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Crítica | A Colônia (1997)

Aquela mixórdia que diverte.

por Ritter Fan
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Depois de John Woo, com O Alvo e Ringo Lam, com Risco Máximo, foi a vez de Tsui Hark, outro diretor chinês, mais precisamente de Hong Kong, estrear em Hollywood tendo Jean-Claude Van Damme como veículo e, ainda por cima, fazendo dobradinha com ninguém menos do que Dennis Rodman, jogador de basquete americano então no Chicago Bulls e que um dia se tornaria melhor amigo de Kim Jong-un, “Supremo Líder” da Coréia do Norte e tendo como antagonista Mickey Rourke, com uma invejável forma física. O resultado dessa combinação é uma mais do que completa mixórdia cinematográfica que, porém, inexplicavelmente, acaba funcionando em um nível “só aceite e se divirta” que volta e meia é tudo o que precisamos.

A confusão infernal já começa na história do longa que não sabe muito bem o que quer ser. Mas, em linhas gerais, ela gira em torno da rivalidade entre os arqui-inimigos Jack Paul Quinn (Van Damme), agente antiterrorismo, e Stavros (Rourke), um terrorista internacional que trabalha para qualquer um que pagar mais. Entre um preâmbulo duplo que lida com a última missão de Quinn, sua aposentadoria e seu retorno ao trabalho, deixando a esposa grávida em casa, o envio do agente para uma ilha misteriosa em uma sidequest que parece ser uma homenagem à clássica série sessentista britânica O Prisioneiro (e que justifica o título em português) e uma parceria entre ele e Yaz (Rodman), um comerciante de armas que usa figurinos e cortes de cabelo mais do que extravagantes, para salvar sua família, o longa literalmente atira para todos os lados, mais parecendo uma colagem de ideias que lembra de longe algo que talvez, com boa vontade, pareça uma obra cinematográfica.

Afinal, o roteiro de Don Jakoby e Paul Mones não poderia ser mais episódico, com cada “capítulo” tendo suas características e seus chamarizes, como o que Quinn é enviado para a tal Colônia  e, claro, bola um plano para escapar que comicamente envolve o levantamento de banheiras cheias d’água e automutilação ou quando cada cena em que Yaz aparece ele está com um figurino e um corte de cabelo diferentes, não interessando o tempo que tenha se passado entre uma e outra. No quesito direção, se o espectador acha que muitas vezes um cineasta consegue até corrigir o rumo de roteiros em pedaços como este aqui, Tsui Hark faz justamente o contrário e põe ainda mais lenha na fogueira, com o uso enlouquecido de câmeras em ângulos para lá de estranhos, close-ups com profundidade de campo total que parecem recortes em cartolina feitas amadoristicamente e uma montagem que tem como objetivo parar cenas de ação no meio e não acabá-las naturalmente.

Mas, como eu disse, apesar disso tudo, uma coisa A Colônia faz muito direitinho, ou seja o filme abraça sua insanidade e, ao fazer isso, os defeitos citados acima tornam-se maneirismos extremos não para serem levados a sério, mas sim para arrancar risos inadvertidos e também propositais, como são as “pombas da paz” e as câmeras lentas de John Woo, por exemplo. Com diálogos entre Van Damme e Rodman que invariavelmente evocam linguagem de jogos de basquete e sequências inteiras feitas para exatamente nos lembrar – de novo! – que o suposto ator é um jogador de basquete mesmo considerando sua constantemente hilária aparência surreal e cenas com Stavros que existem para mostrar o quão badass ele em tese é, com direito a um tigre usado como arma, além de uma infinidade de capangas variados, um deles um Bruce Lee genérico e ligado no 220 que é capaz de segurar e usar uma faca com os pés, tudo existe apenas com o objetivo de não deixar o espectador parar para pensar sequer por um minuto e extasiar-se com uma bobagem atrás da outra. Em outras palavras, se o espectador entrar na brincadeira, há para todos os gostos aqui, menos para quem quiser algo minimamente sério e/ou coerente e/ou com lógica interna que não seja a lógica do vale-tudo.

Aliás, que fique muito claro que eu entenderei perfeitamente se A Colônia desagradar muita gente, mesmo aqueles fãs inveterados do lutador belga, pois o longa realmente tem uma série de problemas, tantos que meus comentários apenas abordaram alguns, talvez os mais importantes. No entanto, tenho uma apreciação especial por esse devaneio narrativo de Tsui Hark exatamente por eu conseguir vividamente imaginar o cineasta, depois de ler o roteiro sem pé, nem cabeça que lhe foi entregue, bater os punhos no peito como um gorila, olhar diretamente nos olhos dos produtores e afirmar, com toda a segurança do mundo, algo como “pode deixar que eu tiro de letra!”. E ele tirou, mesmo que seu longa de estreia em território americano seja um compilação de sequências ensandecidas com “atores” entre aspas, tigres, destruição de patrimônios históricos e, lógico, máquinas de Coca-Cola.

A Colônia (Double Team – EUA/Hong Kong, 1997)
Direção: Tsui Hark
Roteiro: Don Jakoby, Paul Mones (baseado em história de Don Jakoby)
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Dennis Rodman, Mickey Rourke, Natacha Lindinger, Paul Freeman, Valeria Cavalli, Jay Benedict, Joëlle Devaux-Vullion
Duração: 93 min.

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