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Crítica | A Cizânia (Asterix)

por Ritter Fan
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A década de 1970 começou com força total para Asterix e Obelix, com um álbum inesquecível que introduz um dos mais interessantes vilões de todos: o prisioneiro romano Tulius Detritus que tem a especial capacidade de semear a discórdia com sua mera presença. Ele é, transportado a tempos presentes, aquele troll de internet particularmente inteligente que solta uma frasezinha qualquer com alguma posição controversa ou alguma opinião polêmica e todos os manés ao seu redor começam a brigar que nem loucos pelas coisas mais fúteis culpando o troll e não a si mesmos pela pancadaria verbal.

O baixinho e maquiavélico ser é recrutado por Júlio César como uma arma especial contra a única aldeia gaulesa que ainda não se submeteu ao seu controle depois que o Senado Romano o pressiona. Detritus é enviado para o acampamento de Aquarium, um dos quatro ao redor da aldeia, causando conflitos com todo mundo ao longo do caminho, para que ele use sua habilidade para quebrar a harmonia entre os gauleses, algo que ele faz ao entrar na aldeia com um presente para “o homem mais importante” dali, ou seja, Asterix e não o chefe Abracurcix que, por sinal, faz aniversário naquele mesmo dia. Isso basta para que seja desencadeada uma hilária confusão dos infernos, com todos brigando com todos para a total estupefação de Asterix, Panoramix e Obelix, os únicos que conseguem se manter inabalados (ou quase) pela cizânia que toma o lugar onde vivem.

Mas é claro que Asterix e Panoramix, por serem quem são, bolam um plano não só para frustrar os planos dos romanos, como também para dar o troco em seus próprios amigos que acreditaram imediatamente nas mentiras de Detritus. Isso desencadeia um vai-e-vem entre a aldeia e Aquarium, o que leva até a um momento inédito nos álbuns da série: os quatro acampamentos atacando ao mesmo tempo, algo que Albert Uderzo sensacionalmente desenha em apenas um mega-quadro de página inteira na horizontal, com numeração e legendas.

René Goscinny mostra-se particularmente inspirado em seu texto, trabalhando desde a relação de Júlio César com o Senado e com Brutus – e nós sabemos o que aconteceu, não é mesmo? -, passando pelas hilárias interferências de Detritus que transforma todo tipo de relação em basicamente uma guerra, com Uderzo obviamente divertindo-se demais com seus balões verdes com letras negritadas e em caixa alta e chegando até a gag de Abracurcix caindo ou sendo derrubado de seu escudo um penca de vezes das mais variadas maneiras. Da mesma maneira, a confusão dos romanos em Aquarium sobre a exata natureza do plano de Detritus e sobre se eles afinal têm ou não a poção mágica é de fazer qualquer um passar mal de rir.

A Cizânia é mais um clássico de Goscinny e Uderzo, uma verdadeira aula de narrativa humorística que não deixa a peteca cair por um segundo sequer. É uma brilhante e inesquecível sucessão de momentos tão divertidamente deliciosos que qualquer leitor abrirá um sorriso na primeira página que garantidamente permanecerá assim até o final das 50 páginas regulamentares.

Curiosidades:

  • Mais uma vez, os piratas se “auto-afundam”, desta vez em razão da discórdia causada por Detritus.
  • Naftalina faz uma “meta-referência” ao gritar com Abracurcix, seu marido, dizendo que “se um dia alguns imbecis escreverem  a história da aldeia, o título não vai ser As Aventuras de Abracurcix, o Gaulês”. E ela está certa, pois os imbec… digo, Goscinny e Uderzo escreveram a história da aldeia e não deram esse título mesmo…
  • Esse álbum é o primeiro a ter um banquete no meio da história (além do banquete final). E, mais interessante ainda, nesse primeiro banquete, só Chatotorix acaba participando e, no último, quando ele normalmente está “incapacitado”, ele participa também, ainda que amarrado à mesa.
  • Veteranix menciona Gergóvia e Alésia, a primeira em momentos de vitória e, a segunda, em momento de derrota. A Batalha de Gergóvia foi a grande batalha das forças de Vercingetórix contra as de Júlio César, com vitória gaulesa. Ao contrário, a gigantesca Batalha de Alésia, a última das chamadas Guerras Gálicas, foi onde Vercingetórix acabou se rendendo.
  • Pela primeira vez os quatro acampamentos romanos que cercam a aldeia gaulesa a atacam.
  • Pela primeira vez Uderzo faz uso de uma página inteira, desenhada na horizontal, para representar ação, especificamente a batalha dos romanos dos quatro acampamentos contra os irredutíveis gauleses.
  • Latim: auri sacra fames – Significa “execrável fome de ouro” e foi dita pelo poeta Virgílio quando condenou a ambição desmedida. A locução é dita pelo pirata mais velho quando o pirata negro é acusado pelo capitão de ficar com todo o ouro que Detritus diz que ele aceitou em troca de passagem segura.

