Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | A Colina Escarlate

Crítica | A Colina Escarlate

por Rafael W. Oliveira
294 views (a partir de agosto de 2020)

Se há algo que dignifica o cineasta Guillermo Del Toro como um ator de marca maior em meio aos cenários pretensiosos de Hollywood, é primeira e principalmente sua habilidade em imprimir sua própria identidade em grandes projetos de estúdio, veículos populares que, em maior ou menor proporção, sempre são infestados pelo “jeitinho Del Toro” de narrar uma história. Sem isto, títulos como Blade 2, os dois Hellboy ou até mesmo o fabulesco O Labirinto do Fauno jamais teriam alcançado o êxito que obtiveram, e isto se deve muito a forma peculiar com que o diretor mexicano enxerga suas histórias e personagens… ou melhor, criaturas.

Pois sim, como um amante da dubiedade entre o que é belo e bizarro, nada mais justo que uma trama de fantasmas como a de A Colina Escarlate caísse nos colos do diretor, que ao lado de Matthew Robbins (com que já havia trabalhado em Mutação), assina o script, que busca seus ecos em cima das escolas literárias de horror gótico como Mary Shelley ao lado do romantismo renegado de Jane Austen, referências estas muito claras pela personagem de Mia Wasikowska, Edith, que após a morte do pai, Carter Cushing (Jim Beaver), conhece e se casa com o aristocrata Thomas Shape (Tom Hiddleston, o Loki de Os Vingadores), um homem de negócios que viaja aos EUA em busca de uma máquina específica que lhe ajudará a extrair a argila vermelha que circunda sua propriedade, uma mansão para onde o casal se muda após sua união. Edith e Thomas dividem sua convivência com a irmã do magnata, a sombria Lucille (Jessica Chastain, de A Hora Mais Escura), e não demora para que Edith se veja envolvida pelo passado fantasmagórico e horrorífico dos irmãos.

Com um potencial de revisitação aos primórdios do horror nas mãos de alguém como Del Toro, que de tão versátil na área do cinema fantástico também deu vida ao irmão inteligente de Transformers, o divertidíssimo Círculo de Fogo, é de se espantar que o estudo das imagens do diretor sobre toda a concepção gótica dos cenários, figurinos e ambientação seja tão asséptica. Há um notável conflito entre a visão de Del Toro e as típicas imposições de estúdio que exigem o maior número de concessões possíveis para que o público se satisfaça, e nisto A Colina Escarlate é afetado em seu equilíbrio sobre tentar ser um romance gótico ou um melodrama de terror. Peca nos dois sentidos.

Mas algo a ser muito admirado nos filmes de Del Toro, e que novamente se repete aqui, é a coesão entre o olhar de sua câmera e o deslumbre promovido pela direção de arte, figurino e maquiagem, aqui essenciais para que a narrativa se estabeleça como quer. A mansão dos Shape, em especial, concebida pelo designer de produção Thomas E. Sanders, que a transforma em um monumento colossal, opressor, imponente e misterioso, algo ressaltado pela constante presença da chuva, o ambiente externo coberto de neve (num belíssimo contraste com a argila vermelha) e, claro, a fotografia mergulhada em luzes azuladas e cinzentas de Dan Laustsen, toda em tons esmaecidos. E nestes cenários escuros, os figurinos que variam entre o vermelho, o preto e o dourado acentuam pontualmente os mistérios e a violência iminente que cercam a mansão.

Porém, nem só de exuberância técnica sobrevive um filme, e diante de sua mão pesada que cede a convenções bobas do roteiro e deixa em explícito o que jamais pede pra ser desta forma, A Colina Escarlate é rapidamente minado. Del Toro e Robbins parecem não acreditar nas próprias palavras de sua protagonista, que também escritora, define seus contos como histórias com fantasmas, e não sobre fantasmas, algo contrariado pelo desenrolar nada sutil do roteiro, que resolve seus plots antes do que deveria (a correria final é um exemplo de como o filme quer chegar rápido demais aos seus finalmentes), e todas as cenas colocam os tais fantasmas em cenas, artificializados por efeitos digitais que quebram por completo a imersão mágica e apelam para jump scares que, nas mãos de Del Toro, se tornam artifícios inconcebíveis. Isto, por sinal, também desvaloriza o trabalho de movimento do sempre impressionante Doug Jones (o Andy Serkis de Del Toro), cujo esforço some diante da digitalização farsesca das aparições.

