, que cresce e vira um psicopata, são muito bem desenvolvidas. Isso é verdade. Quando o filme entra na cabeça de Carl, todos os cenários são úmidos, e isso faz parte da unidade estilística do longa, que tenta recobrar a todo instante as camadas do primeiro trauma, além da insistente figura assombrosa do pai, que o persegue. A esquizofrenia é a todo momento cerceada, seja pelas referências ao filme Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, 1973) ou até mesmo pelas referências explícitas ao problema de Carl. Mas a forma como o filme lida com a solução desses problemas é absolutamente rasa e desprezível. Em termos fílmicos, algo muito melhor poderia ter sido feito, mas visivelmente o filme se perde. As instâncias metafóricas são até interessantes em alguns momentos, mas se perdem em qualidade. 

Outro ponto interessante é que, na cabeça do menino, tudo retoma à questão da cela, que é o sentido de prisão. Carl é um sujeito que está preso dentro da própria mente, e tudo retoma a isso, todos os símbolos. É a prisão de um ser humano a partir do horror e do cárcere que é pertencer a uma cabeça doente. É a ideia da cabeça como cárcere. As metáforas prisionais são ótimas, bem como a cena do cavalo sendo dividido em centenas de pedaços. Quando os personagens ficam presos no inconsciente de Carl, lembrei-me de Sobrenatural (2011), mas isso basta. 

A Cela é um filme recheado de problemas, mas que geralmente passam ilesos por conta do próprio desenrolar dramático, que te prende pela ideia futurista, que não é ruim. Contudo, o longa é cafona, os looks da Jennifer Lopez são horríveis, e não sei como esse filme ganhou qualquer indicação por estética no Oscar de 2001, e poucas coisas são realmente salváveis, apesar da proposta ser excelente. Embora a ideia seja boa, o desenvolvimento é brega. Ainda que o filme tente se construir em complexidade, o oposto ocorre. A complexidade acaba caindo no raso e na superficialidade. Uma pena, pois o enredo, se trabalhado com um cuidado maior, poderia render uma pedra preciosa da ficção científica. 

A Cela (The Cell, Alemanha, Estados Unidos, 2000)
Direção: Tarsem Singh
Roteiro: Mark Protosevich
Elenco: Jennifer Lopez, Vince Vaughn, Vincent D’Onofrio, Marianne Jean-Baptiste, Jake Weber, Dylan Baker, Tara Subkoff
Duração: 107 min.

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