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Crítica | A Chegada do Sr. Quin e A Sombra na Vidraça, de Agatha Christie

Um personagem bem diferente concebido por Agatha Christie.

por Luiz Santiago
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O presente compilado traz dois contos do livro O Misterioso Sr. Quin, de Agatha Christie, publicado originalmente no Reino Unido em 1930. Ambas as histórias tiveram publicação prévia, nas páginas da The Grand Magazine, em 1924. No Brasil, a coletânea já foi lançada pela Nova Fronteira e, em sua edição mais recente, pela L&PM Pocket.

Neste livro, Agatha Christie, brincou com figuras bastante caras a ela desde a sua infância: Arlequim, Pierrô e Colombina, fazendo joguinhos de mistério centrados na figura do Sr. Quin (que é uma alusão, claro, ao Arlequim). A versão que a autora resolveu personificar em seu livro é a da abordagem inglesa para o personagem, que surgiu na Commedia Dell’arte italiana do século XVI. Nesta versão, o Arlequim tem poderes mágicos e traz mudanças de cenário com um toque de comédia. Ele se veste de maneira peculiar e consegue manipular o jogo nos cenários onde surge. Além dele, outra figura de destaque é a do Sr. Satterthwaite, um observador arguto que adora observar a vida alheia e fica impressionado quando encontra o Sr. Quin.

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A Chegada do Sr. Quin

Este conto se passa na véspera de Ano Novo e nas primeiras horas do novo ano, numa festa que acontece na mansão Royston, casa de campo de Tom Evesham e de sua esposa, Lady Laura. A autora nos apresenta de maneira rápida e despreocupada os participantes dessa reunião e, de cara, já sabemos que eles protagonizarão o elemento de mistério a ser trabalhado no conto. No meio dos convidados estão o Sr. Satterthwaite (personagem bem importante, o grande observador de tudo o que acontece), Sir Richard Conway, Alex Portal e Eleanor, a sua esposa australiana.

As observações de Satterthwaite sobre o que vai acontecer ou sobre o que pode acontecer deixam o leitor tenso, e essa é realmente a intensão da autora, abordar o mistério por um outro ponto de vista ou criação de atmosfera, especialmente nesse conto, que é a resolução de um mistério antigo, não o evento e investigação imediata de um assassinato ou crime ocorrido durante a leitura. Eleanor é mostrada como uma pessoa intrigante em muitos aspectos, especialmente por ser uma loira que tinge o seu cabelo de preto, e Satterthwaite observa que isso é bem estranho porque “o inverso é mais comum“. Depois que o relógio bate meia-noite e o novo ano chega, os mais velhos entre os convidados mencionam Derek Capel, o proprietário anterior de Royston que cometeu suicídio 10 anos antes, aparentemente sem motivo. E é em torno dessa conversa que todo o conto irá girar, especialmente depois da chegada do Sr. Quin.

É quase mágica a forma como o personagem guia a “investigação” que acontece. Ele realmente manipula os comportamentos, falando uma frase ou outra, dando início a uma conversa, a uma suspeita, lançando uma sombra de dúvida sobre alguém ou alguma coisa e basicamente curtindo o circo pegar fogo. O elemento de mistério, nesse caso, é muito interessante no início e creio poderia ser bem mais se a autora não entregasse aquilo que a trama tem de melhor ao romance. E um romance estranho, que pode ter a cara do conto mas não está à altura de um grande enredo de mistério.

A Chegada do Sr. Quin (The Coming of Mr. Quin) — Reino Unido, 1924
Autora: Agatha Christie
Publicação original: The Grand Magazine
Publicação em compilado: O Misterioso Sr. Quin, 1930
Edição lida para esta crítica: L&PM Pocket, 2017
Tradução: Bruno Alexander
31 páginas

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A Sombra na Vidraça

Aqui temos o Sr. Satterthwaite em grande destaque, enquanto o Sr. Quin só entra em cena na segunda parte da segunda parte do conto, quando o crime já aconteceu e a investigação policial está começando. Satterthwaite é um dos convidados para a grande festa realizada pelo Sr. e Sra. Unkerton, em Greenway’s House. No meio dos convidados também estão o Sr. Richard Scott, sua nova esposa e o melhor amigo de outro convidado, o Major John Porter. Então a chegada de uma pessoa faz com que a atmosfera mude e aquela sensação de perigo, de que algo vai acontecer, surja na história. O leitor passa a ter contato com uma série de suspeitas pelos diálogos com os personagens e, dessa vez, o medo tem razão de ser, já que dois assassinatos acontecerão em breve.

Quem deflagra esses eventos é a Sra. Iris Staverton. Muita gente diz que ela teve um relacionamento com Richard Scott, enquanto ambos estavam na África. A presença de Lady Cynthia Drage, uma mulher fofoqueira da alta sociedade, contribui para que esses rumores se espalhem entre os convidados. Um contraste aos amores já estabelecidos também se faz presente ali: o jovem e popular Capitão Jimmy Allenson, a quem Lady Cynthia conheceu no Egito no ano anterior – onde os Scotts se conheceram e se casaram. Ou seja, as coisas aqui são bem intricadas, alguns personagens já se conhecem de outros momentos de suas vidas e o leitor até se confunde um pouco até pegar o ritmo das coisas e se acostumar com todo mundo em cena.

Não vou dizer que esta é uma história instigante. Ela tem, é verdade, um charme investigativo no final da primeira e início da segunda parte, mas por ser um conto e por não ter, de fato, grande desenvolvimento de como a investigação ocorre — tudo é muito rápido e superficial –, não me chamou tanto a atenção. E ainda tem o fato de, mais uma vez, uma história de amor (ou mais especificamente, de ciúmes) esteja em pauta. Não é melosa, como foi em A Chegada do Sr. Quin, mas não deixa de soar um tantinho desinteressante. Talvez se a organização dos contos tivesse nos dado uma pausa entre uma temática final similar e outra, tivéssemos outra posição a respeito. Ainda assim, a ideia de que o Sr. Quin é definitivamente um personagem que nem parece de Ataha Christie se comprova aqui.

A Sombra na Vidraça (The Shadow on the Glass) — Reino Unido, outubro de 1924
Autora: Agatha Christie
Publicação original: The Grand Magazine
Publicação em compilado: O Misterioso Sr. Quin, 1930
Edição lida para esta crítica: L&PM Pocket, 2017
Tradução: Bruno Alexander
65 páginas

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