E se os personagens conseguem, ao menos, ser bem delineados pelo roteiro, lhe faltam intérpretes que igualmente encontrem o tom do que lhes é exigido. Wasikowska, apesar de não tão inexpressiva quanto no filme que lhe lançou ao estrelato, o infame Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, segue como uma atriz de presença passiva demais para uma personagem muito acima destas aceitações, o que lhe irregulariza na pele de Edith. Tom Hiddleston, ator que Hollywood frequentemente insiste em vender como galã (algo miseravelmente falho), falha na química com Wasikowska e constrói uma figura cujo romantismo e tristeza são engolidos pelo fator detestável de suas ações. E Chastain, talvez no ponto mais equivocado de sua carreira, se entrega a uma caricatura que ultrapassa os limites do bom equilíbrio, algo o qual o equivocado clímax insiste em deixar claro com seus plots esquematizados.

Com tantos problemas primários e equívocos quase inexplicáveis vindo de um nome como Del Toro (que no fim das contas, acaba sendo o menor culpado por aqui), não há estilo que salve A Colina Escarlate do fraco resultado, e por mais impressionante visualmente que seja, lhe falta cuidado, compreensão e uma lapidação mais imaginativa sobre este potencial conto com fantasmas.

A Colina Escarlate (Crimson Peak) – Canadá/EUA, 2015
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro, Matthew Robins
Elenco: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman, Leslie Hope, Jonathan Hyde, Bruce Gray, Emily Coutts, Doug Jones
Duração: 119 min.

Você Também pode curtir

25 comentários

Cadê o Yoshi? 3 de fevereiro de 2018 - 02:35

“(…algo miseravelmente falho), falha na química…”
Falho Falha
Falho Falha
Falho Falha
Falho Falha
😂

Responder
Mariana 2 de fevereiro de 2018 - 17:09

A única coisa que prestou no filme foi Hiddleston como galã, 😉

Responder
Jefferson Viana 1 de fevereiro de 2018 - 12:10

Esse filme coloco naqueles de “quase bom”, lindo o filme, potencial gigantesco, mas senti falta de uma roteiro melhor. Não entendi bem a critica ao Hiddleston, é apenas sobre vender ele como galã ? nesse filme nem considerei esse fator.

Responder
Rafaela Oliveira 1 de fevereiro de 2018 - 10:21

Não vou negar, gostei muito

Responder
Rafaela Oliveira 1 de fevereiro de 2018 - 10:21

Não vou negar, gostei muito

Responder
Isis Alves 24 de dezembro de 2017 - 16:25

De início até despertou certa expectativa positiva porém, passado alguns minutos do filme tudo começou q ficar muito chato e previsível. Trilha sonora de filme de princesas de Walt Disney e cenas e expressões pra lá de clichês causam irritação e tédio. Eu diria que o único aspecto positivo do filme é o figurino, ambientação e fotografia. No mais… Fraco demais!

Responder
Isis Alves 24 de dezembro de 2017 - 16:25

De início até despertou certa expectativa positiva porém, passado alguns minutos do filme tudo começou q ficar muito chato e previsível. Trilha sonora de filme de princesas de Walt Disney e cenas e expressões pra lá de clichês causam irritação e tédio. Eu diria que o único aspecto positivo do filme é o figurino, ambientação e fotografia. No mais… Fraco demais!

Responder
JJL_ aranha superior 30 de junho de 2016 - 12:54

A história, mesmo que previsível (pra alguns), ainda é intrigante principalmente se analisar a execução e as entre-linhas, isso sem falar da atuação estupenda da chastain que rouba a cena. Eu também gostei de não ser aquele terror que só quer dar susto mas procura explorar a atuação dos atores (mia wasicowsca também foi ótima, variando entre forte, vulnerável e forte denovo) e o significado do sobrenatural.

Responder
JJL_ aranha superior 30 de junho de 2016 - 12:54

A história, mesmo que previsível (pra alguns), ainda é intrigante principalmente se analisar a execução e as entre-linhas, isso sem falar da atuação estupenda da chastain que rouba a cena. Eu também gostei de não ser aquele terror que só quer dar susto mas procura explorar a atuação dos atores (mia wasicowsca também foi ótima, variando entre forte, vulnerável e forte denovo) e o significado do sobrenatural.

