Crítica | A Cidadela (1938)

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Fazendo mais de um filme anualmente desde 1928, King Vidor já está estabelecido como um grande autor do cinema americano, embora esquecido hoje em dia diante de outros mestres. Eu mesmo demorei muito para debruçar-me diante de sua obra, mas acompanhando-a cronologicamente percebi padrões que se repetiam, sendo um deles o objetivo de mostrar protagonistas capazes de aprimorar-se e melhorar o mundo que vivem. Essa parece ser uma preocupação recorrente em sua filmografia, pessoas cujas ambições são caminhos cheios de armadilhas, como as próprias ambições são obstáculos para a construção de um mundo melhor. O que deve ser colocado como prioridade? Esse paradoxo vem do mais claro entendimento de que a humanidade caminha em direções opostas às nossas vidas, e sempre que nosso caminho está fácil demais, é bem provável de que algo está moralmente errado, e que alguém está saindo ferido dali.

A cidade que o título do filme A Cidadela (1938) se refere é um mundo à parte, desprendido de noções morais e envolvido numa ingenuidade que entrará em choque com um típico personagem principal de King Vidor. Andrew Manson é um médico idealista que chega nessa pequena cidade de mineiros com a esperança de ajudar a população que sofre de tuberculose. O tempo passa, suas ambições como doutor são frustradas, e ele, a convite de um amigo, passa a aplicar golpes em hipocondríacos em Londres.

Andrew ascende na vida, receitando remédios e cobrando consultas em senhores ricaços que não precisam de seu tratamento. A trama afunila, e a moral passa a martelar a cabeça do protagonista, que é livre mas sente-se preso pela própria missão divina que o laçou. “seu trabalho não é fazer dinheiro, é melhorar a humanidade” é uma das muitas frases que se tornam dilemas na cabeça de Andrew, atormentado pelos deveres da vida. A situação que ele é colocado o faz lembrar que pretensões e finalidades foram anuladas de sua vida, e com isso a própria vontade de viver. Que graça há na vida senão as dificuldades?

Contudo, reconheço que esse é um dos trabalhos menos inspirados de Vidor. Ele vinha de uma sequência de filmes independentes cuja liberdade afetavam positivamente seu trabalho como compositor cenográfico e contador de histórias, e sua volta aos estúdios pela MGM parece ser um resultado da opressão que o autor sofreu. O resultado não passa de uma adaptação de um livro já famoso na época, com grandes astros, seguindo a linha moral do diretor, que revela a sensibilidade de personagens que lutam em nome do idealismo ao enfrentarem as desilusões que a vida real pode nos trazer.

A Cidadela (The Citadel) – 1938, EUA
Direção: King Vidor
Roteiro: A.J. Cronin, Ian Dalrymple, Frank Wead
Elenco: Robert Donat, Rosalind Russell, Ralph Richardson, Rex Harrison, Emlyn Williams, Francis L. Sullivan, Mary Clare, Cecil Parker, Edward Chapman
Duração: 110 mins.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.