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Crítica | A Chinesa

Godard: um gênio no centro do capitalismo.

por Fernando JG
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Adaptação livre de Dostoiévski (Os Demônios), o argumento desse filme pauta-se na cidade de Paris, reunindo um punhado de jovens maoístas que conversam entre si os rumos do marxismo no Ocidente, enquanto elaboram um plano revolucionário para a França. O filme é todo em diálogo e conversas, como um drama teatral. Tudo acontece em forma didática, pedagógica, e na maioria das vezes esse didatismo cenográfico é representado por cenas que se passam em sala de aula. É um filme que expõe ideologias por meio dialógico como ação de enredo. Na raiz da película, estão as bibliografias: Godard utiliza densamente de vastos e conhecidos textos, com referências a Brecht, a Goethe (Wilhelm Meister e o socialismo utópico do livro), aos textos de Lênin sobre a revolução, a Marx, a poesia de Maiakovski, entre outros. São textos basilares que formam o punhado de ideias que montam a ideologia fílmica e a proposta do cineasta, e por isso são centrais para que o filme aconteça. Não há Godard sem um pedante academicismo e seus personagens ultraintelectualizados

Godard nunca esteve interessado em seguir as narrativas cinematográficas tradicionais, isto é, a linearidade do enredo de um filme. Mesmo em seus longas mais comuns – que nada têm de comum, convenhamos -, como Viver a Vida, O Desprezo, a estrutura encontra-se intrincada na montagem. Até entre seus colegas de Nouvelle Vague ele é o mais distinto, revolucionário em todos os aspectos do filme. Godard é antipático porque pressupõe já uma crise de forma e inaugura um novo momento para o cinema moderno, ou melhor, parece que é em Godard que o cinema moderno principia de maneira mais contundente. Com isso, vale assinalar que A Chinesa, que antecede o brilhante Vento do Leste, marca uma espécie de guinada do cineasta para um cinema que abdica totalmente de alianças com as formas convencionais. Para Godard, o cinema tradicional e sua forma de representar o mundo nasce junto com a ascensão da burguesia e com a opressão de classes na hierarquia capitalista, devido a isso, sua revolução no trato da montagem fílmica, que é tão específica, não é outra coisa senão um manifesto contra a burguesia e o cinema burguês. É neste contexto que a estrutura de La Chinoise se encaixa. 

Jean-Luc Godard é o típico homem de meados do século XX que vivencia as experiências mais limítrofes do jogo político em nível mundial, experimentando o avanço irremediável do capitalismo e a esperança de um socialismo retificador, que poria em ordem as mazelas sociais causadas pela burguesia. Naqueles anos, sabe-se que a possibilidade do triunfo da ideia de um socialismo não era meramente um delírio, como hoje, mas uma esperança que todos os dias batia na porta e que se mostrava real e concreta. Seus personagens, que atuam como numa cena teatral, evidenciam essa euforia e se colocam no centro dessa guinada possível. Mas não é apenas idealização, uma vez que em A Chinesa, sobretudo na cena da viagem de trem, há a presença forte de uma crítica a esse ideário juvenil-burguês de revolução, dessa juventude universitária que planeja ideias mirabolantes para a derrubada do sistema capitalista. Crítica, contracrítica e autocrítica fazem parte do enredo godardiano, que escapa brilhantemente de uma ingenuidade ideológica. O final do longa-metragem evidencia o plano fracassado de uma juventude que cai em si e que percebe que seus planos ambiciosos jamais poderão dar certo – não assim, como querem -, é preciso reformulá-los, repensá-los, recriá-los. A revolução é possível, mas não nesses termos. 

O filme é de 1967 e no ano seguinte explode o famoso Maio de 1968, movimento estudantil iniciado na Sorbonne, e que virou a França de cabeça para baixo, reivindicando reformas em inúmeras áreas sociais. Godard antecipa tudo isso como um profeta e por essa razão, afastando todo anacronismo que poderia gerar num filme assim, coloca-se numa posição de gênio, mas um gênio no centro do capitalismo, em que reflete a sua própria arte e as condições sociais que a condicionam. A ideia marxista de materialismo dialético, duma relação entre os indivíduos e os processos sociais, isto é, da influência direta que os processos sociais atingem a formação do indivíduo, é transportada para a forma do filme em Godard. Em A Chinesa, numa fala da personagem Véronique (Anne Wiazemsky), ela diz que é necessário que haja uma unidade fílmica em que reúna política e arte; forma e conteúdo. Ao propor um enredo sobre revolução, que é uma ruptura com o regime vigente, a própria estrutura da montagem fílmica, ao romper com a linearidade das narrativas do cinema burguês, se dá conta de que não pode se filiar à convenção e precisa ser, ela mesma, revolucionária. Com isso, reúne-se, na forma do filme, política e arte por meio da dialética. A dialética age sobre a forma do filme e por isso ele é fragmentado. 

Eu sei, parece um pouco demais falar de tudo isso aqui numa crítica cinematográfica, em que deveria prevalecer uma revisão de personagens, enredos, clímax, catarses, roteiro, argumento, etc., de acordo com os preceitos de uma crítica. Mas não cabe, nos filmes políticos de Godard, o convencional, uma vez que a natureza de seus filmes expele tudo isso, e muitas de suas películas são, senão, reflexões, manifestos e análises das relações entre arte, imagem-som e sociedade, e isso está intimamente ligado ao problema do materialismo dialético que havia dito anteriormente. É nesse compasso que se estabelece o cinema revolucionário do cineasta francês, que é mais fragmentário do que linear. 

Do ponto de vista da crítica à esquerda, Godard pesa a mão e expõe a juventude universitária, por vezes, ao ridículo, sobretudo por colocá-la em situação típica de uma mocidade sonhadora, num contexto de férias eletivas, reunida num apartamento, discutindo ideias revolucionárias que jamais sairão do papel. Falam de Brecht, mas entendem Brecht? É uma crítica a esse mundo cor-de-rosa, mas, veja, esse revolucionário também é Jean-Luc Godard. Por isso não é tão simples assim dizer que o longa-metragem é apenas uma crítica à juventude burguesa, porque existem noções ali que serão centrais para o próprio desenvolvimento de sua estética cinematográfica nos anos 70. 

Com isso, parece-me anacrônico e equivocado que inúmeras leituras do filme se prendam apenas a como Godard critica “jovens burgueses preocupados com a revolução”. É. Mas não é só isso. O longa-metragem busca uma maneira de refletir os caminhos do marxismo e reflete, invariavelmente, a própria perseguição de seu cinema em busca de sua ideologia cinematográfica. Não é à toa que o filme encerra com a porta se fechando e com uma fala que sugere uma ideia de reflexão dessa juventude. Nada está terminado, mas, sim, tudo será repensado e aprimorado. A Chinesa, com isso, torna-se um filme central para o percurso da filmografia de Godard, embora indigesto pela harmonia revolucionária entre forma e conteúdo.

A Chinesa (La Chinoise, França, 1967)
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud, Michel Séméniako, Juliet Berto, Lex De Bruijn, Omar Blondin Diop, Francis Jeanson
Duração: 96 minutos.

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