Responder
Annie 20 de outubro de 2015 - 15:28

Não sei se o pessoal anda mais exigente ou não assistem os filmes com o mesmo ‘olho’ que eu. Vi tanta gente criticando Crimson Peak que quase perdi a chance de ver no cinema. Agora tenho é mais certeza que as pessoas não viram o mesmo filme que eu, ou foram no cinema esperando outro filme.

http://anniebitencourt.com.br/a-colina-escarlate-spoilers-resenha/

Responder
Denise Gigliotti 19 de outubro de 2015 - 13:30

Eu adorei, esse filme é para quem curte o genero , tudo é lindo e prende a atenção do inicio ao fim !

Responder
Lucas Nascimento 20 de outubro de 2015 - 15:01

O filme é realmente lindo e perfeito no visual! Mas… De resto, não me prendeu.
E olha que eu gosto do gênero.

Abrax!

Responder
Matheus Fragata 20 de outubro de 2015 - 20:43

Prende a atenção com uma ótima dose de cafeína hehe

Responder
Maitê 17 de outubro de 2015 - 19:33

Confesso que eu não tenho nenhum problema em assistir a um filme recheado de clichês. Chichês podem te surpreender. Na mão de um bom diretor que sabe tirar o máximo de seu elenco devidamente acompanhado de uma boa trilha sonora e pronto! Você sai feliz da sala de cinema. A Colina Escarlate estava indo bem. No início me lembrava muito aquele clima soturno da mansão e o triângulo esposa-marido-governanta em Rebecca, A Mulher Inesquecível, … SPOILER … mas assim que aquele fantasma sanguinolento se arrasta pelo corredor da mansão eu me lembrei de um zumbi no arco do Hospital em TWD e fiquei esperando o Rick Grimes aparecer para matá-lo. Depois que outro “zumbi” aparece na banheira com uma faca cravada no meio da cabeça, eu esperei pela Michonne e então tudo ficou risível. Fala sério, filme dirigido por Guillhermo Del Toro não pode ser risível, especialmente quando a personagem leva uma facada do lado esquerdo do peito e corre feito uma louca escadas abaixo! Tá bom licença poética!!!! Mas valeu pela atuação da Jessica “Workaholic” Chastain.

Responder
Lucas Nascimento 20 de outubro de 2015 - 15:00

Hahahaha, comparação certeira com TWD, ainda que eu goste do visual dos fantasmas. Realmente, o filme se perde muito a partir de certo ponto, e mesmo que seja ridículo o rumo que a personagem de Chastain tome, a atriz certamente se diverte ali e gostei de vê-la totalmente surtada.

Abrax!

Responder
Matheus Fragata 20 de outubro de 2015 - 20:42

Maitê, a melhor parte é quando a Chastain vira o Batman! *wooosh*, turns back, *woooosh*. Hahahahaha

Responder
Matheus Fragata 14 de outubro de 2015 - 18:42

Terror? Não. Romance? Nem um pouco. Fantasia? Muito menos.
É chato? Terrivelmente chato.

Responder
Lucas Nascimento 14 de outubro de 2015 - 21:58

CHATÃO

Responder
Junito Hartley 15 de outubro de 2015 - 00:23

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Poha gostei do trailer queria ir ver no cine 🙁

Responder
Matheus Fragata 15 de outubro de 2015 - 13:29

Nesse momento em que tudo está praticamente caro no país, não recomendo. Espere umas duas semanas e pegue a sessão de quarta-feira à tarde. Aí o filme deve sair por volta de 12 reais. Mas pagar mais que isso, é furada. Abs

Responder
Maitê 17 de outubro de 2015 - 23:48

Como assim, “tudo caro no país”? O Brasil não tem crise, tudo está lindo, maravilhoso. “Nunca na história deste país…” os ingressos de cinema foram tão acessíveis a todas as classe sociais. Ninguém precisa de Bolsa Cinema.

Responder
Matheus Fragata 20 de outubro de 2015 - 20:41

Temos o “Borsa Curtura”, Maitê!!!!

Raquel 20 de outubro de 2015 - 07:43

é um filme visualmente bonito com roteiro de sessão da tarde ..

Responder
Lucas Nascimento 20 de outubro de 2015 - 15:01

Eu não poderia ter colocado melhor!

Annie 20 de outubro de 2015 - 15:30

eu paguei 8 reais apenas hahaha Vantagem de fazer um curso é isso

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais