Crítica | A Chegada do Sr. Sleeman

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Hjalmar Bergman, que não tem nenhuma relação de parentesco com Ingmar Bergman, escreveu a peça de um ato A Chegada do Sr. Sleeman no ano de 1917 e nela, retratava o momento em que uma jovem órfã, criada por duas tias idosas, ouve a leitura da carta de um homem que pede sua mão em casamento; um indivíduo de alto cargo administrativo no município e já conhecido da família, prometendo aliviar os encargos financeiros das duas senhoras caso elas permitissem que a bela Anne-Marie (aqui interpretada por Bibi Andersson) se casasse com ele.

No mesmo ano em que trouxe ao mundo O Sétimo Selo e Morangos Silvestres (sobre o qual também dirigiu um pequeno documentário curta-metragem) Bergman ainda teve tempo para este telefilme de 43 min. onde adaptava a peça de Hjalmar, encaixando no melhor estilo de ironia e humor as paixões e as convenções sociais que a obra teatral propõe. Bergman estava no começo de sua terceira fase como diretor, onde abordava questões metafísicas e o homem como cerne de suas obras, cabendo nesse ambiente as mais diversas formas de discutir um problema humano. No presente caso, o casamento por conveniência, a paixão entre jovens e o amor na idade madura se unem para formar um todo com um sabor agridoce, fazendo rir ao mesmo tempo que amargura pela veracidade do que expõe.

As irmãs Bina (Naima Wifstrand) e Mina (Jullan Kindahl) representam posturas e opiniões sociais diferentes em relação ao comportamento e deveres de uma jovem mulher, fator que aparece no texto de maneira bem humorada e realista, com base em quesitos que a sociedade Ocidental, fortemente marcada pelo cristianismo, tomou como sendo o modelo imutável, ao menos até o início da desconstrução dessas criações sociais nos primeiros anos do século XXI. Mas ao mesmo tempo que expõe este aspecto, autor e diretor não assumem posturas políticas sobre o caso. É apenas um fato que, curiosamente, convive como lados de uma mesma moeda.

Bibi Andersson está entre a vontade pessoal de se encontrar com o namorado na floresta próxima — seu passado familiar vem à tona com uma certa vergonha na fala das tias — e as lições de etiqueta que teve de ensaiar para receber o “homem de meia-idade” que estava para se tornar seu esposo. Novamente, Bergman torna o caso um misto de tristeza pela condição de Anne-Marie, mas não parte de um princípio agressivo nem nada parecido. O encontro da jovem com o Sr. Sleeman (Yngve Nordwall) prova isso, transitando entre o medo ou até uma espécie de horror por parte da garota até a própria mudança de visão para o que seria o casamento dela e a extrema ironia vinda com os diálogos finais, lembrando o último encontro noturno de Anne com o caçador Jägaren (Max von Sydow).

Pesa aqui algumas escolhas ruins da edição, com fades constantes entre o relógio da sala e os rostos dos atores, ressaltando a temida chegada do Sr. Sleeman, o que é compreensível, mas o editor faz isso de forma nada elegante. A montagem também tropeça na escolha dos takes, alguns com enquadramentos que não parecem nada harmônicos com a sequência e dão uma sensação de má ligação entre o teatro e a TV. Bergman também não faz um trabalho necessariamente aplaudível, em parte pelo fato de este ser o seu primeiro trabalho (fora propagandas) feito para a pequena tela, o que coloca A Chegada do Sr. Sleeman em um daqueles blocos de pequenas obras com excelente temática, algumas resoluções muito boas, mas situação geral que se resume como “um trabalho menor de um grande diretor”.

A Chegada do Sr. Sleeman (Herr Sleeman kommer) — Suécia, 1957
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Hjalmar Bergman (peça de teatro)
Elenco: Naima Wifstrand, Jullan Kindahl, Max von Sydow, Yngve Nordwall, Bibi Andersson
Duração: 43 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.