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Crítica | A Colina dos Homens Perdidos

por Ritter Fan
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Quando A Colina dos Homens Perdidos (ou somente The HillA Colina – no original) estreou nos cinemas em 1965, Sean Connery já havia vivido James Bond três vezes, com uma vindoura quarta vez no final daquele mesmo ano, e foi o sucesso desses filmes e seu catapultamento quase instantâneo para o estrelato mundial que efetivamente tornou possível a produção deste pouco lembrado drama de guerra que dobra como drama de prisão em uma das melhores atuações do escocês e sua primeira e prolífica parceria com Sidney Lumet. Baseado em obra originalmente escrita para a televisão por Ray Rigby e R.S. Allen, com o primeiro tendo escrito também o roteiro cinematográfico, o longa é um impressionante retrato da violência física e psicológica em prisões militares, além de um incrível estudo de personagens.

A primeira imagem da obra é a tal colina do título, um morro artificial construído no centro de uma prisão britânica para soldados britânicos no deserto da Líbia durante a Segunda Guerra Mundial. Muito mais do que a aridez e o calor do lugar ou do que os exercícios extenuantes que vemos os soldados presos fazerem, a colina, observando todos de seu cume, é o símbolo da opressão, da brutalidade e da indiferença que reina no lugar. Quando a geografia do lugar é bem estabelecida por um travelling de grua que começa com closes e acaba em uma fantástica tomada aérea em plano geral e quando a hierarquia é vislumbrada, com um comandante sem nome (Norman Bird) que está sempre ausente, deixando tudo ao encargo do segundo em comando, o major Bert Wilson (Harry Andrews), que, por sua vez, é discretamente manipulado por um violento oficial subalterno, o sargento Williams (Ian Hendry), há o recorte que passa a ser o foco quase único da história: cinco novos prisioneiros chegam à base e é a partir deles que passamos a compreender o significado literal e metafórico da onipresente colina.

O novo grupo é formado por Monty Bartlett (Roy Kinnear), um recruta fora do peso que nunca viu combate na vida, Jock McGrath (Jack Watson), soldado com reputação de brigão, George Stevens (Alfred Lynch), que todos acham ser homossexual, Jacko King (Ossie Davis), o único negro e Joe Roberts (Connery), o de mais alta patente no grupo e cuja reputação o precede por ter agredido um oficial superior, recusando-se a cumprir ordens e sendo taxado de covarde. Roberts, claro, é o foco da fúria de Williams, protegido por Wilson, com King, unicamente por sua cor da pele, também sendo alvo de todo o tipo de preconceito, o que acaba afetando o grupo como um todo que não só divide uma única cela, como também é tratado separadamente dos demais em um artifício inteligente do roteiro para destacá-los na história, criando um microcosmo mais facilmente observável.

Para além dos eventos imediatamente reconhecíveis como tais e que fazem de certa forma a mímica do que esperamos de um filme de prisão, A Colina dos Homens Perdidos estabelece discretamente o choque de classes, algo que Lumet faz questão de transformar em uma sub-trama que tem como função dar um contexto ainda maior para a violência – direta e indireta, esta por meio de exercícios torturantes – crescente a que os cinco prisioneiros são submetidos. Joe Roberts, para todos os efeitos, representa o homem comum, o trabalhador que faz o que precisa fazer legalmente para sobreviver. Isso é reiterado inclusive por uma linha de diálogo em que Roberts muito claramente diz que ele está no exército muito mais por falta de opção do que por qualquer outra coisa. Por seu turno, o major Bert Wilson representa a aristocracia britânica que usa a hierarquia militar rígida para manter o status quo entre opressor e oprimido, isso tudo em um contexto histórico em que o Império Britânico estava justamente deixando de ser um império. O fato de Connery ser escocês só amplifica metalinguisticamente essa questão.

Elegantemente insolente, Roberts navega essas águas turbulentas da melhor maneira que pode, tentando cuidadosamente virar os holofotes para a violência que impera ali e os responsáveis por ela, vagarosamente aliciando a ajuda do sargento Harris (Ian Bannen), que se mostra humano e genuinamente preocupado com o bem-estar dos prisioneiros e do médico da prisão (que permanece sem nome como o comandante) vivido por Michael Redgrave. É, no final, das contas, uma representação da luta de classes em um ambiente rígido, inamovível em que qualquer movimentação incomum é lidada de maneira ríspida e pesada, seja do lado psicológico, seja do físico.

É, portanto, essencial que a presença de Ossie Davis no elenco não seja ignorada. O ator americano que vive um soldado de uma das colônias do Império Britânico atrai toda a ignorância, preconceito e raiva cega dos oficiais superiores, com xingamentos pesados que seu personagem recebe com um sorriso amargo e doloroso no rosto. De todos os novos prisioneiros, ele é o único que instintivamente percebe a luta de Roberts, permanecendo constantemente ao seu lado até explodir em sequências em que ele renuncia o exército britânico e reverte ao tipo de “selvagem” que os racistas acham que ele é. É uma retratação corajosa do preconceito racial que deixa um gosto amargo de revolta em quem quer que assista ao longa, especialmente porque Lumet abre um grande espaço para Davis externar toda a frustração de seu personagem, em uma performance que, nesse momento, se iguala à de Connery que, por seu turno, vive um de seus mais importantes papeis e entrega um de seus melhores trabalhos dramáticos, muito longe da suposta canastrice daqueles que mal conhecem a filmografia do ator fora de 007 costumam rotulá-lo.

A fotografia em preto e branco de Oswald Morris, de Oliver! e Um Violinista no Telhado, é primorosa, com o uso do branco das rochas das laterais da colina para contrastar com a areia escura e para amplificar a aridez e a inclemência solar, além de lidar muito bem com a iluminação no interior da prisão e das celas. Lumet, lógico, é um mestre do uso do espaço cênico e suas tomadas gerais da prisão são belíssimas, assim como ele lida com a distribuição do confinamento da cela única compartilhada pelos cinco condenados, de maneira a atrair a observação do espectador para quem ele deseja sem recorrer apenas a close-ups óbvios. Diria que meu único problema na direção de Lumet está mais especificamente localizado nos jump cuts que ele usa para reiterar algumas reações ou para lidar com pequenas surpresas, como na cena em que Roberts é levado a uma cela por Williams e, quando ele se vira, há três outros soldados na porta, com o picote resultante distraindo mais do que servindo a seu propósito.

Mas essa característica da montagem, por não ser constante, acaba não detraindo do todo e A Colina dos Homens Perdidos muito facilmente estabelece-se como uma obra-prima de seu gênero e um dos grandes filmes da ilustre carreira de Lumet e Connery. Um pequeno e dilacerante recorte da guerra como escada para estudos de personagens e uma abordagem refrescante sobre o conflito de classes, tudo em um pacote visualmente arrebatador que merece ser redescoberto.

A Colina dos Homens Perdidos (The Hill – Reino Unido/EUA, 1965)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Ray Rigby (baseado em obra de Ray Rigby e R.S. Allen)
Elenco: Sean Connery, Harry Andrews, Ian Bannen, Alfred Lynch, Ossie Davis, Roy Kinnear, Jack Watson, Ian Hendry, Michael Redgrave, Norman Bird, Neil McCarthy, Howard Goorney, Tony Caunter
Duração: 123 min.

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