Foi uma carta de fã de Águas Profundas que acendeu a centelha do que seria A Cela de Vidro. Em 1961, Patricia Highsmith recebeu uma correspondência inusitada de um prisioneiro que havia apreciado seu trabalho e, com isso, os dois estabeleceram comunicação constante sobre o cotidiano em uma penitenciária, algo que, somado a estudos e livros que a autora pesquisou, levou à criação de mais um memorável personagem de seus romances, o ingênuo engenheiro Philip Carter que, ao que tudo indica, foi condenado por um crime que não cometeu e que, logo nas páginas iniciais que, nas edições originais, vinham com um aviso, o vemos sofrer uma terrível tortura que o faz ficar pendurado 48 horas pelos polegares, para sempre marcando-o física e psicologicamente.
Durante seu encarceramento por fraude, Carter mostra dificuldade em encontrar alguém com quem possa conversar e, quando encontra, Highsmith faz o que costuma fazer e cria uma conexão que pode ser interpretada das mais diversas maneiras dada sua capacidade inigualável em trabalhar ambiguidades sutis que permanecem sem determinação clara. Highsmith investe uma boa parte do romance nessa vida dentro da penitenciaria, deixando muito clara a transformação gradual de Carter em alguém mais tendente a explosões de violência, em uma clara crítica sobre todo o sistema prisional americano – ecoado em diversos outros países – que, no lugar de preparar o prisioneiro para a reentrada na sociedade, tende a corromper a alma do Homem. A metafórica “cela de vidro” do título – que imediatamente lembrou-me da versão literal da seminal série Oz – passa a ser uma indicação de que toda a vida de Philip Carter passa a ser um eterno confinamento, mesmo fora da penitenciária.
E, também bem no estilo Highsmith de escrever seus personagens masculinos, há um ingrediente relevante de obsessão e paranoia que surge na prisão e continua firme e forte fora dela, algo que se manifesta de maneira mais relevante na desconfiança de Carter de que sua esposa Hazel o estaria traindo com seu advogado David que trabalha na obtenção de seu perdão. Quando Carter finalmente é libertado, o que vemos é o peso dos traumas infligidos a ele na penitenciária ganhando volume como uma bola de neve descendo a montanha. Diferente de boa parte de seus protagonistas mentalmente desequilibrados já na largada, aqui vemos um processo gradual em que testemunhamos as mudanças em Carter, mudanças essas que chegam a extremos que para sempre mudam nossa percepção inicial sobre ele.
O que é particularmente interessante é que, na construção narrativa, a vida de Philip Carter fora da prisão é verossímil, complexa na forma como o cotidiano de um homem tentando reafirmar-se perante a sociedade pode ser e todas as tentações e questões ao seu redor, seja o possível adultério da esposa, sua própria alegada inocência, a proximidade a elementos moralmente dúbios (para dizer o mínimo) que se aproximam dele por razões escusas e assim por diante. Se Highsmith já havia investido em um panorama amplo dentro da prisão, fora dela – para talvez justamente reiterar que a vida de um prisioneiro nunca mais é verdadeiramente livre – a operação das forças internas e externas que pressionam e afetam Carter é inevitável e inafastável, criando momentos profundamente angustiantes ao longo da história.
Em seu 10º romance, vemos Patricia Highsmith criar um de seus melhores protagonistas masculinos que, porém, é infelizmente muito pouco conhecido por aí, só tendo sido objeto de uma adaptação cinematográfica na Alemanha Ocidental, em 1978, por Hans W. Geissendörfer. Philip Carter é de uma complexidade fascinante e arrepiante que constantemente anda no fio da navalha entre o que ele era antes da prisão e o que ele se tornou depois, mesmo lutando contra essa inexorável transformação. É até mesmo possível dizer que Carter é um personagem que bebe um pouco de todos os protagonistas anteriores de Highsmith, inclusive do famoso Tom Ripley, mas que, por incrível que pareça, ao mesmo tempo parece ser o que mantém seus pés profundamente fincados no realismo, o que o torna identificável mesmo quando ultrapassa a fronteira do moralmente aceitável. Mais um grande acerto da escritora que, um dia, recebeu uma carta de fã de dentro de uma penitenciária.
A Cela de Vidro (The Glass Cell – EUA, 1964)
Autoria: Patricia Highsmith
Editora original: Doubleday
Data original de publicação: janeiro de 1964
Editora no Brasil: Editora Benvirá
Data de publicação no Brasil: 30 de agosto de 2013
Páginas: 249
