Crítica | A Centopeia Humana 2

estrelas 1

  • A versão criticada foi a sem cortes.

Não importa o quão gore seja se não é acompanhado do mínimo de noção e coerência. Em Centopeia Humana 2, Tom Six perde qualquer sinal de sanidade e tenta surpreender com sequências inimagináveis que, ironicamente, só prova a falta de inteligência do diretor. O desespero de Six em forçar a entrada do seu nome no mercado cinematográfico o leva para um caminho criminoso e desnecessário. Na história, Martin (Laurence R. Harvey) é um guarda de estacionamento com sequelas de abuso sexual. Viciado no filme A Centopeia Humana, o homem planeja trazer ideia da centopeia composta por humanos para a vida real. É angustiante para o espectador chegar no início do terceiro ato do filme e notar que está assistindo algo completamente desconexo. Acompanhamos grande parte da obra com sequências inúteis, sem sentido e repetitivas: Martin assassina ou nocauteia alguém, coloca em sua van e os leva para um depósito. De fato, Tom Six quis trazer um tipo diferente de gore para cada ataque de Martin, porém isso não funciona, até porque todas as agressões do homem são feitas com o mesmo objeto, mudando apenas o ângulo e a gravidade do machucado na vítima. Assim, parece mais uma repetição desgastante durante todo o primeiro e o segundo ato. Mesmo que esse artifício funcionasse e, de alguma forma, o gore nas cenas surpreendesse, ainda seria considerado um erro. Não há qualquer influência direta na criação da centopeia humana durante os dois primeiros atos, dando a parecer que o diretor foi obrigado a introduzir a ideia da centopeia apenas para conseguir intitular o projeto com um nome que traria grande público, principalmente por causa do sucesso do primeiro filme. Aqui, o nome da trama é mais uma jogada de marketing. Claramente o sonho de Tom Six era intitular o filme de “O Massacre Sem Sentido de Martinzinho”. E, talvez, assim ficasse melhor.

O pior de tudo é o claro desespero de Six em querer aparecer na mídia. Isso porque a trama é acompanhada de estupros, assassinatos com alto grau de perversidade, um recém-nascido esmagado pela própria mãe involuntariamente (?),  órgãos genitais sangrando, entre outros. Ora, se o diretor não tem a mínima capacidade de construir algo que se sustente desde o começo (deficiência já notada no primeiro filme, quando acompanhamos várias sequências inúteis e burras), a única forma dele ser aclamado é por meio do absurdo, certo? E foi assim que ele chegou a conclusão que era melhor introduzir tudo de ruim que há na sociedade, sem qualquer filtro, mesmo que isso não influenciasse em nada na ideia principal do roteiro. O problema maior é quando essa falta de competência o leva para um lado sombrio. O gore ultrapassa tudo o que é aceitável, passando a ser facilmente alvo de um julgamento judicial (tão pesado quanto pornografia infantil, por exemplo). O cinema não tem limites, mas há cenas que precisam de censura simplesmente porque são crimes. A exemplo do péssimo Um Filme Sérvio – Terror Sem Limites que, apesar de retratar estupros de crianças, teve ao menos o bom senso de censurar essas cenas. Infelizmente, parece que a jogada do diretor deu certo: o filme conseguiu ser banido de diversos países o que, claro, trouxe visibilidade ao longa.

SPOILERS!

Também não posso deixar de citar que o filme já começa errado. Na primeira sequência é demonstrado que A Centopeia Humana é um filme fictício, de um universo utópico. Isso arranca qualquer fidelidade do espectador com a primeira obra, porque retira a veracidade e o peso do primeiro. Além disso, deixa o espectador desconfiado da credibilidade do segundo: passamos a maior parte do tempo pensando se realmente o que estamos assistindo é verdade. Esse questionamento atrapalha a imersão na película, pois fica relembrando que estamos assistindo a um filme, ou seja, ninguém ali estaria sofrendo de verdade. E o pior é que essa desconfiança estava certa. O desfecho se baseia em “era tudo uma ilusão de Martin”, causando uma grande raiva. É o mesmo que assistir a um grande título (na cabeça de Tom Six seria uma brilhantíssima obra, então vamos fingir), e no final descobrir que era tudo um sonho. Em outras palavras, o filme começa, se desenvolve e termina errado.

O que salva um pouco do verdadeiro fracasso e, consequentemente, da nota mínima é o acerto na fotografia em preto e branco. Ela aumenta o ar de sujeira que a obra precisa ter – principalmente pela vontade de exagerar no gore. De mais, a atuação de Laurence também é muito boa, principalmente por causa da sua aparência (seu olho é de arrepiar). Quando a centopeia humana enfim aparece, o projeto engaja, pena que isso acontece no final do terceiro ato e, logo então, temos o péssimo desfecho.

A Centopeia Humana 2 descreve a desesperada busca de um diretor desconhecido em querer colocar seu nome no mercado, se apropriando, então, de estratégias absurdas que nem o “cinema ilimitado” é capaz de perdoar. Uma sequência burra, sem sentido e desnecessária, a obra se salva em pequenos aspectos, como na fotografia, na atuação, e em curtíssimas partes. Um apelo ao diretor: Tom Six, assim você nunca será uma referência ao cinema gore.

A Centopeia Humana 2 (The Human Centipede II (Full Sequence)) — EUA, 2011
Direção: Tom Six
Roteiro: Tom Six
Elenco: Ashlynn Yennie, Maddi Black, Laurence R. Harvey, Kandace Caine, Dominic Borrelli, Lucas Hansen, Lee Nicholas Harris
Duração: 91 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.