Personagens (além de Asterix e Obelix):

  • Stradivarius: Senador romano que provoca Júlio César sobre a aldeia dos irredutíveis gauleses. Ele é apresentado como tendo “voz bem modulada” em óbvia referência ao seu nome, hoje sinônimo de violino, oriundo da família Stradivari, particularmente Antonio Stradivari.
  • Júlio César: Ditador romano. Aqui, ele é acusado de não conseguir manter a “paz romana” nas regiões conquistadas. A pax romana foi um período de paz, sem guerras civis, que tecnincamente começou somente no império de Augusto, depois da morte de Júlio César, ainda que a expressão já fosse usada bem antes.
  • Brutus: Senador romano próximo a Júlio César que faria parte da conspiração que assassinaria o ditador no Senado. Por duas vezes Júlio César diz para ele “até tu, Brutus” (Et tu, Brute), famosa frase que teria sido dita pelo ditador na hora de sua morte e que foi popularizada por William Shakespeare, tornando-se sinônimo, até hoje em dia, de traição. Na primeira vez, Brutus desembainha uma faca e, na segunda, fica chateado com a “alusão” e diz que um dia pode “perder a cabeça”. As referências à sua traição futura são claras.
  • Tullius Detritus: Especialista em causar discórdia usado por Júlio César como uma arma contra os gauleses.
  •  Pompeu (só menção): Na cizânia durante o concilium que César convoca, o nome de Pompeu é mencionado como tendo sido a pessoa a quem outros presentes ali se uniram para trair César. Trata-se de Cneu Pompeu Magno, originalmente aliado de César, formando com ele inclusive o Primeiro Triunvirato, mas que, depois, disputou o poder, levando a uma guerra civil entre os dois. Pompeu foi derrotado na Batalha de Farsalos, sendo, depois assassinado no Egito, para onde fugiu.
  • Vitoriadepirrus: Tripulante do navio que transporta Detritus para a Gália. O nome vem da expressão “Vitória de Pirro”, ou seja, uma vitória em termos técnicos, mas que causa tanta devastação em quem ganhou, que é a mesma coisa que uma derrota. Ela vem de uma citação do rei grego Pirro que, ao triunfar na Batalha de Asculum em 279 a.C., tem suas forças dizimadas, efetivamente levando ao fim de sua campanha.
  • Veracrus: Outro tripulante que transporta Detritus para a Gália.
  • Caius Aerobicus: Centurião romano do acampamento de Aquarius. Ele foi desenhado com as feições do ator italiano Lino Ventura.
  • Motocontinus: Legionário romano grandão, mas burrão, que é usado por Detritus em seu plano para fazer parecer que os romanos têm a poção mágica, batizando seu estratagema de “guerra psicológica”, algo que o legionário adota como sinônimo de usar o porrete nas pessoas. Seu nome original, Savancosinus é uma homenagem ao sábio Cosinus, personagem em quadrinhos criado por Christophe, em 1893.

Locais:

  • Roma: senado e casa de veraneio de Júlio César.
  • França/Gália: Aldeia gaulesa e arredores e acampamento fortificado romano de Aquarium, um dos que cercam a aldeia gaulesa.
  • Munda (Montilla) – só menção.

A Cizânia (La Zizanie, França – 1970)
Roteiro: René Goscinny
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Pilote (serializada em 1970 e lançada em formato encadernado em 1970)
Editoras no Brasil: Editora Record (em formato encadernado)
Páginas: 50

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