Crítica | A Colmeia (1969)

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Quando filmou A Colmeia, o diretor Carlos Saura já tinha no currículo dois grandes filmes: A Caça (1966) e Peppermint Frappé (1967), e já nesses longas o diretor tratava de paixões e desejos, de questões psicológicas e de instituições apodrecidas, tudo através de alegorias. Esse tipo de abordagem seria a tônica de toda uma fase do artista, focando em diferentes problemas ou grupos, mas sempre trazendo à tona o sangrento charme de uma burguesia que se achava longe demais dos “velhos tempos do generalíssimo“, mas que ainda vivia sob as botas da ditadura e sob o peso de uma culpa cristã ainda ressentida por ver o seu quinhão comportamental arrancado do núcleo do poder, com o enfraquecimento do infame regime que apoiou e o tímido prenúncio de mudanças sociais pela frente.

O olhar mais atento e ácido para o núcleo familiar como péssimo reflexo de uma sociedade em crise (fase que na filmografia de Saura alcançaria o ápice com a trilogia formada por Ana e os Lobos, Cria Corvos e Mamãe Faz 100 Anos) tem em A Colmeia uma abordagem psicológica, agarrando-se à neurose, à crise emocional e sentimental, aos traumas e à total representação disso via teatrinhos, jogos de fingimento onde a criatividade e a imaginação não funcionam como fuga da realidade, mas uma lamentável prisão. Ou pior, uma prisão numa realidade ainda pior que a presente, não disfarçada pela máscara de “família tradicional rica” ou do “empreendedor, inovador e cidadão de bem“.

Através dos brincadeiras que rememoram passado — numa corrupção que o roteiro faz do chiste –, conhecemos a dualidade que marca a vida do casal Teresa (Geraldine Chaplin) e Pedro (Per Oscarsson). Ela é uma mulher infantilizada, cujo vício no passado a coloca em situações que misturam o ridículo e um claro desequilíbrio psicológico; já ele é um homem que negócios que lentamente vai sendo consumido pelo efeito dos teatrinhos da esposa, em situações que majoritariamente dá a ele poder sobre a mulher, diferente do que ocorre na vida real. O aspecto freudiano no roteiro é mais do aberto ao mostrar a fixação de Teresa pela figura paterna. Sua recusa de viver a realidade, porém, não é bem definida pelo roteiro, de modo que o espectador pode aludir ao caminho que achar melhor, uma vez que o filme como um todo nos dá material suficiente para justificar essas tantas possibilidades.

E há o impasse da adequação dessa proposta. O texto demora muito tempo para engrenar e, diferente do filme seguinte do diretor, com seu olhar crítico para o comportamento da burguesia (O Jardim das Delícias) a intenção geral da obra acaba com uma deixa que não deveria existir. A proposta em si é interessante e cada jogo pode ser visto como uma alfinetada do texto para um tipo de comportamento ou grupo social. Notem que os figurinos de Teresa sempre mudam de cor e modelo, enquanto Pedro pode até trocar de roupa mais acaba variando entre o roupão ou o terno e gravata, o que também define o engajamento de cada um deles nesses jogos. Mas como sempre acontece, chega um momento em que mesmo os mais alienados quebram com o motivo de seu isolamento do mundo, de seu enfrentamento quixotesco com a realidade, sobrando apenas o desespero. E quando bate o desespero, o desequilíbrio emocional traz de brinde a violência e não raro, a tragédia.

Pensado apenas em suas partes, A Colmeia acaba sendo bem melhor do que se for visto como um todo. Ainda assim, é um interessante exercício que mostra o quanto pessoas fazem de tudo para se manter na toca, com a mobília, as roupas e as memórias de um passado grandioso, cheio de charme, risos e até santidade e sacrifícios. O presente, para esses indivíduos, é visto com certa hostilidade e rejeição. O que importa que falem mal deles? Importa é que as verdades que têm para falar são mascaradas em um jogo que os aprisiona não apenas como indivíduos, mas também como cidadãos, pois esse mesmo comportamento é parte de seu isolamento na sociedade. Um filme sobre como o que poderia ser algo divertido e inteligente, acaba se tornando alimento para uma neurose que, mais dia menos dia, irá explodir. Olhem vocês os jornais. Está cheio de exemplos disso por todos os lados.

A Colmeia (La Madriguera) — Espanha, 1969
Direção: Carlos Saura
Roteiro: Carlos Saura, Rafael Azcona, Geraldine Chaplin
Elenco: Geraldine Chaplin, Per Oscarsson, Teresa del Río, Julia Peña, Emiliano Redondo, María Elena Flores, Jesús Nieto, Gloria Berrocal
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.