Crítica | A Cinco Passos de Você

“Contato humano.”

Tão talentosa é Haley Lu Richardon, em crescente ascensão, que A Cinco Passos de Você ganha uma vida muito mais especial que a pressuposta pela sua condução burocrática, quase natural ao “sub-gênero” em que se encontra. Por conta de sua presença magnética, a atriz se engrandece perante os meandros de sentimentalismo barato existentes nessa produção. Já tendo participado de projetos muito interessantes como Quase 18 e Fragmentado, a artista agora estrela – como o nome da sua protagonista até prenuncia – a mais nova adaptação de uma literatura adolescente contendo tema consideravelmente trágico, mas tocante. Haley, no caso, vive a jovem Stella, garota que combate, a passos curtos, uma doença conhecida por fibrose cística. Ela afeta os seus pulmões, principalmente, e outros órgãos também. Essa condição, porém, não é entristecida por ser um prenúncio constante para a morte, no entanto, por limitar o amor que Stella sente por pessoas próximas que também a possuem. Não pode as tocar, sempre a seis passos de distância.

“Contato humano”, aponta já no início a garota, dona de um canal no Youtube em que compartilha sua luta diária. É como uma história de amor, no entanto, que A Cinco Passos de Você termina sendo conhecida, não trágica, justo para os seus futuros e inevitáveis fãs, apaixonados pelo que verão. Os interessados por contos com similaridades temáticas – e A Culpa é das Estrelas é o mais óbvio dos exemplares a virem na cabeça – certamente irão encontrar, aqui, a receita de chefe necessária para induzir, ao público, lágrimas tão poderosas. Mas o processo é bem menos orgânico que o esperado e isso parte, possivelmente, do próprio material original, sua história em si. Enquanto nos encaminha a um amor impossível sendo tornado sensível aos nossos olhos – o casal principal é complementado por Cole Sprouse interpretando o Will -, o longa continua lidando com a inevitável premissa da morte, que já tornou-se rotineira a todos esses personagens. Tais vertentes opostas, o medo do impulso, a vida da morte, se confundem num enredo um tanto banal.

Essa desnorteação narrativa e, consequentemente, até mesmo dramática, é provocada pelo sentimentalismo excessivo no qual pauta-se o romance. A começar pela questionável obrigação de A Cinco Passos de Você em possuir um momento climático extremamente piegas, porém, necessário para uma jornada de edificação da paixão, maior que qualquer outra coisa e etcetera, emergir. O romance é transformado em principal obrigação narrativa do filme – nada anormal ainda -, embora justificado como cerne apenas, não única camada dramática e independente. Pois um de seus alicerces, que até o move narrativamente – unindo os pares -, é a necessidade particular de Stella em enfrentar a sua doença com uma determinação a mais, manter-se viva apesar de ser tão frágil. Ela também quer que Will, numa situação mais séria, tenha essa vontade pela sobrevida, enquanto o garoto é mais indiferente aos anos a mais que possa ter, preferindo diminuí-los para usá-los melhor. Uma troca de aprendizados é extinta, perdida em prol do foco ser no amor proibido.

Justin Baldoni, responsável pelo longa-metragem, esquece tal complexidade para afogar-se numa superfície desgastante. Os vínculos paternais, destroçados por causa de um background, seriam aparentemente importantes, entretanto, são escanteados quase que integralmente. Por outro lado, a personagem da irmã é um pouco melhor aproveitada, apesar de pouquíssima coesão existir no campo narrativo. O peso emocional mora nos ombros da protagonista, que encontra no amor uma possibilidade para, não apenas sobreviver, mas também viver. E assim segue o enredo, com doses cavalares de exposição antecipando esse arco. Os grandes momentos apontam para a comoção interminável e a trilha-sonora, como auge dos choros sufocantes, é quase pornográfica. Já em termos visuais, os enquadramentos são comuns, o que minimiza o impacto da relação desses personagens com o espaço. Baldoni consegue, ao menos, usar bem dos extremos dos planos como propostas de distanciamento mais claras. É uma direção só com momentos pequenos assim.

Em contrapartida, após a esquina das lágrimas sumir, mora a excelente Haley Lu Richardson e o próprio elenco em si do longa, que cria uma coerência dramática mais funcional. Cole Sprouse não é tão bom quanto a sua parceira em cena – sejamos sinceros -, porém, o ator melhora com o tempo, começando muito mais insosso do que terminando, em um processo que combina com sua personalidade, antes cínica. Esse amor entre os dois, na verdade, é mesmo uma crença possível ao espectador, com toques suaves no seu encaminhamento garantindo isso. E o personagem Poe (Moisés Arias) é interessante, intensamente vivido pelo seu ator. Essa ainda é uma experiência extremamente manipulativa, mesmo que com intenções minimamente boas. Permanece sendo um cinema de encomenda para um determinado público, sem trajar uma plena sinceridade na abordagem dos seus respectivos temas, importantes. Hollywood não trouxe muitas produções estreladas por personagens com fibrose cística.  Pelo menos, esse caso é pedagógico o suficiente.

A Cinco Passos de Você (Five Feet Apart) – EUA, 2019
Direção: Justin Baldoni
Roteiro: Mikki Daughtry, Tobias Iaconis
Elenco: Haley Lu Richardson, Cole Sprouse, Moisés Arias, Kimberly Hebert Gregory, Parminder Nagra, Emily Baldoni, Gary Weeks, Claire Forlani, Rebecca Chulew
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.